Nelson Pineda
A indústria sucroalcooleira do Brasil vive dias de exuberância
e expectativa ímpares. Graças à tecnologia utilizada
na produção do etanol, o país ganhou prestígio
e despertou o interesse de países desenvolvidos na busca por soluções
que diminuam o impacto causado pela poluição na atmosfera. Mas
a febre em torno do biocombustível pode trazer conseqüências
desastrosas ao setor agropecuário.
Com a perspectiva de que os investimentos estrangeiros vão aumentar
consideravelmente nos próximos anos, muitos fazendeiros já pensam
em trocar o gado pela cana-de-açúcar, num movimento sem paralelos
que pode ter reflexos irreparáveis ao setor pecuarista, sobretudo no
interior do Estado de São Paulo.
A disposição dos administradores públicos em incentivar
a implantação de novas usinas de beneficiamento de cana é
compreensível. Mas não se pode admitir que o entusiasmo em torno
do "ouro verde" prejudique o desenvolvimento de setores que também
possuem peso inegável na balança comercial, como a pecuária.
Nos últimos dez anos, a exportação de carne bovina saltou
de US$ 500 milhões para US$ 3 bilhões, o que permitiu alcançarmos
o topo do ranking mundial, com cerca de 20% do mercado, com taxas de crescimento
anual em valor (24%) e volume (31%). Mas a contrapartida governamental para
estimular o setor ficou aquém do esperado, já que os produtores
registraram aumento do custo efetivo de produção de 31% e um
acúmulo de perdas que levou os preços da mercadoria ao menor
patamar dos últimos 50 anos.
O contrasenso na aplicação de recursos não se limita
ao estímulo à cana-de-açúcar. Nos últimos
anos, o governo federal destinou milhões de reais para fazer a reforma
agrária, em doses inversamente proporcionais ao que foi gasto com a
pecuária. O investimento é justo e ameniza a situação
difícil de milhares de famílias que vivem em situação
de miséria. Mas de nada adianta se não houver o fortalecimento
de outras atividades no campo.
A posição privilegiada da pecuária nacional ainda não
sensibilizou as autoridades, ao contrário do que ocorre com a cana.
Até 2014, nossa liderança no comércio de carne bovina
deve ser ainda maior, já que o consumo aumentará consideravelmente,
uma tendência que se acentua com o passar dos anos, ao mesmo tempo em
que o número de produtores cairá consideravelmente, sobretudo
por causa da redução do espaço para a atividade. Nesse
sentido, o cenário que se apresenta diante de nossos olhos é
fantástico, indicando que somente seis players permanecerão
produzindo carne bovina - Brasil, Austrália, Canadá, Argentina,
Índia e Nova Zelândia.
Sem investimentos para a implantação de um rigoroso controle
de vigilância sanitária, o produtor eficiente viverá ameaçado
de ver seu produto rejeitado pela irresponsabilidade de quem não se
preocupa em prevenir o surgimento de focos de febre aftosa. Desde 2000, a
União Européia determinou a adoção de controles
severos na rastreabilidade do gado. Mas ainda hoje o Brasil tem dificuldades
para se enquadrar dentro dessas exigências.
As outras mazelas enfrentadas pelo setor são comuns à maioria
dos empresários brasileiros, como o câmbio, a política
de juros altos e as dificuldades impostas pela lei. Se hoje controlamos um
quinto do mercado mundial com todas essas dificuldades, imagine qual seria
nossa parcela se houvesse maior seriedade em torno dessas questões.
Enquanto isso, o estímulo à produção de etanol
segue a todo vapor, incentivando o capital estrangeiro, com especial atenção
para áreas localizadas em São Paulo. Aos poucos, os pequenos
produtores alugam suas terras em troca de bons ganhos na colheita da cana.
Se o governo estadual não agir rápido, corre o risco de ver
essa indústria migrar para regiões como o Vale do São
Francisco, no oeste baiano, e os estados de Goiás e do Tocantins. Vai
entregar, de bandeja, uma parcela importante da arrecadação
tributária e ainda terá de explicar ao consumidor o porquê
do inevitável aumento de preços.
O empresário do campo não pode ficar refém da produção
de etanol, principalmente porque está comprovado que existe vida além
do mar de cana-de-açúcar vislumbrado por nossas autoridades.
Se essa insistência se intensificar, a situação do setor
pecuarista deve se agravar. Sem dinheiro para desenvolver tecnologia e ampliar
a produção, o gado bovino nacional pode começar a gerar
desconfiança nos mercados estrangeiros. Se canalizarmos a energia somente
em torno da cana-de-açúcar, estaremos regredindo, numa espécie
de retorno à monocultura dos tempos do Império. Um retrocesso
que pode custar caro.
Nelson Pineda é engenheiro, pecuarista e Diretor Técnico da
Associação Brasileira dos
Criadores de Zebu
Raul Nogueira Filho
Os 3,3 milhões de votos no segundo turno, com que os paulistanos elegeram
José Serra prefeito de São Paulo em 2004, parecem ter alterado
as referências quantitativas, aritméticas e socioeconômicas
do herdeiro do "trono" municipal, Gilberto Kassab. Pelo menos é
o que se pode depreender de seu comentário de que, ao contrário
do que afirmam trabalhadores e empresários do setor de outdoor e publicidade
exterior, não serão 20 mil, mas "apenas" quatro mil
os desempregados pela lei nº 14.223, de setembro de 2006, com a qual
nosso alcaide parece pretender conferir alguma notoriedade ao seu mandato-tampão.
Mesmo que fossem apenas quatro mil postos de trabalho sacrificados (e, na
verdade, são muitos mais), a questão não poderia ser
tratada com tamanho desdém pela autoridade máxima da cidade,
num país onde o desemprego, próximo de 10%, é um dos
mais graves problemas econômicos e sociais. Os trabalhadores que estão
perdendo mais do que um emprego - uma profissão! - não podem
ser tratados com tal desrespeito. Afinal, são cidadãos com responsabilidades,
famílias, direitos e deveres, para os quais o trabalho não é
atividade para diletantismo e sim o meio de sobrevivência com dignidade.
O prefeito, contudo, parece não demonstrar sensibilidade humanística
no trato dos municípes. Ao se referir com desconsideração
aos quatro mil desempregados que admitiu publicamente serem vítimas
de sua Lei Kassab, adotou postura análoga com a qual analisou o recente
episódio relativo ao desabamento do canteiro de obras da Linha 4 do
Metrô. Lembram-se de sua pérola? "O pessoal que estava no
motel ao lado da obra deve ter saído correndo e assustado...".
Inoportuno humor; desrespeitosa piada em meio a uma tragédia metropolitana,
na qual ocorreram sete mortes. Ora, o que significa este número de
vítimas? O que significam quatro mil empregos?
A retórica do prefeito, prometendo um cursinho de reciclagem profissional
para que os desempregados do outdoor possam um dia, talvez, quem sabe, arrumar
emprego em outra profissão, disputando vagas com trabalhadores experientes
em suas respectivas áreas, não resiste a uma análise
de bom senso. Seriedade, mesmo, seria oferecer cursos para funcionários
menos qualificados, para que pudessem galgar novos postos em suas organizações,
porque o que vale não é cursinho, mas sim salário. Seriedade
seria, também, discutir com a sociedade e os segmentos envolvidos as
medidas já contempladas na legislação - a Lei 13.525,
de fevereiro de 2003 -, efetivamente capazes de despoluir visualmente a cidade.
Este dispositivo legal, contudo, foi literalmente atropelado pela Lei Kassab,
antes mesmo de viger e ser aplicado em sua plenitude.
No entanto, colocar em prática legislação da qual não
é o "pai" talvez seja desinteressante para um político,
em especial quando seu foco prioritário não é a sociedade,
mas a próxima eleição. Provavelmente, é mais difícil
gerir com mãos de estadista a máquina pública municipal,
para fazer com que uma lei seja cumprida e rigorosamente aplicada, do que
buscar soluções enviesadas por meio de legislação
generalista, injusta e prejudicial à cidade e seu povo. Parece ser
mais cômodo e menos desgastante editar lei radical, que simplesmente
cassa um meio de comunicação, do que enfrentar com autoridade
a histórica prevaricação de fiscais, a corrupção
que facilita a existência de cartazes ilegais e outras centenas de irregularidades
ante as quais a prefeitura paulistana continua omissa.
Não importa se essa abrupta Lei Kassab implode 20 mil ou quatro mil
postos de trabalho, extingue um mercado de R$ 200 milhões anuais ou
fere o direito dos paulistanos à comunicação gratuita
dos outdoors e à livre divulgação de conteúdos
por meio de mídias legais, mantidas por empresas idôneas e pagadoras
de tributos. O que parece prevalecer é uma sanha de autoritarismo,
análoga às atitudes dos extemporâneos prefeitos, governadores
e presidentes da República biônicos, impostos à sociedade
pelo regime de exceção, sem a legitimidade do voto.
Talvez por ter sido guindado à prefeitura paulistana pelos eleitores
de José Serra, o alcaide Gilberto, a despeito da lisura constitucional
desse processo sucessório, não tenha entendido ainda o compromisso
democrático implícito ao voto. Provavelmente por isto, prefira
ser autoritário do que exercitar a legítima autoridade, optando
por editar lei que faz lembrar práticas da ditadura, como a censura,
o fechamento de veículos de comunicação e o poder absoluto
do Estado sobre a economia, incluindo a inviabilização de um
setor de atividades. Que em seu próximo empreendimento político,
após concluir o mandato-tampão, Kassab possa experimentar o
sabor cívico de ser eleito pelo povo. Ah, sim, e que não lhe
faltem "apenas" quatro mil votos...
Raul Nogueira Filho é presidente da Central de Outdoor.
email: editor@diariosbo.com.br