Antonio Carlos Pannunzio
Em 24 de agosto de 1954, em meio a uma séria crise política,
o presidente Getúlio Vargas estourou o coração com um
tiro de revólver. Sete anos mais tarde, logo após presidir as
solenidades do Dia do Soldado, o presidente Jânio Quadros renunciou
a seu mandato apenas iniciado, deixando o país à beira de uma
guerra civil. Em razão desses dois acontecimentos, agosto passou a
ser visto, no calendário da República, como um mês em
que as bruxas estão soltas.
A decisão do Supremo Tribunal Federal, acolhendo a denúncia
contra os 40 envolvidos no caso do mensalão tem tudo para fulminar
essa crendice e reposicionar agosto, em nosso calendário político,
como o mês em que o Brasil deu um passo decisivo para exorcizar a impunidade.
Quando, em abril deste ano, o procurador-geral da República, Antonio
Fernando de Souza, submeteu ao crivo do STF sua denúncia contra quarenta
investigados, a Nação se deu conta de que estava diante de uma
obra superior de inteligência jurídica.
Manejando com perícia incomum os instrumentos da lógica, o chefe
do Ministério Público Federal, após triar a vastíssima
papelada que recebera, produziu um texto que, com argumentos irretocáveis,
distribuía os acusados mais importantes e seus auxiliares diretos em
três núcleos - o político-partidário, o financeiro
e o publicitário. Não ficava, porém, naqueles nomes,
terminando por demonstrar o envolvimento de todos os 40 com a maior tramóia
da História da República.
Muitas foram, então, as manifestações de descrença
de que uma figura central do 1º governo do presidente Luiz Inácio
Lula da Silva, como o ex-deputado e ex-ministro-chefe da Casa Civil José
Dirceu, viesse a ser incluído entre os réus daquele processo,
se o processo enfim reunisse votos suficientes de ministros do STF para vingar.
Não poucos duvidaram que o ministro-relator Joaquim Barbosa conseguisse
superar a argumentação de alguns dos melhores advogados penalistas
do Brasil, empenhados em desqualificar a denúncia, e convencer seus
pares da mais alta corte de Justiça.
Iniciado o julgamento, a opinião pública teve nova e agradável
surpresa. Barbosa definira uma estratégia eficiente ao extremo, que
facilitava em muito a apreciação das denúncias e as decisões
de seus colegas. Além disso, revelando notável capacidade de
se adaptar à presença da TV, que transmitiu todo julgamento,
empregou uma linguagem em que a precisão nunca brigou com a clareza,
permitindo que até o mais simples dos cidadãos entendesse o
que ali se decidia.
E o julgamento veio, sereno, mas severo. A decisão alcançou
os 40 denunciados e, na maioria dos casos, recebeu os votos favoráveis
da totalidade dos ministros. Três figurões e uma eminência
parda do núcleo político-partidário - Dirceu, o atual
deputado federal José Genoíno (PT), Delúbio Soares e
Sílvio Pereira - agora são réus do grave crime de formação
de quadrilha.
As manifestações de descrença cessaram? De modo algum.
Uns juram que os crimes prescrevem antes do julgamento, outros prognosticam
demoras de até dez anos para uma decisão final - uma coisa e
outra por conta da legislação superada que rege o processo.
Mas, depois das boas surpresas representadas pela denúncia do procurador-geral,
pelos votos do ministro-relator e pelo desempenho do STF como um todo, o País
começa ter esperanças de que tais prognósticos fracassem
e a Justiça, enfim, vença a impunidade.
Antonio Carlos Pannunzio é líder do PSDB na Câmara.
Milton Dallari
O mercado automobilístico mundial está de olho no bolso dos
idosos. Prova disso é que alguns fabricantes de autopeças já
começaram a desenvolver equipamentos especiais para amenizar os reflexos
do tempo sobre os motoristas que passaram dos 60 anos. Nessa faixa etária,
nunca é demais lembrar, perdemos um pouco de nossos reflexos, a visão
já não é mais a mesma, assim como a força. É
natural, nesse caso, que novos acessórios sejam oferecidos a esse público,
sobretudo pelos recursos financeiros que uma parcela dessa população
costuma ter em mãos nessa altura da vida.
Aos jovens que decidirem fazer piada com a situação, vale apenas
uma lembrança. Idosos no volante costumam ser pessoas bastante prudentes,
e não "barbeiros", como recomenda o senso comum. Essa constatação
pode ser comprovada através de qualquer pesquisa séria sobre
acidentes de trânsito. Os resultados sempre indicam que as pessoas mais
velhas oferecem mais segurança do que quem se encontra na faixa dos
18 aos 24 anos. Para comprovar isso, é simples, basta consultar um
corretor de seguros.
Mas não se pode negar que o interesse da indústria em desenvolver
acessórios voltados aos idosos é bastante animador. Na Europa
e nos EUA, as pesquisas já estão bastante avançadas.
Existem carros com sensores que diminuem a velocidade com a diminuição
da distância do veículo da frente. Também estão
nas ruas equipamentos que medem a pressão e avisam se o pneu está
furado e radares que emitem sinais sonoros de alerta sobre obstáculos
a até 200 metros de distância. Sem falar em painéis com
iluminação melhor, letras maiores para facilitar a visualização
e direção ainda mais leve.
No Brasil, algumas inovações devem demorar um tempo para serem
adotadas pela indústria automobilística, mas nem tanto quanto
demorariam até uma década atrás, antes da globalização.
Além disso, o número de empresas que disputam o mercado nacional
aumentou bastante, o que também pode estimular a concorrência
para que alguns fabricantes comecem a resolver esses problemas, alguns inclusive
de fácil solução.
Tenho certeza que a montadora decidida a investir recursos no desenvolvimento
dessas peças vai sair na frente na luta por novos clientes, tendo a
preferência de uma parcela importante de nossa população,
que deixou de gastar seus recursos apenas com médicos e farmácias
e hoje desperta a atenção de bancos, agências de viagens
e grandes redes de varejo. Não se pode ignorar o crescimento desses
consumidores, já que em 2030 o brasileiro viverá, em média,
até os 78 anos, quase seis anos a mais do que atualmente.
Num mundo em constante mudança, com oferta de produtos diversos a diferentes
setores da sociedade, o fato de existirem pesquisadores pensando em soluções
para amenizar os impactos do tempo sobre os motoristas é, no mínimo,
confortante. Torço para que isso ocorra rapidamente e possa beneficiar
bilhões de pessoas no mundo.
Milton Dallari é consultor empresarial, engenheiro, advogado e presidente
da Associação dos Aposentados da Fundação Cesp.
O e-mail para contato é o mdallari@decisaoconsultores.com.br.
email: editor@diariosbo.com.br