O aposentado está em alta no atacado e no varejo. De uns tempos para
cá, seu poder de compra foi descoberto por empresas dos mais diversos
ramos, interessadas em lucrar com uma parcela da população que
antigamente só tinha seus gastos associados a remédios e supermercado.
Ocorre que uma nova geração de aposentados tem empregado parte
de seus rendimentos em viagens, eletrodomésticos e outras formas de
lazer. Aos poucos, também passaram a chamar a atenção
de bancos que oferecem empréstimos a juros menores que os praticados
em geral - o que não significa que não sejam menos extorsivos,
é bom destacar.
Há 30 anos, a imagem do aposentado era completamente diferente. Quando
se falava em alguém com mais de 50 anos, vinha logo na cabeça
o sujeito com sandálias nos pés e uma vara de pescar na mão.
Com o aumento da expectativa de vida, o perfil dessas pessoas está
mudando. Muitos sequer deixaram o mercado de trabalho com essa idade. E fazem
isso porque são úteis ao empregador e ainda se sentem dispostos
a ingressar em novos projetos. O aposentado deixa de ser um mero espectador
da febre de consumo na sociedade e se transforma em alvo precioso para as
empresas.
Quem ainda não deixou o mercado, apesar de teoricamente ter direito
ao benefício, tem a seu favor o fato de receber um salário mensal.
Desde março, podem sacar também o FGTS mensalmente. Imagine
como essa renda-extra poderá modificar a vida das pessoas, que antes
tinham de abrir mão de uma atividade profissional se houvesse interesse
em sacar esse dinheiro para outros fins: ajudar na educação
de um neto, reformar a casa ou até mesmo comprar uma TV maior e mais
moderna para ver o futebol.
Em algumas cidades do interior do país, a economia é movimentada
pelas pensões e benefícios pagos por governos e iniciativa privada.
A tendência é que a importância desses recursos aumente
ainda mais nas próximas décadas. Fundos de previdência
municipal e estadual têm chamado a atenção de grandes
bancos, sobretudo depois que a legislação permitiu que ficassem
responsáveis pelo gerenciamento de recursos que, somados, ultrapassam
a casa dos R$ 23 bilhões, segundo estimativas da Associação
Brasileira de Instituições de Previdência Estaduais e
Municipais (Abipem).
O Ministério da Previdência contabiliza mensalmente o pagamento
de 24,6 milhões de benefícios, dos quais apenas 8,1 milhões
encontram-se acima do salário mínimo. Isso, porém, não
significa que a grande maioria das pessoas seja desprezada pelos empresários.
Pelo contrário. Os bancos e financeiras travam uma batalha para atrair
novos clientes dispostos a pegar dinheiro emprestado com taxas menores que
as praticadas no mercado. O crédito consignado funciona se houver comprometimento
do tomador do empréstimo, mas pode ser um tiro no pé se a pessoa
se empolgar com a facilidade do crédito e não controlar suas
despesas mensais.
Diante desse cenário, o aposentado também deveria exigir maior
contrapartida das empresas que lhe prestam serviços. Mais do que nunca,
o momento é bom para colocar em discussão outros assuntos importantes,
como a aplicação de alguns itens do Estatuto do Idoso, como
a preferência de pagamento de precatórios e os descontos em ônibus
interestaduais. Aos poucos, começamos a ser um pouco mais respeitados.
Mas ainda falta muito para acabar com as injustiças e avançarmos
em outras questões.
Milton Dallari é consultor empresarial, engenheiro, advogado e presidente da Associação dos Aposentados da Fundação Cesp.
Sebastião Almeida
O biodiesel, apesar de uma série de desafios a superar, firma-se como
uma opção ao óleo diesel extraído do petróleo.
Infelizmente, a vantagem que o Brasil adquiriu na produção do
álcool a partir da cana-de-açúcar não se repetiu
com outras fontes de energia. O país ainda depende de uma tecnologia
mais avançada de produção e de mecanismos de estocagem
e distribuição que tornem mais rentável a atividade com
o biodiesel. E, talvez, de um envolvimento maior da indústria automobilística
nesse processo.
Em 2005 o governo federal lançou um programa de incentivo ao plantio
de oleaginosas para a fabricação do biodiesel. A mamona apareceu
como primeira opção, mas a escassez de investimentos privados
em fábricas, o excesso de oferta e o preço da saca da matéria-prima
trouxeram insegurança a alguns produtores. Diante desse quadro, vale
olhar para outras alternativas para a ampliação da produção
do biodiesel no país.
Uma experiência interessante nesse sentido vem sendo conduzida no Pontal
do Paranapanema, no extremo oeste do Estado de São Paulo. O protagonista
desta história é nada menos que o pinhão-manso. Você
já ouviu falar dele?
O pinhão-manso é uma das mais promissoras oleaginosas do Brasil
devido à facilidade de adaptação da planta, cultivável
em 90% do território nacional. Isso porque apresenta boa produtividade
em terras pouco férteis, em diferentes condições de solo
(arenoso, calcário, salino, pedregoso) e em climas áridos ou
úmidos - para se ter uma idéia, a planta tem no currículo
resistência às fortes secas da Índia. Como mecanismo de
defesa, expele uma secreção leitosa que "queima",
dificultando o ataque de pragas e insetos.
E, mais importante: seu cultivo é feito sem a utilização
de máquinas, o que acaba se tornando uma ótima opção
para estimular a agricultura familiar. Segundo estimativas, a produção
de 2.000 a 3.500 litros de óleo por hectare pode garantir uma renda
média anual entre R$ 3.000,00 a R$ 4.500,00. Além disso, o pinhão-manso
também pode ser cultivado em altitudes entre o nível de mar
aos 1.000 metros. É uma planta perene, que produz por mais de 50 anos
e sua colheita se estende por cerca de seis meses.
Pode parecer exagerado, mas uma planta com essas características pode
dar outra dimensão aos que lutam por maior inclusão social.
Só para se ter uma idéia, um ônibus urbano pode consumir
40 mil litros de biocombustível por ano, quantia de óleo suficiente
para empregar até 190 famílias. Sem falar que a ausência
de máquinas na colheita é aspecto positivo na luta contra o
aquecimento global.
Outra curiosidade em torno do pinhão-manso é que ele pode ser
cultivado junto com outros vegetais. A partir de seu processamento é
obtido um subproduto, um biofertilizante rico em nitrogênio, potássio,
fósforo e matéria orgânica, capaz de combater as doenças
do solo - os nematóides.
Desintoxicada, essa torta de pinhão-manso pode ser transformada em
ração, como já ocorre com a mamona. Mais: a casca do
pinhão pode ser usada como carvão vegetal e matéria-prima
na fabricação de papel. Seu óleo também pode ser
usado como repelente de insetos em pomares e para a fabricação
de tintas e vernizes. As folhas podem servir para a elaboração
de diversos medicamentos (o chá, por exemplo, combate a malária)
e para alimentar a lagarta do bicho-da-seda.
Os benefícios e as vantagens do pinhão-manso como uma nova alternativa
aos produtores de biocombustível estão aí. E não
se pode desprezar também a força que a planta pode exercer sobre
os produtores familiares, gerando um impacto inverso ao da ocupação
promovida pela cana-de-açúcar controlada pelos grandes grupos
empresariais. O Brasil ainda não alcançou os níveis europeus
na produção de biodiesel, mas tem espaço de sobra para
reverter esse quadro e também se transformar em uma referência
no setor, repetindo o que já fez com o etanol.
Sebastião Almeida é deputado estadual pelo PT, coordenador da Frente Parlamentar em Defesa da Água e membro da comissão de meio ambiente da Assembléia Legislativa de São Paulo.
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