Armando Correa de Siqueira Neto
Só me motivo quando eu receber um aumento de salário! Para
eu me motivar só falta conhecer alguém interessante. Estou desmotivado
pela falta de dinheiro. A minha motivação foi embora junto com
a derrota do meu time. Ter motivação depende de... A falta de
motivação... Sem isso... Pois bem, é claro que as circunstâncias
podem facilitar ou dificultar o desenvolvimento da motivação.
Porém, justificar a presença ou a redução dela
a partir de condições alheias puramente é outra questão.
Da mesma forma que você, talvez, pense assim, existem outras pessoas
que concordem igualmente. Logo, elas também aguardam certas situações
para que se motivem. Não obstante, pense no caso de você ser
uma destas condições para motivar alguém (servir-lhe
de companhia, emprestar ou dar dinheiro, amá-la, casar-se com ela,
defendê-la etc). Então, sob tal ponto de vista, você é
responsável pela desmotivação que eventualmente ocorra
nesta pessoa (e em outras) caso não seja possível atendê-la,
e pior, saber a respeito de tais situações, pois há gente
que sequer manifesta os próprios desejos, tornando-os ocultos por tempo
indeterminado.
Se pensarmos a motivação nestes termos, é evidente a
dificuldade de se atender a tantas vontades que se fazem necessárias
ao desenvolvimento da motivação. Não é? Todavia,
se vale para os outros, a regra se encaixa a você também. Portanto,
pergunte-se: Do que você depende para se motivar? Ou ainda: Quem é
o responsável pela sua motivação? Para colaborar, vale
a pena tomar contato com as idéias de Epicteto (55-135), pensador que
viveu no antigo Império Romano: "Nada pode de fato fazê-lo
parar. Nada pode realmente impedi-lo de prosseguir. Porque a sua vida está
sempre sob o seu controle. A doença pode desafiar seu corpo. Mas será
que você é só um corpo? Suas pernas podem estar incapazes
de andar. Mas você não é somente um par de pernas. Sua
vontade é maior do que as suas pernas. Sua vontade não precisa
necessariamente ser afetada por algum incidente, a menos que você permita.
Lembre-se disso com relação a tudo o que acontece com você".
É, pois, momento de ponderar sobre as razões que podem motivar
uma pessoa. Se acaso elas se encontram atreladas basicamente a terceiros (gente,
golpe de sorte) ou se são extraídas, via de regra, internamente
daquele que se responsabiliza pelo seu próprio desenvolvimento, e,
por tal determinação, encontra incontáveis recursos dentro
de si mesmo para se motivar e crescer. (Lembre-se que todos possuem o potencial
para evoluir, mas é preciso fazer acontecer.)
Com efeito, cumpre-se, finalmente, questionar: Será que culpar o outro
ou a circunstância é uma forma de se justificar e esconder-se
mediante a acomodação, transferindo-lhes a responsabilidade
acerca do desenvolvimento da motivação?
Armando Correa de Siqueira Neto é psicólogo e diretor da Self
Consultoria em Gestão de Pessoas. É professor e mestre em Liderança
pela Unisa Business School. E-mail: selfcursos@uol.com.br
Jorge Carlos Machado Curi
Nos últimos dias convivemos com dois fatos marcantes. Um muito feliz,
os Jogos Pan-americanos no Rio de Janeiro. Outro triste e trágico,
a queda do avião da TAM no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo.
Se analisarmos a ambos com sensibilidade, há lições importantes.
Os Jogos Pan-americanos foram um sucesso, a despeito das intempéries
que marcaram o período de preparação. Inúmeros
atletas brasileiros superaram toda a sorte de dificuldades, colocando-nos
no mais alto patamar do esporte mundial. Eles levantaram a nossa auto-estima
tão abalada nos últimos meses, provando que a garra e a vibração
do nosso povo são capazes de tudo, inclusive de superar os mais íngremes
obstáculos. Nesse processo ficou evidente a importância do esporte
para a cidadania e o resgate social.
Lógico que ainda estamos longe de virar uma potência olímpica.
Contudo, podemos chegar lá e logo. Especialmente se as autoridades
responsáveis tiveram com o esporte e com a nação o mesmo
compromisso que cada brasileiro comum possui.
No caso do acidente da TAM, infelizmente, temos o rastro da incompetência.
Ficou mais uma vez comprovada a enorme inconsistência, fragilidade e
incoerência dos serviços públicos, da infra-estrutura
em áreas vitais e, o pior, da falta de valorização da
vida dos cidadãos.
Diante da justa indignação da população e do sofrimento
das famílias das vítimas, todos tentam se eximir de responsabilidade.
Entretanto, independentemente da conclusão da apuração
das causas, é cristalina a incrível inadequação
da organização do nosso serviço aéreo, o que,
obviamente, é um facilitador dessas tragédias.
Cabe aqui um parênteses para registrar o incrível profissionalismo
e humanismo observado no trabalho dos nossos colegas legistas, para liberar
e reconhecer os corpos das vítimas.
Seguramente o apagão aéreo não retrata nossa única
fragilidade. É necessário ter clareza dessa realidade para poder
enfrentar devidamente as inconsistências do Brasil. Nas áreas
sociais, por exemplo, educação, saúde, segurança
e habitação, além de outras como a energia, as condições
são precárias. Apesar dos esforços de muitos, a situação
demora demais para mudar, talvez porque, de alguma forma, nós brasileiros
certas vezes nos mantemos anestesiados frente a graves problemas como os acidentes
da TAM e da GOL, ou ainda, frente às mais de setecentas mortes contabilizadas
em nossas estradas no último mês. Aliás, estradas mal-cuidadas
que expõem a todos a riscos inaceitáveis.
Como nossos atletas do Pan ou os bombeiros que trabalharam no resgate das
vítimas do vôo da TAM ou ainda os colegas que atuaram incessantemente
na identificação dos corpos e os milhões de brasileiros
lutando diariamente para superar toda a sorte de dificuldades, sabemos que
é possível mudar, e logo, esse contexto atual. Temos consciência
do que fazer para alterar a nossa realidade para algo muito mais ético,
competente, humano e solidário.
Nós médicos, por exemplo, contamos com um espaço privilegiado
para ajudar a construir dias melhores. Portanto enfrentemos esse grande desafio
nacional, os obstáculos serão muitos, mas como no PAN, o resultado
pode valer muito a pena.
Jorge Carlos Machado Curi, presidente da Associação Paulista
de Medicina
email: editor@diariosbo.com.br