A “Maria Fumaça” e nossa estação

Oswaldo Vicentin

À poucos dias fiz uma visita à nossa Estação Ferroviária. Justamente quando se comemora noventa anos de sua existência. Chegou o toque da saudade e meus pensamentos foram levados ao passado. Parecia ouvir ainda os apitos que quebravam o silêncio de todas as tardes. Parecia dizer: “ barbarenses, eis me aqui de novo, chegando para vos alegrar”. E deslizando vagarosamente na Estação, vinha aproximando, brecando seus freios soltando como que num suspiro sua fumaça. O maquinista alegre acenando, parando. O primeiro a descer do trem era o Chefe, o bilheteiro. Era repecionado pelo Chefe da Estação, que naquele tempo era o Sr. Ântonio Wolff. Por exigência da Cia. Sr. Ântonio trajava um uniforme a rigor que se constituía numa calça e jaquetão azuis com botões dourados. Usava também um quepe envolvido com fita dourada e na frente o emblema da Cia. A primeira vista parecia – nos estarmos vendo um General ou Comandante do Exército. O Sr. Antonio como Chefe era responsável pelo escritório, telégrafo, venda de passagens, armazém ou depósitos de cereais e açúcar, que eram abastecidos pelas Usinas. Meu primeiro encontro com a Maria Fumaça foi na infância com 10 anos de idade. Eu e meu irmão Luiz, fomos uns dos pioneiros a trabalhar no Correio, e nosso Chefe era o Sr. Paulo de Godoy (im memórian). Como a correspondência, malotes e jornais vinham através do trem, nós tínhamos incumbência de apanha – las todos começos de noite, na Estação. É gostoso lembrar que naquele tempo só vinha um jornal. Era o “Diário da Noite”. O primeiro exemplar nós entregávamos na residência da Família Cavalheiros onde se acha uma escola infantil na Rua Quinze. O segundo exemplar nós entregávamos na ZONA, prostituição que ocupava um quarteirão na esquina da Rua Graça Martins com a Rua Riachuelo. “Que menino lindo” elas diziam! Até hoje parece – me ver e sentir o colorido ambiente perfumado. (eu era feliz e não sabia...) ....
Naquele tempo na nossa juventude não havia meio de transporte rodoviário. À nossa salvação e graças a Deus, era ela “ MARIA FUMAÇA”. Muitos jovens como este que “ vos escreve” tinham namoradas nas localidades vizinhas. Tudo era romântico!
A “MARIA” parecia doida de vontade de rodar, soprando “FUMAÇA” ao mesmo tempo que se ouvia o som cadenciado de suas rodas sobre o trilhos – TRA-LÁ-LÁ , PRA-LÁ-LÁ parecia música! E no trajeto muito se via VERDE QUE TE QUERO VERDE! As planícies os mataréus! Sentia-se o aroma das árvores e as vezes seus galhos roçavam no trem. Via – se os barrancos vermelhos molhados pela chuva, enfeitados de flores silvestres como a Primavera ou flor de São João. Via – se ao longe as vacas pastando; um Peão montado em seu cavalo impetuoso e mais ao fundo uma casinha de barro, ou sapé e na frente o caboclo do sertão fumando um “picadão”!
Que bom seria se as autoridades, as pessoas poderosas e principalmente os políticos gananciosos dexassem de ficar discutindo “ picuingas, bugigangas” infantilidades, e se preocupassem em nos trazer a “MARIA FUMAÇA”, mesmo que fosse até Nova Odessa e Piracicaba. Seria a alegria principalmente para a juventude e as crianças. Ficará sempre em nossas memórias afortunadas em ver a “MARIA” apitando todas as tardes, enquanto sua “FUMAÇA” era levada pelo vento ao horizonte. O mesmo Horizonte que quando olhamos nos traz a gratidão da saudade de um tempo que não volta mais.

Oswaldo Vicentin é colaborador


Caso Richarlyson e a homofobia

Sylvia Maria Mendonça do Amaral

Não podemos negar, infelizmente, que a homofobia está presente em nosso país. Os atos homofóbicos partem de todos os lados, de todas as maneiras, de uma palavra vulgar a assassinatos. Mas o que podemos dizer quando a discriminação parte de um Juiz de Direito que está a serviço da Justiça?
Um caso de homofobia envolvendo o jogador do São Paulo Futebol Clube, Richarlyson, virou manchete dos principais veículos de comunicação do país. O juiz da 9ª Vara Criminal de São Paulo, Manoel Maximiano Junqueira Filho, mandou arquivar o processo movido pelo jogador contra um dirigente do Palmeiras que, em um programa de televisão, insinuou que o atleta era homossexual. Em seu despacho, entre inúmeras declarações homofóbicas, o juiz afirmou que "não poderia jamais sonhar em vivenciar um homossexual jogando futebol".
O "caso Richarlyson" demonstra o grau de homofobia que assola nosso país. Mas o jogador tem demonstrado sua coragem e partiu para lutar pelos direitos constitucionalmente garantidos não só a ele como a todos nós, cidadãos, que são: honra, dignidade, igualdade e privacidade.
Richarlyson poderia ter agido de três formas diferentes nesta situação: ter se recolhido e não levar a história adiante, agir por ele mesmo ou, e aí é que está o seu brilhantismo, lutar por todos nós.
Conhecedor das regras de civilidade, respeito e justiça, o jogador está agindo contra o preconceito e discriminação de um diretor de clube de futebol e de um Juiz de Direito, a quem recorreu para clamar por justiça. Ocorre que esse que deveria ser o seu defensor, não só indeferiu seu pedido e o repeliu, como proferiu sentença ainda mais preconceituosa e homofóbica do que as ofensas praticadas por seu primeiro agressor.
Todas as ações de Richarlyson, inclusive a exposição do caso (e, conseqüentemente, da sua imagem) para a mídia, demonstram quais são as atitudes daqueles que se sentem vítimas de discriminação, seja ela homofóbica ou não. Para que as ações do jogador de futebol sejam ainda mais brilhantes, resta apenas uma atitude: exigir uma indenização por danos morais de todos aqueles que o ofenderam. O valor que Richarlyson vier a receber (e parece claro que o receberá, diante dos incontestáveis danos causados aos seus valores morais, sua dignidade e sentimentos) servirá, como diz a própria lei, para atenuar os seus sofrimentos e, principalmente, punir aqueles que os causaram.
A punição é a função educativa da indenização por dano moral. E, neste caso, se presta a ensinar que a homofobia não é mais aceita por grande parte da sociedade (infelizmente, não a totalidade dela). Cada vez mais "Richarlysons" aparecerão para mostrar que aqueles que não concordam com isso - até mesmo um Juiz de Direito - serão punidos e apontados perante a sociedade como pessoas que agem em descompasso com a Justiça e com os tempos em que vivemos, causando danos à sua própria imagem.
É um absurdo que a discriminação venha de um diretor de clube de futebol. E mais absurdo ainda é que isso seja aprovado, através de uma sentença, por um juiz. O Conselho Nacional de Justiça tem em suas mãos a obrigação de punir o juiz e nos fazer acreditar que o Brasil não é um território sem lei.

Sylvia Maria Mendonça do Amaral é advogada especialista em Direito de Família e Sucessões do escritório Mendonça do Amaral Advocacia, autora do livro "Manual Prático dos Direitos de Homossexuais e Transexuais" e editora do site Amor Legal


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