Gilson Alberto Novaes
"O Gustão é meu padrinho e eu me orgulho disso"
Quarta-feira passada dia 1º de agosto, foi aniversário do Prof.
Augusto Scomparim. Muito cumprimentado pelos seus inúmeros amigos e
familiares, o Gustão, meu padrinho, está de idade nova.
Fiz as contas e descobri que o Gustão me batizou quando tinha pouco
mais de vinte anos! Um jovem!
A família Scomparin era vizinha da nossa, quando morávamos na
Rua XV de Novembro nº 277, entre as ruas Graça Martins e Joaquim
de Oliveira. Os laços de amizade entre ambas eram tantos que sua irmã
Amália (já falecida) também era madrinha de minha irmã
Guiomar, e mais tarde, o Gustão e sua mãe D. Vitória
me batizaram. Refiro-me ao "Gustão" pois é assim que
todos o chamam, mas trata-se de uma das principais personalidades de nossa
cidade - o Prof. Augusto Scomparim. Aprendi a admirá-lo quando ainda
criança, quando fui trabalhar como balconista no seu estabelecimento
comercial - o Armazém do Gustão, sobre o qual já escrevi
aqui nessa coluna. Ali, no dia-a-dia, aprendi muito com o seu convívio.
O Gustão sempre se relacionou maravilhosamente com seus clientes e
amigos. Lecionou por um bom tempo na então Escola Técnica de
Comércio de nossa cidade, onde granjeou a simpatia de alunos e professores.
Vice-Prefeito da cidade na gestão do Sr. Bráulio Pio, exerceu
o cargo por um pequeno período. Quando exerci a vereança, pude
aprender muito com o Gustão, já que sempre conversávamos
sobre política. Chamava-me de "Excelência".
Lembro-me do Gustão quando eu, ainda muito pequeno, era levado pelos
meus pais até o armazém - na época da Dona Vitória
- para cumprimentar meus padrinhos. Eu era recebido sempre com muito carinho
e não raro o Gustão colocava uma moeda na ponta do dedo médio
de sua mão e me pedia para pegá-la. Era uma forma de se comunicar
comigo e iniciar um diálogo. E eu gostava de ganhá-las! Lembro-me
também da atenção que sua irmã Mercedes dava a
nós, crianças. O Gustão chamava minhas irmãs Guiomar
de "Mai" e a Geni de "Ni". Lembro-me dos exercícios
físicos que o Gustão fazia numa improvisada barra pendurada
na mangueira no fundo do quintal de sua casa. Ali o Gustão fazia exercícios
físicos que o fazem até hoje ter o porte atlético que
tem. Bons tempos...
Do seu convívio, já como balconista no armazém, lembro-me
perfeitamente do carinho que tinha com suas sobrinhas, filhas de sua irmã
Amália. Recém-nascidas, levadas pela mãe até o
armazém, onde o Gustão fazia questão de acompanhar o
crescimento das meninas, pesando-as na balança em que pesava os produtos
a granel que eram vendidos. Era uma balança "Filizola" que
pesava até 15 quilos. Eram crianças lindas! Eu ajudava a anotar
o peso delas!
Ainda do armazém, lembro-me do fora que dei por ocasião da instalação
dos telefones automáticos - é assim mesmo que eram chamados
- em nossa cidade. Eram pretos, pesados, muito diferentes dos que temos hoje.
Por incrível que pudesse parecer, não precisava de auxílio
da telefonista para completar uma ligação. Por isso eram chamados
de "automáticos". Quando o telefone tocava, eu era o primeiro
a atendê-lo dizendo:
- "Casa Scomparim às suas ordens!" Do outro lado da linha
alguém disse:
- "Seu Honesto está?" Eu virei para o Gustão e disse:
Padrinho, aqui tem algum Sr. Honesto? E ele, já percebendo tratar-se
de um trote me respondeu: Diga que aqui não tem nenhum honesto. E eu
respondi:
- "Olha, aqui não tem nenhum Honesto". E a resposta veio
de imediato:
- "É por isso que o Brasil não vai pra frente!" Foi
uma risada geral, pois várias pessoas assistiam à cena. (Eu
sei que essa história já contei em outro artigo, mas falar do
armazém do Gustão sem contar esse pitoresco fato, é impossível!)
Do armazém do Gustão guardo muitas e boas lembranças.
Dali somente saí para trabalhar na Romi, levado pelo "Seu Chico
Louzado" nosso cliente no armazém. Precisei esperar completar
meus 14 anos, pois precisava da Carteira de Trabalho e só podia obtê-la
com essa idade.
Sempre mantive contatos com meu padrinho. Na quarta-feira passada lhe telefonei
para cumprimentá-lo. Hoje, sábado, vou à sua casa lhe
dar um beijo na testa, "ao vivo e a cores".
Que Deus lhe dê muita saúde e ainda muitos anos de vida, meu
querido Gustão!
Encerro com um versículo bíblico, onde o salmista diz que os
justos na velhice são frutíferos:
"Na velhice darão ainda frutos, serão cheios de seiva e
de verdor" - Salmo 92:14.
Gilson Alberto Novaes nosso colaborador, é Diretor Administrativo-Financeiro
do Instituto Presbiteriano Mackenzie em São Paulo)
Milton Dallari
Encontrar uma solução para a questão da Previdência
Social é um desafio tão grande quanto reduzir os impactos do
aquecimento global sobre a Terra. E não quero parecer exagerado com
essa afirmação. Na verdade, se trata apenas de um alerta para
que no futuro os aposentados não sofram com restrições
que possam ter impacto destrutivo em suas vidas. Meses atrás, fez-se
muito alarde com a criação de um Fórum Nacional para
se discutir os rumos da Previdência Social, embora até agora
não tenhamos nenhuma proposta concreta para a ampliação
do debate junto à sociedade civil.
Não podemos esquecer que o Brasil está discutindo propostas
que serão aplicadas nas próximas décadas e atingirão
a maior parte da população. Até agora, a polêmica
toda gira em torno do aumento do tempo de contribuição, da redução
da idade mínima para deixar o mercado e de um novo cálculo para
o índice de reajuste das aposentadorias.
Se nada for feito para mudar o quadro atual, o colapso no sistema de previdência
social será inevitável. Nem os cálculos mais otimistas
dessa equação conseguem fugir do óbvio. Ou se faz algo
com urgência ou será impossível pagar os benefícios
de todos os cidadãos em um futuro próximo. Inclusive, porque
a expectativa de vida será cada vez maior. Para se ter uma idéia,
em 2050 o Brasil deverá ter uma população de idosos com
mais de 80 anos acima dos 14 milhões de pessoas, quase sete vezes mais
do que hoje.
Alguns dados indicam que hoje somente 5,4% de nossa população
têm mais de 65 anos. Em quarenta anos, essa faixa deve representar 19,2%,
ou seja, uma em cada cinco pessoas. Esse problema é universal. Na Europa,
a situação deve ser ainda pior. Em meados do século,
o continente vai abrigar dois trabalhadores da ativa para cada aposentado,
contra a proporção de 4 para 1 dos dias atuais.
O impacto dessa mudança não vai se restringir somente ao sistema
de previdência pública ou privada. Essa transformação
também vai influenciar, e muito, os gastos com a área de saúde
e, principalmente, promover alterações importantes no mercado
de trabalho. Porque vai faltar mão-de-obra em alguns locais. Haja robô
para dar conta de todas essas tarefas e dinheiro em caixa para cobrir os gastos
com as aposentadorias.
O alerta não serve como justificativa para que os entes públicos
promovam cortes nos benefícios. Pelo contrário. Um estudo publicado
pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) mostrou que a população
urbana de idosos em países da América Latina depende demais
dessas contribuições sociais. No Brasil, a taxa de pobreza entre
os idosos subiria dos atuais 3,7% para quase 48% se houvesse a suspensão
dos benefícios, com conseqüências danosas ao restante da
população das cidades.
Mais do que nunca, a sociedade precisa mergulhar fundo nessa discussão.
O recado é mais do que válido para aqueles que serão
atingidos pelas mudanças na Previdência Social nas próximas
décadas. Não deixe para pensar no assunto somente quando estiver
perto de deixar o mercado de trabalho. O conhecimento em torno do tema pode
ajudá-lo a conduzir sua velhice de maneira mais tranqüila. Depois,
será tarde para reclamar.
Milton Dallari é consultor empresarial, engenheiro, advogado e presidente
da Associação dos Aposentados da Fundação Cesp.
email: editor@diariosbo.com.br