Becas ensangüentadas...

Elias Mattar Assad

Recebi manifesto de um colega advogado da região centro-oeste do Brasil: “Tenho acompanhado suas matérias relacionadas a procedimentos criminais em nosso país. Nossos pares estão sendo atacados e busco apoio para poder valer os nossos direitos. Trata-se de uma operação realizada em outubro de 2006 pela Polícia Federal local, na qual foram presas 24 pessoas, dentre as quais eu e quatro colegas. Esta operação foi dirigida em forma de espetáculo com um aparato de 120 policiais e execração pública por todos os meios de comunicação. Acontecimento, até então, inédito em nossa Comarca, provocando junto à população um estarrecimento que até hoje se faz sentir. Porém, nada mais se fala, a não ser conquistas junto ao Tribunal de Justiça dos recursos interpostos.
Como resultado da operação, bombasticamente anunciada como desarticuladora de uma poderosa quadrilha de narcotraficantes, não restou sequer a apreensão de 1 (um) grama de droga. Por outro lado, além das nulidades processuais detalhadas em nossas defesas, restou a dor moral, o constrangimento, o abalo em muitas relações sociais e o comprometimento de uma até então promissora carreira profissional, que terei de suportar por muitos anos. A truculência e a inobservância dos mais elementares dispositivos inerentes ao Estado de direito, duramente conquistados, foram afrontados.
Os advogados dos indiciados, mesmo munidos de procuração, foram peremptoriamente impedidos de terem acesso aos autos, numa flagrante e inaceitável afronta à Lei Federal n° 8.906/94 (EOAB). Não bastasse, igualmente impossibilitaram aos advogados a verificação (e até mesmo a existência) das provas produzidas, restando fulminados os princípios constitucionais do contraditório e amplitude de defesa, colunas mestras do ordenamento jurídico pátrio.
Somente agora, em data recente, foi possibilitado ao notificado a verificação do inquérito policial e o seu conseqüente processo... Fui obrigado a fechar o escritório, perdi a maioria dos clientes, estou com os bens apreendidos, como computadores, veículos e outros além de sofrer a pecha por alguns, de associado ao tráfico... Do massacre, sacudo o sangue que ainda escorre dos meus ombros e revivo entre mortos e feridos. Estou precisando de apoio para melhor convalescer, pois, até a presente data não tivemos oportunidade de esclarecer todo o ocorrido. Sinto a necessidade de poder andar de cabeça erguida. Desta forma, peço que leia as defesas e nos sugira o que fazer para termos de volta a nossa dignidade...”
Analisei as peças remetidas e me solidarizo com os colegas. Estou encaminhando cópias e solicitando providências junto a Comissão de Defesa das Prerrogativas do Conselho Federal da OAB. Ao mesmo tempo vou sugerir que o Conselho Federal faça um levantamento minucioso de todas essas operações policiais espetaculosas dos últimos tempos, envolvendo advogados, com uma correlação documentada entre o que foi anunciado e o que foi efetivamente apurado nos processos...

Elias Mattar Assad é presidente da Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas.


O bom combate

Marcos Cintra

A recomendação quase unânime dos economistas é que cortando os gastos públicos haveria uma redução rápida dos juros reais e o câmbio seria corrigido. Assim, a economia brasileira voltaria a crescer de modo acelerado.
Existem, contudo, insuperáveis dificuldades políticas e sociais para cortar gastos do governo. O melhor caminho a ser seguido é acelerar o crescimento econômico, mantendo constantes os gastos nominais. Vale lembrar que a aceleração do crescimento teria que vir de fontes exógenas, independentemente de qualquer alteração voluntarista em variáveis como juros e câmbio.
O debate sobre como retomar o crescimento não deveria mais se situar no campo da política macroeconômica de estabilização, mas, sim, no âmbito específico da teoria do desenvolvimento e crescimento econômicos. Essas duas áreas da economia não devem ser confundidas.
É um erro acreditar que, reduzindo os custos da política de estabilização, como administrar o câmbio e acelerar a redução das taxas de juros, se estará criando condições sustentadas de crescimento. Pelo contrário, o resultado poderá ser a desestabilização da economia, pondo a perder as conquistas obtidas ao longo dos últimos anos.
As variáveis tradicionais, como recursos naturais, poupança e investimentos, determinam apenas parcialmente o crescimento econômico.
Fatores intangíveis como capital humano, educação, nível tecnológico, segurança jurídica, respeito a contratos, estabilidade institucional, marcos regulatórios bem definidos, bem-estar pessoal como saúde e segurança, credibilidade política, tamanho adequado do Estado e carga tributária suportável são as verdadeiras determinantes do crescimento. As variáveis de política macroeconômica influenciam o crescimento de forma transitória.
Em resumo, como afirmou recentemente Otávio de Barros em debate no Conselho Superior de Economia da Fiesp, o “bom combate” não está na crítica aos juros ou ao câmbio, mas, sim, nas reformas necessárias para aperfeiçoar institucionalmente a economia brasileira. E, infelizmente, nesse campo somente existe espaço para pessimismo.
As reformas política, tributária, do judiciário, previdenciária e trabalhista não têm andamento; o ambiente político se deteriora a olhos vistos. Não há avanços na questão da segurança pessoal e patrimonial; cresce o desrespeito à propriedade e às decisões judiciais. Os investimentos em saúde e educação mostram-se cada vez mais insuficientes para equiparar o Brasil aos padrões internacionais.
É preciso se concentrar nessas variáveis instrumentais de aceleração do crescimento econômico e deixar o Banco Central e as autoridades monetárias prosseguirem com seu trabalho, que, em termos gerais, só merecem elogios pelos resultados alcançados.

Marcos Cintra Cavalcanti de Albuquerque é doutor em Economia pela Universidade Harvard (EUA), professor titular e vice-presidente da Fundação Getulio Vargas.


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