Simples ou complicado?

Edgard Neves da Silva

Estatuto Nacional da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte, Lei Geral das Micro e Pequenas Empresas, Supersimples ou Simples Nacional. Nos últimos meses, essas denominações ganharam evidência, principalmente para contabilistas, empresários e o poder público. A tendência é que as atenções sobre esse novo regime e sua área tributária ainda permaneçam, já que há muitas dúvidas quanto à sua aplicação.
O Simples Nacional, editado no final de 2006, unifica a cobrança e o recolhimento de nove tributos: seis federais, dois estaduais e um municipal. Ao invés de pagar vários impostos, com guias, cálculos e datas de vencimentos diferentes, o empresário que aderiu ao sistema passará a desembolsar uma parte da sua receita bruta e o total do que for arrecadado será redistribuído aos cofres públicos.
Segundo balanço prévio da Receita Federal, mais de 3 milhões de micro e pequenas empresas optaram pelo sistema. Desse total, 77% (cerca de 2,4 milhões) tiveram pedido de inclusão aprovado e 4,25% (133.933) não foram aceitos por não integrarem as atividades previstas pelo Simples Nacional. Das empresas que fizeram a solicitação de adesão, 18,42% tinham dívidas fiscais com a União, estados ou municípios, as quais poderão ser regularizadas conforme os prazos previstos, sob pena das empresas não poderem ser acolhidas pelo novo sistema.
É evidente que qualquer iniciativa que venha para simplificar os gargalos do regime tributário brasileiro sempre será bem-vinda. A questão é que persistem as controvérsias sobre os benefícios vinculados à interpretação das duas leis complementares que regem o regime único e das regulamentações expedidas pelo comitê gestor do Simples Nacional.
Aliás, boa parte das decisões tributárias fica submetida às determinações do referido comitê, que desde abril emitiu nada menos que 21 resoluções, duas portarias e uma recomendação. Para se ter uma idéia das incertezas criadas, basta citar as prorrogações das datas limites de adesão ao regime. Em resumo, o prazo para a regulamentação e os estudos relativos às opções das empresas foi muito curto.
Para os empresários há incertezas quanto à validade ou não de se enquadrarem no novo sistema, já que há a possibilidade de aumento da carga tributária. Além disso, ficaram excluídos do regime unificado alguns setores prestadores de serviço, que antes podiam optar pelo Simples Federal, que foi extinto.
Há ainda a questão da elevação, considerável, do valor da contribuição previdenciária. Anteriormente, os prestadores de serviços pagavam 11% sobre o pró-labore (remuneração dos associados que trabalham em uma empresa) recebido pelo sócio. Agora, passarão a recolher mais 20% sobre a folha de pagamentos, que é o próprio pró-labore. Portanto, para quem contribui com um salário mínimo, o aumento será de 180% - de R$ 41,80 passará para R$ 117,80 mensais.
Os resultados da unificação de tributos atingem não somente as micro e pequenas empresas, mas também os municípios, que antes recolhiam diretamente o Imposto Sobre Serviços (ISS). As prefeituras vêem agora a possibilidade de ser comprometida aquela que era a sua principal fonte de receita, já que o valor repassado pela União, por meio do Simples Nacional, poderá ser menor que o obtido anteriormente.
Algumas interpretações, inclusive, mostram que os grandes municípios, que cobram bem o imposto, serão os maiores prejudicados, já que a tendência é de perda de parte da arrecadação. Em contrapartida, as cidades de menor porte poderão até ter um aumento em suas receitas, pois as empresas, interessadas em manter eventuais benefícios, vão querer honrar os pagamentos mensais para não serem excluídas do regime.
Pesquisa recente do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) aponta que a mortalidade dos pequenos empreendimentos caiu pela metade em três anos. Em 2004, quase 50% das micro e pequenas empresas fechavam antes de completar dois anos. Em 2007, a taxa sofreu queda, ficando em 22%. Apesar do resultado satisfatório, a perspectiva do Sebrae é que os próximos indicadores se mantenham em patamar semelhante. A análise se baseia no fato de que embora o Simples Nacional deva proporcionar a formalização de mais de 1 milhão de empresários, nem todos estarão bem preparados para levar seus negócios adiante. Isso poderá resultar, eventualmente, em uma queda maior no índice de mortalidade das empresas.
Fica claro que muitas dúvidas ainda permanecem e que será preciso um tempo para as empresas e o poder público se adaptarem às regras desse novo jogo. Convém, portanto, ficar atento às mudanças que venham a ocorrer. Só assim será possível saber até que ponto o novo regime tributário será de fato simples ou se ele complicará a vida das empresas, comprometendo, conseqüentemente, as finanças das administrações públicas, em especial dos municípios, que poderão vir a perder receitas oriundas do ISS.
Edgard Neves da Silva é consultor jurídico da Consultoria em Administração Municipal (Conam). E-mail: conam@conam.com.br


Ambicionamos um novo país

Henrique Matthiesen

Temos ciência que sob o regime vigorante não há lugar ou perspectivas. Almejamos edificar uma nova sociedade, onde nossos direitos sejam respeitados. Necessitamos edificar uma opção de vindouro dessemelhante. Uma sociedade que supre a avareza e a mesquinhez do capitalismo. Edificar um púbere País, socialista e mais eqüitativo. Uma sociedade onde o bem-estar do homem seja essencial. Onde o egocentrismo e o exclusivismo que hoje predominam sejam trocados pela valorização do bem comum, respeitando as personalidades.
Ambicionamos o socialismo para libertarmo-nos da tirania social, econômica e política. Um regime no qual a alvedrio seja um bem para a conveniência e o crescimento da humanidade, e não para o ganho. Ambicionamos uma sociedade democrática e igualitária, onde a democracia integral afiance a nossa participação nas decisões do País, mas afiance ao mesmo tempo trabalho, educação e vida honrada. Ambicionamos o socialismo para edificar um país cada vez mais avançado, no qual a ciência e a tecnologia se desenvolvam a ofício da população, no conhecimento de avalizar as condições materiais e espirituais para que nasça um púbere homem, mais humano, solidário, fecundo e inovador. Ambicionamos o socialismo, porque na circunstância em que vivemos, é o exclusivo caminho para o surgimento de uma nova solidariedade social e humana. Para que desponte uma nova cultura. Cultura esta que reverencie as diferenças regionais e que seja comprometida com as necessidades e aspirações do povo brasileiro.
Ambicionamos ao mesmo tempo o socialismo para que nossos direitos sejam respeitados. Para que tenhamos uma educação livre, gratuita, universal, politécnica e democrática. Para que tenhamos ingresso à toda a produção cultural da humanidade para que os jovens artistas sejam impulsionados e apoiados.
Ambicionamos o socialismo para que os jovens no campo tenham terra para produzir e vejam enflorar o alvedrio e uma nova Pátria. Ambicionamos respirar na candura do ar das cidades reorganizadas a consciência da reverência à natureza.
As classes predominantes proferim que o socialismo morreu e que ele não dá certo e nem combina com o Brasil. O socialismo tem tudo a ver com o Brasil, pois traz em si o lume do alvedrio e da heterogeneidade tão adjacentes das ambições de nosso povo. Também porque o socialismo não é um exemplar singular, mas procura adequar-se a realidade e a cultura dos povos.
Erguer os braços e abraçar o vindouro.
Sim, nós ambicionamos o socialismo. Para alcançá-lo vamos necessitar de uma nova consciência. Ele floresce de uma densa mudança interior revolucionária. A sua edificação é o novo substituindo o encanecido, e isso leva tempo e maturação.
O novo não cairá do céu e nem virá por decreto. É imperativo construí-lo cotidianamente. Para isso necessitamos proteger nossa soberania nacional, a democracia, os direitos sociais, os negros, as mulheres, os índios, o povo, o idoso, a juventude.
Busquemos o novo, necessitamos sonhar e participar da grande peripécia de edificação de uma nova nação livre, soberana, justa, igualitária e porque não socialista.
Henrique Matthiesen é colaborador


email: editor@diariosbo.com.br