A juventude brasileira "Só há duas opções nesta vida:

Se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca."

Darcy Ribeiro

Henrique Matthiesen

O Brasil é um país de contrastes palpáveis. Somos um país abastado com um povo majoritariamente miserável. Essa realidade nos deixa vassalo às grandes potências mundiais e suas corporações multinacionais e cada vez mais longínquas do desenvolvimento que atenda à maior parte.
Incumbi a juventude o desafio de reverter este mapa, inverter esta dialética e passar dos sonhos à realidade, da conjectura à ação, das utopias às conquistas. Afinal, com um povo servo e vassalo nós jamais seremos uma nação livre e soberana.
Somos mais da metade da população de um Brasil ainda muito púbere, procurando resistir em meio às inúmeros conflitos, das quais somos sucessivamente os mais atingidos. Mas seguimos em frente, sem perder nosso jovialidade e ânimo.
Recebemos um ensino que não emancipa, cada vez mais ilusório e sem qualquer analogia com nosso dia-a-dia. Nossos mestres, por mais que se esforcem, não são estimados, os salários desprezíveis, a ausência de incentivos e investimentos dão conta que a educação não é primazia para os mais diversos governos, nos mais distintos níveis.
Alguns abalizam como opção educacional os cartéis das escolas particulares e muitos de nossos pais acabam por avistar aí uma tábua de salvação para uma geração entregue cada vez mais à própria fortuna. Com isso, as escolas públicas vão se decompondo em verdadeiros castelos mal assombrados, com assombração de todo tipo: precárias estruturas físicas, ausência de material didático e de apoio, falta de professores, falta de merenda.
O ensino superior é tão remoto que apenas 11% dos jovens do nosso país conseguem adentrar em uma universidade e quando chegam, muitos não finalizam. E terminando, não conseguem emprego.
Os classificados dos diários são uma das principais leituras da juventude, uma vez que, com o desemprego dentre os jovens apresentando números aterrorizantes, atingindo, por exemplo, a alcançar 72% em regiões como a metropolitana do Recife. Formamos uma hoste de desempregados, exatamente na etapa da existência em que mais temos pujança e capacidade de produção.
Quando conseguimos romper este entrelaçado de desafios, os salários são execráveis, direitos trabalhistas inexistem e a carga horária nos impede de prosseguir os estudos. Somos submetidos a todo tipo de abuso e desvios de função. Não há políticas públicas de trabalho, emprego e renda para juventude.
A maioria irrefutável dos jovens não tem entrada ao oneroso mundo da cultura. Somente uma pequena elite juvenil de nossa coletividade tem entrada aos raros ambientes para exercício, desenvolvimento e produção de cultura. Mas a juventude afronta. Descobre e abre brechas no sistema, oferece e faz sua própria contracultura: movimento hip-hop, funk, samba, teatro, cinema, capoeira, poesia e as mais variadas manifestações populares. As políticas públicas nesse campo inexistem ou são acanhadas e precárias, beneficiando projetos pontuais que não colabora para sobrepujar essa realidade.
Na comunicação, a maior parte das rádios reproduzem a imundice nacional e internacional, majoritariamente ianque, de uma cultura descartável e alienante com péssima qualidade e sem substância cultural. Os canais de TV não exercem seu papel constituído pela Constituição Federal de educar, trazendo em suas grades de programação um mundo longínquo da realidade da grande massa. Através de novelas e programas de auditório, em que os negros são discriminados e o povo é convidado exclusivamente para bater palmas, designam um mundo alienado onde tudo é admissível. As TVs e Rádios Comunitárias, além de escassas, enfrentam a burocracia e, em muitas circunstâncias, são fechadas pela ferocidade e coerção dos governos. Consecutivamente por pressão dos grandes canais e do coronelismo dos grandes meios de comunicação privados.
Até mesmo em contendas contemporâneas, como a que resultou na escolha do modelo de TV digital a ser inserido no Brasil reproduziu-se, mais uma vez, ajustes que privilegiaram os interesses internacionais em prejuízo da tecnologia pátrio. Mais uma vez, a função social da comunicação de massa foi diminuída a um negócio.
Se, nas cidades as dificuldades da juventude são grandes, no campo são ainda maiores. A ausência de condições e elementos para a conservação das pequenas propriedades, a insuficiência de educação e de tecnologia, bani os jovens cada vez mais cedo para os grandes centros. Famílias inteiras abdicam anos de labuta, vendendo suas escassas terras aos grandes latifundiários/gafanhotos rurais ou as entregando aos bancos para amortizarem débitos de juros impagáveis. O que aumenta cada vez mais os bolsões de infortúnio que cercam as grandes e médias cidades.
A violência já não é exclusivamente um problema das grandes cidades. Também está presente nos pequenos municípios. Os mais abastados, sentindo-se acuados aprisionam-se em "castelos", cercando-se de um aparato colossal de segurança privada. Crianças e adolescentes são aliciados e recrutados pelos cartéis das drogas e da exploração sexual. Este é a conseqüência da ausência de um desenvolvimento voltado para as maiorias, capaz de distribuir riqueza e evitar que nossas crianças e jovens tenham de escolher pela delinqüência para "sobreviverem" um pouco mais.
A justiça é vagarosa e criteriosa, penitenciando os mais fracos e consentindo aos poderosos - sonegadores, mensaleiros, sanguessugas e todos aqueles que podem pagar um excelente advogado - andarem livres para prosseguir cometendo seus crimes.
A polícia que necessitaria resguardar a sociedade desempenha o papel de "capitães do mato" das elites, levando o temor e a morte para os bairros populares e favelas. A juventude negra e miserável é chacinada cotidianamente, a ponto de "aleijar" a pirâmide etária de nosso país. Nem mesmo os bons policiais estão salvos por usarem farda, muitas vezes eles e suas famílias são vítimas de colegas corruptos. Desse caldeirão resulta um acontecimento novo e arrebatador: as chamadas milícias, verdadeiros esquadrões paralelos que causam a barbárie ameaçando, coagindo e achacando a população que ousa não pagar por proteção ou consentir a seus interesses.
As políticas públicas de juventude para as áreas de saúde são pontuais e ineficientes, são milhares os jovens contaminados pelo HIV, por exemplo. No que diz deferência a morada - são multidões que vivem nas praças, calçadas e viadutos, para o esporte - somos um oceano de jovens, pés descalços que jogam e correm em ruas esburacadas sem clubes populares, nem centros de esporte. Quando o investimento chega aos atletas eles respondem de forma excelente, nossa principal ginasta, Dayane dos Santos, por exemplo, foi descoberta em um Ciep - Centros Integrados de Educação Pública, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul.
A Amazônia está virando carvão e plantação de soja. Os grandes laboratórios já patentearam milhares de plantas e animais. Restam menos de 5% da Mata Atlântica e a aniquilação da fauna do Pantanal progredi a níveis espantosos.
A poluição é responsável cada vez mais pelas principais doenças respiratórias. Tudo por que não existem políticas publicas de transporte que questionem o padrão automotivo imposto pelas grandes montadoras. Nossa água está sendo oferecida às empresas estrangeiras. Nossas riquezas minerais foram entregues de graça às grandes corporações internacionais, vide a privatização da Vale do Rio Doce.
Essa realidade nos atribui uma série de desafios. Muitos pronunciam que o vindouro competi à juventude mas, em muitas ocasiões, quando somos chamados a enfrentar esses desafios - seja nas esferas profissionais seja nas políticas - somos eliminados por sermos considerados imaturos, explosivos e até, segundo alguns, por sermos demasiadamente rebeldes, como se estas justificativas nos impedissem de tomar determinados espaços de visibilidade e responsabilidade.
Apesar desses obstáculos nos apresentamos cada vez mais e com mais pujança, como alternativa ao ciclo de lideranças que hoje dominam a realidade brasileira na política ou nas mais diversas frações da nossa sociedade.
A juventude já comprovou historicamente ter envergadura para ser protagonista e vanguarda do processo de transformação que nosso país carece. Esse papel sempre competiu a juventude que com sabedoria exerceu nos mais diversos momentos da história de nosso povo: na peleja pela abolição dos escravos, na campanha "o petróleo é nosso", na campanha da Legalidade liderada por Leonel Brizola, na peleja contra a ditadura militar e pela anistia, nas "Diretas Já!" e em um tempo mais recente no movimento pelo impedimento de Collor. Também tivemos papel admirável na cultura brasileira com nos grêmios culturais e nos festivais durante a ditadura militar, cada um em seu tempo, a juventude brasileira continuamente esteve presente nas principais transformações do nosso Brasil.
E aqui estamos mais uma vez, prontos para pelejar e sonhar, nas escolas, universidades, na tranqüilidade das cidades do interior ou nas grandes e agitadas metrópoles, nos mais longínquos campos ou nas periferias, no comércio informal ou nas fábricas da nossa pátria. Estamos onde sempre estivemos, fabricando mais um pouco de tinta para pintarmos, com nossas tonalidades, mais um capitulo da história brasileira.
Henrique Matthiesen é colaborador


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