Henrique Matthiesen
Os contemporâneos episódios das ofensivas criminosas realizadas
em São Paulo no ano passado trazem à tona determinados subsídios
para nossa meditação coletiva. Nos períodos de grandes
ocorrências criminosas que nos trazem repercussão internacional,
o espírito majoritário na grande imprensa é a de usar
a insegurança social para oferecer como alternativas para o crime o
recrudescimento da legislação penal. Conceitos como pena de
morte, redução da maioridade penal, "tolerância zero"
são oferecidas como saída.
Em nenhuma lembrança oferecida nos grandes jornais está prevista
um maior investimento em educação, saúde, esporte e políticas
sociais. Ao que alvitre, teóricos e jornalistas, museólogos
para não dizer outra coisa, gostam somente de estabelecer propostas
imediatistas, como a de expandir o investimento em segurança. A interrogação
é: será que o que mais carecemos é investir em segurança
ou educação? Não almejo negar a seriedade de mais investimentos
em segurança pública, mas advertir que esta não carece
ser a primazia política, até mesmo para tornar nossa coletividade
mais segura.
Para parte da imprensa não interessa debater a correta ensejo do intenso
esquema do crime organizado. Não se debate a analogia do acréscimo
do hoste de criminosos com as crianças que passam fome, com os pais
que não tem trabalho, com os jovens sem escola de qualidade. É
inequívoco que a miséria não fundamentalmente provoca
o crime, mas a dessemelhança entre a opulência dos grandes palácios
e as favelas da periferia de São Paulo, sem equívoco algum,
exacerba a expectativa de uma escalada criminosa. O chão é fecundo
para os bandidos, pois, de acordo com a história, o Estado esteve alheio
na vida dessas pessoas, até mesmo porque preocupou-se ao longo da história
em garantir meios de aumentar as benesses cada vez maiores da mesma elite
que presentemente se horroriza com os fatos. Como o Estado esteve alheio,
a rede do tráfico ocupou o ambiente, preenchendo-o com uma série
de analogia de assistência para essas comunidades, inclusive lhes municiando,
paradoxalmente, segurança.
Temos que enraizar a discussão saindo da superfície dos problemas,
entendendo o que está por trás. A política de tolerância
zero praticada em Nova York e que de maneira suposta teria diminuído
a criminalidade, na veracidade foi implementada no mesmo momento do acréscimo
dos investimentos em políticas sociais naquela cidade. Ao mesmo tempo,
antes mesmo da prática da "tolerância zero" já
existia um arrefecimento da escalada criminosa naquela cidade. A despeito
da prática de um sistema penal altamente recrudescedor, os EUA possuem
a maior população presidiária do planeta e, nem de longe,
está dentre os países mais seguros do planeta.
Será que a insuficiência de mérito dos poderosos em promover
um grande debate pátrio para tratar das razões da falta de segurança
é porque notícias como a de São Paulo dão mais
audiência, vendem mais jornais? Até quando vamos permanecer vendo
na televisão as propostas de Datena, Varela e cia. refletir em nossos
lares, sem a ínfima probabilidade do debate. Os acontecimentos de São
Paulo necessitam convir para uma meditação mais densa da sociedade
brasileira. A capital arma que temos para impedir o recrutamento de nossos
jovens para as organizações criminosas é justiça
social.
Henrique Matthiesen é colaborador
Milton Dallari
Os avanços tecnológicos do século XX promoveram uma
verdadeira revolução em nossa sociedade. Algumas invenções
na área da Saúde foram tão significantes que tiveram
impacto na expectativa de vida das pessoas. Até aquele momento, se
esperava que um sujeito normal vivesse em média entre 50 e 60 anos.
Tudo começou a mudar com a descoberta da penicilina, o desenvolvimento
de novas vacinas, o contraceptivo oral e a universalização dos
serviços de água e esgoto. E as pessoas passaram a conviver
com a idéia de que poderiam passar tranqüilamente dos 70 anos.
A longevidade, porém, tem seu preço. Nas últimas duas
décadas, os governos começaram a realizar estudos para calcular
o estrago que aposentadorias e pensões terão em suas contas
no futuro. Em alguns casos, será necessário fazer uma nova revisão,
já que durante o período a Ciência e a Tecnologia se desenvolveram
em uma velocidade espantosa. Projeções já indicam que
os bebês nascidos em 2007 provavelmente vão ultrapassar a barreira
dos 100 anos e até chegar aos 120, 130, dependendo do caso.
A conclusão não se baseia em devaneios de um pesquisador maluco.
Se hoje o homem já consegue prolongar sua vida através de transplantes
e aparelhos modernos, imagine o que não deve ocorrer em 30 anos. No
século passado, o número de mortes caiu drasticamente depois
que o homem teve acesso à água potável, esgoto e melhorou
suas condições de higiene. Nos próximos anos, a indústria
farmacêutica deve fabricar vitaminas e medicamentos mais poderosos e
certeiros e revelar os segredos para uma vida saudável, com exercícios,
alimentação equilibrada, biotecnologia e genomas.
Segundo estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), o Brasil terá mais de 260 milhões de habitantes em 2050,
com idade média de 40 anos. O curioso é que 14 milhões
já terão ultrapassado a barreira dos 80 anos, pouco mais de
5% do total. Parece pouco? Mas não é. Só para se ter
uma idéia, em 1980 havia 591 mil brasileiros nessa faixa etária,
com a diferença de que a população do País girava
em torno de 118 milhões de pessoas, o que significava apenas 0,5% da
população.
Os números servem para mostrar a necessidade de o Brasil apressar as
reformas na Previdência Social. Quanto mais cedo o governo e a sociedade
chegarem a um consenso, menor será o impacto sobre as contas públicas
e sobre o bolso de quem se prepara para deixar o mercado nas próximas
décadas. Infelizmente, não dá mais para sonhar com os
benefícios de outrora. A matemática é implacável
nesse caso. Sem mudanças nas regras, não há como evitar
um colapso do sistema no futuro.
Vou além. Se você hoje tem entre 20 e 30 anos, e sonha com uma
velhice tranqüila, comece a economizar agora. Sem sacrifícios
ou renúncias ao que considera essencial para levar uma vida feliz.
Apenas discipline-se para depositar um pouquinho de seu salário a cada
mês em uma caderneta de poupança - ou, se tiver mais condições,
procure um plano de previdência privada. O tempo passa rápido
e quando você perceber já terá uma porção
de netinhos e, pelo que indicam as projeções, bisnetos ao seu
lado.
Milton Dallari é consultor empresarial, engenheiro, advogado e presidente da Associação dos Aposentados da Fundação Cesp.
email: editor@diariosbo.com.br