O vôo cego da saúde

Jorge Carlos Machado Curi

O Brasil chora faz dias a perda de cerca de 200 vidas vítimas do acidente da TAM. Lamentável sob todos os aspectos, a tragédia expôs uma vez mais as deficiências de nossa malha aérea, a falta de investimentos e inexistência de uma política de investimentos para o setor, além da insuficiência de ações por parte de alguns agentes para reverter o caos que assola o país já há quase um ano.
O pior é que esse não é um episódio pontual, não é uma fatalidade nem mesmo um tormento restrito a determinado setor. Infelizmente, no Brasil atual, somos campeões em vôos cegos, todos os dias colocamos em risco vidas e mais vidas. Isso acontece na educação, na segurança pública, na previdência, na saúde, na aviação e assim por diante.
A saúde, aliás, é um caso típico de desatenção pública com os cidadãos. Diariamente vidas humanas se perdem por falta de gestão competente e de financiamento. Se pensarmos que o acidente da TAM poderia ter deixado alguns sobreviventes, quais as chances que eles teriam de receber socorro competente? Poucas e insuficientes, pois não contamos com uma política eficaz e ampla direcionada ao atendimento do paciente traumatizado. É verdade que temos alguns centros de excelência na assistência ao traumatizado e na alta complexidade, mas que sobrevivem com grande dificuldade. A maior parte dos nossos hospitais não está preparada para esse tipo de emergência.
Não à toa vemos frequentemente notícias de pessoas que morrem aqui e acolá por não receber a assistência devida. Não se trata de responsabilidade de médicos nem dos demais profissionais de saúde, que fique bem claro. O que ocorre é que o sistema se encontra numa situação de insuficiência permanente. Vemos dinheiro vazando em escândalos de corrupção, enquanto os postos de saúde vivem sucateados e hospitais quebram debaixo dos olhos de todos nós. Apesar do esforço de alguns gestores, a falta de financiamento da saúde continua e ainda não foi colocada em prática uma tabela coerente do SUS.
É preciso atitude para mudar. Por isso, no próximo dia 14, médicos de todo o país e a Frente Parlamentar da Saúde protagonizarão uma grande mobilização por mais verbas para o setor. O objetivo é justamente evitar o aprofundamento do caos na saúde. Um ato está marcado para o Salão Verde da Câmara dos Deputados, em Brasília. Após caminhada até o Palácio do Planalto, representantes participarão de audiência com o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, para a apresentação de reivindicações.
Uma das reivindicações centrais é a votação imediata da regulamentação da Emenda Constitucional 29, que pode se dar da noite para o dia, se o governo orientar sua bancada. A proposição visa a assegurar os recursos mínimos para o financiamento das ações e serviços públicos de saúde, além de estabelecer claramente quais são de fato os investimentos que podem ser considerados nessa rubrica, para acabar com os desvios praticados em todas as esferas públicas.
Também será solicitado o reajuste das tabelas do Sistema Único de Saúde. Desde 1999, a tabela não tem uma recomposição condizente. Atualmente está prestes a inviabilizar a existência de qualquer entidade prestadora de serviço, seja ela pública, filantrópica, Santas Casas ou universitárias.
Para ter uma idéia concreta da defasagem, basta dizer que, a partir do Plano Real, a gasolina subiu mais de 500% e a energia elétrica cerca de 600%, assim como o transporte urbano. Enquanto isso, a tabela SUS foi "corrigida" em 37%. Resultado: hoje, uma consulta em especialidade adulta paga ao médico menos de R$ 8,00, um raio-X tem reembolsado menor do que R$ 5,00, e procedimentos como um parto têm remunerações indignas.
Lógico que a incoerência e o descaso com um bem sagrado, como a saúde, causa graves conseqüências aos cidadãos. Portanto, exige um remédio forte e concentrado: união e mobilização popular. Se quisermos interromper o vôo cego da saúde e criar perspectivas alvissareiras para o futuro próximo, só há uma saída: pressionar as autoridades responsáveis a tratar com respeito o Brasil e a saúde dos brasileiros.
Jorge Carlos Machado Curi, presidente da Associação Paulista de Medicina.


Divisões perigosas

Edna Roland

O caso da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, ocorrido recentemente e que envolveu a empregada doméstica de cor parda Sirlei Dias de Carvalho Pinto, repete a mesma cena brasileira de tantos outros episódios: não se trata da ausência de limites, mas da existência da geografia da raça, cor, classe e gênero, traduzida em tacanhos estereótipos que expressam as hierarquias sociais vigentes.
Uma mulher parda, em um ponto de ônibus às 4h30 da manhã, só pode ser uma prostituta e, "portanto", pode tornar-se um saco de pancadas de jovens quase brancos da emergente classe média da Barra da Tijuca. Convém lembrar que quatro desses jovens foram reconhecidos na delegacia pela empregada como os agressores que a espancaram e a roubaram.
O pai do quinto agressor - um estudante de Direito - bem treinado na ética brasileira, que aplica a lei de acordo com a raça e a classe do acusado e da vítima, declarou que "as crianças" (sic) que espancaram Sirlei não deveriam ser presas, pois estudam na faculdade e trabalham. Portanto, não são bandidos.
Bandidos, no Brasil, como sabemos, são sempre pardos ou pretos, são desempregados, não chegam à universidade (especialmente às públicas), moram em favelas onde podem ser mortos ao resistirem à polícia, tenham ou não praticado crimes, sejam crianças, adolescentes ou adultos.
Como, provavelmente, não leram o livro organizado pelos líderes do Manifesto contra as Cotas Raciais, os "pueris" tijucanos não ficaram sabendo que no país não existem divisões raciais: ignoraram que brasileiros de todos os tons de pele se misturam, e que não podemos aceitar a introdução de uma divisão legal que separe e divida o povo. Deve ser, por isso, que quebraram o braço e o rosto da mulher.
Os agressores de Sirlei ignoraram, assim, que "raça não existe". Não agiram por causa de "raças oficiais", supostamente criadas agora pelas políticas de ação afirmativa que estão colocando negros nas universidades brasileiras. Agiram a partir do velho racismo nacional, que pode ser muito confortável para pesquisadores que, durante décadas, se beneficiaram de recursos para estudar um fenômeno "tão peculiar" e que, agora, começa a ser enfrentado por políticas propostas por aqueles que foram o seu objeto de estudo.
Diferentemente do que supõem alguns, o comportamento dos jovens, que moram em condomínio de luxo, não resulta de uma falha na sua formação familiar. Pelo contrário, expressa a eficácia da introjeção do racismo, do sexismo e da formação dada pela família, pela escola, por universidades em que não se convive com pessoas negras em pé de igualdade.
Ao contrário do que propalam os seus detratores, as políticas de ação afirmativa nas universidades promovem a integração racial. Além de garantirem o acesso ao ensino superior a negros e estudantes egressos de escolas públicas, ao colocar lado a lado negros e brancos no ambiente universitário, elas têm o potencial de humanizar os jovens brancos das classes média e alta, habituados a pensar que negros e negras são cidadãos de segunda classe, destinados a serem objeto do seu prazer e do seu ódio.
Edna Roland é psicóloga, integrante do Grupo de Especialistas da Organização das Nações Unidas (ONU) para o programa de ação da 3ª Conferência Mundial contra o Racismo e responsável pela Coordenadoria da Mulher e da Igualdade Racial da Prefeitura de Guarulhos (SP).


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