Educar é preciso

Leandro Azanha

O desempenho dos alunos dos países mais desenvolvidos e até mesmo de outros emergentes é muito superior ao dos alunos brasileiros. O trabalhador brasileiro já passou por uma transformação radical nos últimos 20 anos. A dúvida é se o mundo esperará outros 20 anos pelas mudanças que ainda precisam acontecer é o que dizem alguns especialistas.
A China hoje é a "pedra no sapato" dos empresários brasileiros, produzindo com custos baixos produtos de boa qualidade. O governo chinês está investindo pesado em educação, o país financia bolsas de estudo para jovens de potencial estudarem nas melhores universidades do mundo e desta forma vai desenvolvendo um povo rico em cultura e investindo em pesquisa e desenvolvimento.
É surpreendente a transformação pela qual as organizações e os empregos estão passando nas últimas décadas. Funções estão sendo extintas e a exigência por formação dos trabalhadores nas mais diversas áreas está cada vez maior, inclusive naquelas menos especializadas. A tabela abaixo mostra as principais diferenças entre o operário de 20 anos atrás e o de hoje.
A realidade da indústria moderna faz com que o operário necessite de formação para acompanhar a evolução tecnológica que transformou praticamente todas as profissões nos últimos 20 anos. Em 1985, cada trabalhador da indústria automotiva produzia oito veículos por ano. Hoje, produz 30 (nas fábricas mais modernas, chega a 60). A produtividade das siderúrgicas quadruplicou no período. Na indústria têxtil quintuplicou e mesmo assim ainda não se tornou competitiva se comparada aos tigres asiáticos, que produz com custos reduzidos e causou a falência de muitas tecelagens de nossa região. A mesma situação pode ser observada em cada um dos setores da economia.
No século XX, Frederick Winslow Taylor, engenheiro americano, que dedicou sua vida aos estudos para criação de métodos e modernização dos processos de trabalho na indústria, escreveu a obra clássica na literatura de Administração, Princípios de Administração Científica e tornou-se um dos precursores dos estudos nesta área.
Segundo Taylor, os trabalhadores braçais deveriam ser estúpidos e fleumáticos de modo que mais se assemelhassem em sua constituição mental a um boi, que a qualquer outra coisa. Um homem inteligente seria impróprio para a realização das tarefas realizadas nas oficinas por ser um trabalho monótono. O trabalhador de chão de fábrica seria incapaz de compreender a ciência que regula a execução desse trabalho, portanto deveria ser treinado e ter seu trabalho supervisionado por homem mais inteligente no hábito de trabalhar de acordo com as leis dessa ciência, para que pudesse ser bem sucedido.
Enquanto o autor dizia que o trabalhador de chão de fábrica deveria ser estúpido e o menos inteligente possível, a realidade das empresas contemporâneas mostra exatamente o contrário: já não há espaço para as funções que lembram o personagem de Charles Chaplin no filme Tempos Modernos.
Como exemplo desta situação, usaremos o caso citado em estudo realizado pela EXAME. O gaúcho Lindomar Machado representa uma espécie em extinção na indústria brasileira. Aos 50 anos, o operário da linha de produção da fabricante de carrocerias Randon mal sabe ler, não concluiu o Ensino Fundamental e faz hoje rigorosamente o mesmo que há 23 anos, quando foi contratado. Durante 8 horas por dia, solda carrocerias. Seu filho, Fernando, de 23 anos, é a personificação de por que não há no futuro lugar para profissionais como Lindomar. Ele também é operário. Também trabalha na Randon. Mas sua bagagem educacional é infinitamente maior. Fernando cursa atualmente faculdade de administração, freqüenta aulas de inglês e participou de vários treinamentos técnicos oferecidos pela companhia. Graças à sua formação, pôde abandonar o trabalho mais bruto e operar máquinas sofisticadas na linha de produção. Apenas três anos após entrar na Randon, Fernando passou a ganhar o mesmo salário que o pai -- e, segundo seus superiores, não tardará para que ganhe duas ou três vezes mais. "Pessoas como Lindomar são de um tempo em que operários entravam e saíam de uma empresa fazendo absolutamente a mesma coisa e ganhando o mesmo salário", diz Maria Tereza Casagrande, executiva de recursos humanos da Randon. "Esse tempo, porém, está acabando."
A qualidade e o preço da mão-de-obra estão entre as variáveis mais importantes na decisão de investimento das empresas e ajudam a explicar a bonança econômica de algumas economias e a estagnação de outras. A China cresce estrondosamente, em boa medida porque o custo de seus operários é ainda baixíssimo. Um funcionário da indústria automotiva chinesa custa 2 dólares por hora, ante quase 41 dólares de um operário alemão. Na Coréia, o investimento em educação formou uma classe operária extremamente produtiva e não tão cara quanto a alemã. De acordo com um estudo recente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), um trabalhador coreano produz em média duas vezes mais que o brasileiro - que, nem tão barato quanto o chinês nem tão eficiente quanto o coreano, coloca o país numa espécie de meio-termo nefasto para as empresas. "Para piorar a situação do Brasil, as novas gerações chinesas estão recebendo mais educação que as novas gerações de brasileiros e, daqui a alguns anos, esse esforço vai torná-los mais qualificados que nós", diz o economista José Alexandre Scheinkman, da Universidade de Princeton.
Segundo os especialistas, é na direção da Coréia que o Brasil deve seguir: um investimento pesado em educação, especialmente para crianças e jovens, colocaria à disposição das empresas funcionários capazes de sustentar ainda mais seus investimentos em tecnologia e tornar o país mais competitivo.

Leandro Azanha é professor universitário dos cursos de Administração, Análise de Sistemas e Sistemas de Informação do Unisal.


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