Mercado de trabalho, o retorno

Milton Dallari

Uma das maiores indústrias automobilísticas do mundo está recorrendo a aposentados para preencher novas vagas em sua linha de montagem. Engana-se quem imagina que essa idéia nasceu em países desenvolvidos como Alemanha, França ou Inglaterra. Na verdade, essa iniciativa está em marcha no Estado de São Paulo. Foi uma alternativa encontrada pela montadora para reforçar a mão-de-obra para suprir a demanda do mercado interno, aquecido com vendas recordes de carros, ônibus e caminhões.
Confesso que recebi a notícia com um pouco de surpresa. O salário gira em torno de R$ 1 mil por mês, segundo o anúncio que li na Internet. E a empresa oferece refeitório, transporte gratuito e plano de saúde. A vaga é temporária, embora possa ser prorrogada por mais um ano. O mais curioso é que o interessado não precisa ter experiência no ramo. Basta passar no exame médico e depois fazer um treinamento.
A procura foi motivada pela exuberância do mercado automobilístico em nosso País. Ocorre que essa empresa poderia ter recorrido a jovens recém-saídos da escola, como suas concorrentes vêm fazendo para ampliar seus quadros. Mas optou-se pelos aposentados, uma demonstração de que alguns executivos de multinacionais começam a despertar para o diferencial que os profissionais experientes podem trazer aos negócios.
Esse movimento ainda é tímido, mas já se começa a desenhar uma tendência que deve se repetir no futuro, na medida em que o País começará a envelhecer. Atualmente, estima-se que 6% de nossa população se encontra na faixa acima dos 65 anos. Nas próxima quatro décadas, esse número deve mais do que triplicar, chegando perto dos 20%. Se a economia continuar a crescer, em breve vai faltar mão-de-obra jovem no mercado de trabalho. E é nesse momento que haverá valorização do aposentado.
O fenômeno pode repetir o que ocorreu logo após o final da II Guerra Mundial, quando países como a França e a Alemanha perderam milhões de jovens nos campos de batalha e tiveram de recorrer aos mais velhos para reconstruir cidades e educar as crianças. O papel dessas pessoas foi fundamental para a recuperação de algumas nações no Velho Continente. Sem a ajuda desses "aposentados", o curso da história poderia ter sido diferente nesses países europeus, que hoje voltam a recorrer a esse tipo de mão-de-obra. Desta vez, no entanto, isso ocorre devido ao envelhecimento da população e à queda da natalidade.
Aos poucos, o Brasil vai começar a valorizar a experiência de uma série de profissionais que muitas vezes deixam o mercado por exigência da legislação. Temos graves problemas educacionais, com crianças que sequer sabem ler e escrever, e assim mesmo conheço professores com pouco mais de 50 anos que passam os dias em casa porque foram obrigados a se aposentar. É incompreensível esse desperdício de talentos, já que existe muita gente disposta a ajudar.
Só espero que essa busca por profissionais mais experientes não se limite às montadoras de automóveis. Se houver interesse de outros setores, governos incluídos, ainda haverá muitas outras vagas disponíveis no mercado.
Milton Dallari é consultor empresarial, engenheiro, advogado e presidente da Associação dos Aposentados da Fundação Cesp. O e-mail para contato é o mdallari@decisaoconsultores.com.br.


O 'sacerdócio' do bom soldado

Prof. Felipe Aquino

Em 25 de agosto, comemoramos o Dia do Soldado. O ideal do soldado é digno de admiração, especialmente pelo modo com que defende a mãe pátria dos perigos externos, invasões e ataques. Apesar de terrível, há situações em que a nação é obrigada a entrar em guerra para se defender. É a legítima defesa.
A própria Igreja ensina que se "houver perigo de guerra, sem que exista uma autoridade internacional competente e dotada de forças suficientes, e esgotados todos os meios de negociação pacífica, não se poderá negar aos governos o direito de legítima defesa" (GS 79,4).
Quando o soldado entra em cena, em nome do povo e da nação, arrisca sua vida para defender a pátria. De modo especial, podemos lembrar que cerca de cinco milhões perderam as suas vidas na Primeira Grande Guerra e mais de 50 milhões na Segunda Guerra, para defender o ocidente cristão das loucuras de um nazifascismo homicida.
O bom soldado exerce um verdadeiro "sacerdócio" quando vive sua missão corretamente. Para estar bem preparado, o soldado precisa ter uma austera disciplina. O soldado precisa de acompanhamento psicológico e religioso, para não ser dominado pela arrogância, prepotência e abuso de poder. Sem o domínio do seu corpo e do seu espírito, sem um caráter reto e forte, sem a necessária mansidão, ele não pode ser um bom servidor da nação.
Também os soldados de outras corporações militares estaduais e federais têm grande importância para a nação e precisam ser lembrados. Quantos perdem suas vidas em defesa da segurança e integridade do povo, enfrentando a criminalidade, a violência urbana e o narcotráfico. É uma vida muito árdua e perigosa, especialmente em nosso país, onde bandidos têm acesso a armamentos sofisticados enquanto os equipamentos de segurança e de ação dos policiais ainda não são dos melhores.
Um homem que tem um ideal, por menor que ele seja, é um grande homem. Deu sentido à sua vida e poderá ajudar a seus irmãos. É interessante notar que a vida espiritual também é uma luta, uma militância. O bom cristão é um "soldado de Cristo", diz a Igreja. Todo soldado, quer defenda a nação, quer defenda a religião, deve cultivar um contato contínuo e amoroso com Deus, que lhe dará proteção e luz para bem cumprir sua difícil missão ?
Prof. Felipe Aquino é teólogo e apresentador dos programas Escola da Fé e Trocando idéias, na TV Canção Nova (www.cancaonova.com)


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