Chega de diagnósticos, tragam propostas

Marcos Cintra

Mais dois movimentos surgiram tendo como uma de suas bandeiras a questão tributária no Brasil. O "Cansei", liderado pela OAB, e o "Cansamos", comandado pela CUT, protestam contra a elevada carga tributária e a sonegação de impostos.
É louvável a mobilização que essas entidades estão promovendo apontando as disfunções da atual estrutura tributária e fiscal no Brasil. É um reforço aos movimentos que já vêm atuando nesse sentido. O "Quero Mais Brasil" enfatiza a necessidade de maior eficiência nos gastos públicos, e entidades empresariais criaram o "impostômetro", um painel instalado no centro de São Paulo que mostra, ainda que simbolicamente, a evolução da arrecadação de impostos. Cabe destacar também a campanha da rádio Jovem Pan intitulada "Brasil, o país dos impostos". Nela, a emissora mostra o elevado ônus tributário que o brasileiro suporta na sua rotina diária e que a carga global por aqui é maior que a de muitas economias ricas.
Esses movimentos acertam em mostrar a elevada carga tributária e o desperdício dos gastos governamentais. Porém os efeitos práticos desses atos estão esgotados. A sociedade brasileira tem consciência de que o peso dos impostos é exagerado, de que a sonegação é um fenômeno arraigado na cultura do país, de que o custo para cumprir a legislação é elevado e de que o retorno social dos tributos pagos é reduzido. Ademais, o consumidor já sabe, de longa data, que impostos representam de 30% a 70% do preço das mercadorias que ele adquire. O que o povo quer a essas alturas é saber como evitar tais abusos e anomalias. O que o país precisa é de propostas que efetivamente resolvam o problema.
Em vez de bater repetidamente na mesma tecla, os movimentos organizados deveriam evoluir para a apresentação, com seus diagnósticos, dos projetos que defendem para mudar a caótica estrutura tributária. Como presidente da Associação Contribuintes em Ação estou iniciando um movimento nesse sentido. Estive com grupos empresariais e de profissionais liberais em Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Fortaleza, Presidente Prudente, Franca, São Paulo, entre outras cidades, para expor sobre os benefícios do Imposto Único e o movimento que estamos criando para obter assinaturas em favor de um plebiscito para saber o grau de aprovação desse projeto que reduz a carga individual de impostos, combate a praga da sonegação e simplifica a estrutura tributária. Em breve estarei em outros municípios já com a petição pronta para ser assinada através da Internet em favor de uma proposta efetiva de reforma tributária.
É importante que a sociedade tome conhecimento de que já passou da hora de fazer a reforma tributária. O povo está exausto de saber que a estrutura de impostos é ruim, pois a vive diuturnamente. A sociedade clama por projetos que mudem essa realidade. Esse é o desafio que se apresenta aos movimentos organizados.

Marcos Cintra Cavalcanti de Albuquerque é doutor em Economia pela Universidade Harvard (EUA), professor titular e vice-presidente da Fundação Getulio Vargas.


A “nova” reforma tributária e a morte dos municípios

Francisco de Almeida e Silva
 
Como não pode mais espremer os contribuintes, que já suportam carga tributária de 40% do PIB, o Governo Federal anuncia uma nova proposta de Reforma Tributária que retira o ISS dos municípios e passa o imposto de bandeja para os Governadores. Segundo o Ministério da Fazenda, seria criado um “novo” ICMS estadual, batizado de IVA-E, enquanto a União ficaria com o IVA-F. A desculpa do projeto federal é técnica (a neutralidade do sistema, pois o ISS é cumulativo), mas o objetivo é claramente político: controlar as bancadas dos Governadores, ou seja, o Congresso Nacional.
O troco oferecido aos Municípios é inaceitável: um novo aumento do Fundo de Participação dos Municípios ou um novo imposto, o IVV (imposto sobre vendas a varejo). Por um lado, o argumento é falso, pois o ISS representa apenas 0,8% da carga tributária nacional e pouco afeta o conjunto da economia. Além disso, os poucos setores que têm contratação intensiva de serviços como insumo, já podem deduzir seus custos - como a construção civil.
Na verdade, o ISS desperta a cobiça fiscal pois sua receita cresceu mais de três vezes desde a Constituição de 1988.  Ao contrário do ICMS e do PIS/COFINS, que vêm batendo recordes de arrecadação à custa da majoração de alíquotas e da ampliação de bases de cálculo, a melhoria nos ingressos do ISS decorre da eficiência das Administrações Fiscais locais, mesmo depois que a Lei Complementar n. 116/2003 limitou sua alíquota máxima a 5%. Os Municípios brasileiros vêm aprimorando suas máquinas arrecadadoras, sendo que todos cobram o ISS e comunicam sua receita ao Tesouro Nacional a cada dois meses, de acordo com Lei de Responsabilidade Fiscal.
Desde 1997, mais de 300 grandes municípios brasileiros tomaram emprestado junto ao BNDES/BID perto de dois bilhões de reais para a modernização das administrações locais, por meio dos programas PMAT e PNAF-M. Vários países de grandes dimensões territoriais almejam esta qualidade na descentralização da fiscalização e arrecadação de seus impostos, decorrente de capilaridade e crescente cooperativismo entre as entidades municipalistas.
 Apesar dos inegáveis avanços, o governo federal decide, repentinamente, jogar tudo no lixo, ignorando o custo e a capacitação das administrações fiscais locais e, pior, extinguindo o único imposto relevante para os Municípios brasileiros. Com efeito, a perda do ISS não é só de receita, mas sobretudo de autonomia tributária, pois o sistema de repasses é objeto das mais diversas artimanhas e barganhas federais visando a sua liberação.
A experiência financeira brasileira comprova que os repasses de receitas estão cada vez mais sujeitos às manipulações legislativas com fins políticos menores, não cumprindo o papel de redução de desigualdades regionais ou sociais.
O gasto municipal decorrente de arrecadação local e própria é mais fácil de ser controlado. Por ser dinheiro da população local, suscita maior vigilância e transparência na sua destinação. Já quando os recursos vêm de Brasília ou da capital do Estado, parecem uma simples doação, estimulando o gasto irresponsável e a preguiça fiscal.
Acrescente-se a isso o fato de que as Prefeituras são fiscalizadas pelo Ministério Público Estadual e pelo Tribunal de Contas, em geral dos Estados, sobre os quais os Prefeitos não têm ingerência política de peso. Com isso, o modelo desejado pelos técnicos do Ministério da Fazenda compromete de maneira dramática o princípio da subsidiariedade, reconhecido em todas as democracias constitucionais modernas em que se consagra a precedência e a legitimidade da esfera local.
A proposição do Governo Federal desequilibra a equivalência financeira entre as competências tributárias e as tarefas administrativas cometidas aos Municípios pela Constituição de 1988, arriscando seriamente as políticas públicas de saúde, educação básica, saneamento e urbanismo, organizadas em nível local.
Depois da criação e aumento das contribuições não-partilhadas (com Municípios e Estados), esta proposta configura o ápice da cassação da autonomia local, contrariando o desejo do Constituinte de 1988. Constata-se, assim, que a nova proposta de Reforma Tributária do Governo Federal representa duro e injusto golpe nos Municípios brasileiros, cassando-lhes a autonomia financeira e tributária.
 Caso a bancada municipalista do Congresso Nacional - que conta declaradamente com mais de 194 parlamentares - não se insurja contra isso, poderemos ter uma apagão nos serviços de saúde, educação e saneamento, de responsabilidade dos Municípios e os mais importantes para a população de baixa renda.

Francisco de Almeida e Silva é secretário de Fazenda do Município do Rio de Janeiro e Presidente da Associação Brasileira de Secretários de Finanças das Capitais – ABRASF


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