Todos nós fomos anjos

Oswaldo Vicentin

Outro dia em conversa com o Toninho da esquina -perguntei- Toninho você acredita que existe anjos? Não! E porque Toninho? Porque nunca vi um anjo! Foi a resposta. E você viu? Disse-me Toninho. Vi. Na verdade, como disse ao Toninho, todos nós vimos. Senão vejamos: No dicionário do Aurélio está escrito - "Anjo; ser espiritual que serve de mensageiro entre Deus e os homens; criança sossegada". Criança! E é aí que nós entramos.
Na realidade todos nós fomos anjos. Fomos crianças sossegadas ou sapequinhas, mas inocentes, puras, imaculadas, divinas. Em nossa frente estavam outras crianças com as quais brincávamos, agarrávamos. Podiam ser brancas, negras, amarelas, pobres, ricas, aleijadas, surdas, mudas, cegas, ou especiais, excepcionais. Tudo para nós era alegria, harmonia. Depois. Ah! Aí vem o depois! Quando as portas do mundo se abrem para nós, com seus conceitos, suas versões, suas necessidades, nos transformam completamente. Aí entramos nas filas do orgulho, da maldade, da inveja, da ambição, da cobiça, do poder, do preconceito e da hipocrisia! Nossas almas antes brancas, iluminadas, tornam-se obscuras! Todos cometemos erros. Uns mais, outros menos. Muitos de nós erramos, menos em conseqüência de uma formação religiosa, educacional, com assistência carinhosa dos pais, onde nunca nos faltaram alimentos, roupas, sapatos, e boa escolaridade. Mas muitos induzidos por más companhias caem nas ciladas das drogas, bebidas, delinqüências, e se perdem na lama de forma trágica. Como é o caso de Suzane Von Richthofen que matou os pais. Só para exemplificar. Muitas das crianças por falta de estrutura ou LAR, diante das agruras da fome, da falta de roupas, convivem nas sarjetas, embaixo de pontes, e cedo se transformam em criminosas. O crime para eles tornam-se uma banalidade como o caso dos três garotos de 11, 13 e 14 anos na cidade de Limoeiro-PE, quando confessaram com a maior tranqüilidade terem matado a pauladas uma senhora de 87 anos, para poder furtar galinhas. E que dizer daqueles dois meninos -que um dia foram anjos- mas orientados por pais fanáticos religiosos, insanos, à portar nas mãos uma metralhadora ao invés de um brinquedo, e a cultivar o ódio. Nome dos meninos? Um chamava-se Saddan Hussein -o Tirano- e o outro chama-se Bin Ladem - Terrorista!
Todavia, voltando na conversa com Toninho da esquina, o Toninho um pouco desconfiado me perguntou: -Você viu mesmo algum anjo? Ví Toninho! Agora à pouco estava brincando com cinco anjos. Eram meus netos: o Pedrinho, a Manuela, a Giovana, a Nina e a Aniele.
Na verdade quando estamos frente à criança com aquele rostinho angelical, olhos brilhantes a nos fitar, ficamos perplexos, magnetizados. Nos tornamos simples, humildes, torcendo para que aquela criaturinha nos acene com um sorriso, abra os braços e venha correndo nos abraçar, dando aquele beijo mais dócil do mundo. Parece-nos receber uma mensagem penetrando no coração! Sucumbimos diante daquelas criaturinhas que nos comove às lágrimas e aos sorrisos e ao mesmo tempo nos penitenciamos, tornando-nos frágeis a ponto de sentirmos a dor de arrependimentos por certos fracassos e uma imensa vontade de começar tudo de novo. São momentos transcendentais, místicos, e sabem o por quê? Porque significa que por alguns minutos nós voltamos a sentir a puresa de nossa infância. Significa que nunca perdemos o AMOR DIVINO e concentrados no olhar puro daquela criança parece-nos receber uma mensagem. Uma mensagem de esperança de que um dia ou uma noite poderemos nos tornar ANJOS VERDADEIROS entre as estrelas do Céu aos pés de Deus! Afinal
TODOS NÓS UM DIA FOMOS ANJOS!
Oswaldo Vicentin é colaborador


À moda da ditadura

Antonio Carlos Pannunzio

Desde que a Constituição de 1988 concedeu ao presidente da República o direito de editar medidas provisórias que, vigorando de imediato, produzem efeitos similares ao das leis votadas pelo Congresso Nacional, queixam-se os integrantes da Câmara e do Senado de que o Executivo exagera em sua utilização.
Tem o Legislativo buscado, em várias ocasiões, regulamentar o emprego das MPs, mas, para cada problema resolvido, surgem, prontamente, outros tantos.
Essa situação, que fez do Executivo o principal centro legislador da República não é uma exclusividade nossa. O Brasil adotou tais alterações, ao tempo da ditadura militar, a partir das mudanças inseridas na Constituição da França pelo general De Gaulle, ao cabo do processo que deu origem à chamada 5ª República francesa.
Ao acolher as medidas provisórias, o constituinte buscou conciliar a necessidade de o presidente da República ter em mãos um instrumento que lhe permitisse intervir prontamente em situações que exigem decisões imediatas com a posterior apreciação pelo Congresso que, em tese, as homologa ou rejeita.
Em tese porque, num grande número de casos, a derrubada da MP teria efeitos catastróficos sobre a vida do País.
Insatisfeito com a limitada possibilidade de alterar as MPs deixada ao Congresso, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua base de sustentação no Congresso têm buscado deixá-las cada vez mais parecidas com os decretos-leis do governo militar.
Ao analisar as emendas oferecidas às MPs pela oposição, os relatores destas na Comissão de Constituição e Justiça, que em quase todos os casos são integrantes da maioria governista, rejeitam-nas sumariamente como inconstitucionais, injurídicas ou incabíveis.
Fica, assim, o plenário, impedido de aperfeiçoá-las e delas excluir os exageros e os dispositivos contrários ao interesse público, podendo apenas dizer sim ou não.
Como em nenhum outro momento posterior à Constituição de 1988 se fez uso tão amplo e abusivo das MPs, o que se assiste hoje, no Congresso, é a reinvenção do modo de legislar da ditadura e a conseqüente diminuição do Poder Legislativo aos olhos da nação.
Antonio Carlos Pannunzio é Líder do PSDB na Câmara.


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