ADEMAR MARTINS FERREIRA
Uma onda de boatos tem sido veiculada em Americana há cerca de um
ano tratando da perda de indústrias para cidades vizinhas. Em grande
medida, se trata de mais um mito urbano, tema tratado em Sociologia Urbana
e Antropologia Urbana.
Os mitos urbanos tratam de crenças sobre o futuro, principalmente o
desenvolvimento ou a perda da corrida pelo desenvolvimento. O segundo fenômeno
é o que acontece atualmente em Americana. A cidade foi atingida há
mais de uma década pela invasão dos asiáticos e desde
então não se recuperou.
Em 1997, uma pesquisa do Nepo (Núcleo Estudos de População)
da Unicamp feita em Paulínia ajudou a mostrar que naquela cidade ocorre
o inverso, o mito urbano de que sempre haverão indústrias chegando
alimenta o desejo por imigrantes em se instalar na cidade, uma vez que nunca
ali haverá desemprego.
Em Nova Odessa, essa sensação de pleno emprego pode estar em
condições semelhantes às observadas dez anos atrás
em Paulínia, face aos inúmeros anúncios de investimentos
naquela cidade, o inverso do que tem se passado com Americana.
Cidades como Americana e Jaguariúna definitivamente não precisam
ampliar seu parque industrial, uma vez que são fonte de emprego e serviço
para inúmeras cidades vizinhas, de onde vêm os trabalhadores.
Um efeito ainda não levado em conta é o de que o mito do emprego
crescente pode atrair migrantes para essas cidades e diminuir a pressão
nos centros conhecidos como mais industrializados.
O processo de industrialização favoreceu as cidades mais aptas
no período da primeira onda industrial no Brasil, e elas até
hoje gozam desta vantagem, pois se estruturaram e hoje apresentam uma série
muito mais variada de serviços quando existe uma competição
por estrutura de atendimento à população.
O nível de competitividade de uma cidade não se mede apenas
pelo que ela oferece, mas também pela capacidade de atender as demandas
apresentadas pela sua população e pelos investidores.
Este artigo visa apenas levantar certa polêmica em torno do tema da
"fuga de empresas", que pode ser muito mais um mito levantado por
interessados no quanto pior melhor do que algo realmente baseado nos fatos.
Ademar Martins Ferreira, Cientista político e jornalista e Diretor
da Memento Consultoria
Alexandre Serpa
Brasil e Estados Unidos controlam hoje 72% da produção mundial
de etanol, e São Paulo é responsável pela maior parte
desta matriz energética, que coloca várias regiões do
Estado dentro da nova fronteira do comércio mundial. No Brasil já
existem 350 indústrias de açúcar e álcool e quase
uma centena estão sendo construídas. As estimativas são
de que até 2010 haverá um crescimento da ordem de 60% da área
plantada e na próxima década este produto deve liderar as exportações,
deixando a soja em segundo lugar. A padronização quanto à
fabricação do etanol e a sua utilização por pelo
menos duas dezenas de países poderá transformar este produto
genuinamente nacional em uma commodity.
Hoje o Brasil já produz perto de 17 bilhões de litros de etanol,
mas esse volume poderá dobrar em alguns anos, em função
do interesse que despertou no mundo inteiro e especialmente nos Estados Unidos.
O governo americano anunciou que tem como meta substituir 15% da gasolina
por combustíveis renováveis e alternativos. Só isto representa
algo em torno de 132 bilhões de litros!
Com relação à tarifa imposta pelos Estados Unidos ao
produto brasileiro, sua retirada não interessa neste momento a nenhum
dos dois países. É que o custo da produção do
etanol nos Estados Unidos, à base do milho, é 30% superior ao
da cana-de-açúcar, que tem produtividade de 7 mil litros por
hectare, mais do que o dobro do que se obtém com o milho. Se a tarifa
for derrubada, provavelmente exportaríamos todo nosso etanol, deixando
o mercado interno desguarnecido. Além disso, as exportações
brasileiras fariam quebrar as usinas e agricultores americanos, que dependem
de subsídios do seu governo.
O impacto no Estado de São Paulo já começa a ser sentido,
e a economia de muitas cidades já mostra os primeiros reflexos com
o aumento de empregos, riquezas e geração de impostos. A Pesquisa
de Emprego publicada neste início de ano pela FIESP revela que, entre
os setores da indústria em atividade em nosso Estado, o de Preparação
de Combustíveis e Produção de Álcool vem apresentando
o melhor desempenho. A variação no nível de emprego neste
setor em fevereiro, em relação ao mês anterior, apresentou
alta de 8,5%, a maior dentre todos os setores. Já no acumulado do ano
(janeiro e fevereiro), a agroindústria canavieira já apresenta
alta de 10,4%, e nos últimos doze meses essa variação
é de 25,8%, destacando-se de todos os demais setores da indústria
de transformação paulista, com forte contribuição
para os resultados positivos de emprego e renda para a economia do Estado.
Um acordo firmado recentemente entre o governo de Goiás e a Petrobras
vai viabilizar a construção de um alcoolduto de 600Km que levará
4 bilhões de litros de álcool produzidos nas usinas goianas
e paulistas diretamente para o Porto de São Sebastião, no Litoral
Norte do Estado.
Outro ponto importante que já está sendo discutido aqui no Estado
de São Paulo é a questão ambiental, a geração
de energia limpa e renovável e as condições de trabalho
dos cortadores da cana. Isso não será empecilho nas exportações,
pois as usinas investem nessas áreas, com a introdução
de boas práticas de responsabilidade social no campo.
Com certeza, este é o grande momento do empresariado nacional. Mas
ao mesmo tempo a indústria carece de regulamentos claros nesse mercado,
para que não joguemos fora anos e anos de investimentos em pesquisas
e desenvolvimento de tecnologia. É também momento de deflagrar
o início de um período de grande desenvolvimento econômico
nas regiões onde a cultura de cana já existe e em outras para
onde avançam os canaviais, casos do Noroeste Paulista e o Pontal do
Paranapanema. É a grande oportunidade para o Brasil, que acumulou expressivo
know-how tecnológico na produção de etanol e hoje oferece
ao mundo aquele que é talvez o melhor sucedâneo para o petróleo
e outros combustíveis fósseis.
No caso do surgimento de uma "Opep" do Etanol, o País deverá
ter o cuidado de firmar um acordo onde produtores e Governo garantam que não
saia de nossas mãos a liderança na produção do
combustível, mesmo que este seja produzido em escala global. Para isso,
deve servir de exemplo a dura lição no passado, quando o País
perdeu a hegemonia na produção de borracha natural para a Malásia
e Indonésia, depois que os holandeses transplantaram a hevea brasiliensis,
cujo cultivo, feito de forma intensiva e científica, bateu a baixa
competitividade brasileira. Neste caso, porém, além do clima
propício e das largas extensões de terra, o Brasil tem a tecnologia
do Etanol. E deve fazer valer esse conhecimento.
Alexandre Eugênio Serpa, é economista, industrial e diretor titular do Departamento de Ação Regional da FIESP.
email: editor@diariosbo.com.br