75% OffCésar Fábio Rossetti

Pessoas não são coisas
Procuram-se homens de bem. Que sejam íntegros, honestos e competentes. Sejam também pessoas amigas, cordiais e compreensivas. Que atribuam a esses valores um caráter duradouro. Que não se liguem às outras por nenhum tipo de interesse que não seja exclusivamente a vontade de servir, de contribuir com sua experiência e capacidade; que dêem de si em tudo o que fizer, principalmente quando se tratar de promover o próximo. Relacionar-se de igual para igual, mesmo que este próximo mantenha uma relação hierárquica subalterna. E que o mando seja suave, terno e amistoso. Paga-se muito bem! E sem nenhuma contra-oferta. Ou o desconto acima... Quem se habilita?

A lógica dos sonhos
Cavei as profundezas, e minha perseguição contínua e intensa em mim, me fez de faminto de sonhos e milionário de esperanças. Agia discretamente, porém com todo o potencial, dando a impressão de inatividade. A sociedade exige que sejam exibidos resultados, nunca os projetos idealizados. A sociedade só acredita no sol do meio dia e, enquanto se farejam os alimentos sob o guiar das estrelas, a escuridão dificulta a visão de uma sociedade incapaz de entender a lógica dos sonhos. (Adaptação do 'Lá em casa tinha brisa', de Juarez Alvarenga, no Diário).

Agulha ou linha?
Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:
- Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?
- Deixe-me, senhora.
- Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
- Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
- Mas você é orgulhosa.
- Decerto que sou.
- Mas, por quê?
- É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem que os cose, senão eu?
- Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?
- Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...
- Sim, mas de que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando...
- Também os batedores vão adiante do imperador.
- Você imperador?
- Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...
Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana - para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:
- Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...
A linha não respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava respo9sta, calou-se também e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte; continuou ainda nesse e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.
Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe:
- Ora, agora, diga-me quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.
Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha: - Anda, aprende, tola. Cansaste em abrir caminho para ela e ela é quem gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.
Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça: - Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!
Machado de Assis (1839-1908).
Pessoas são ambicionadas
Muitas pessoas querem ser linha ou agulha. O que vale é sermos nós mesmos: conscientes de nossa condição plena de direitos, mas também de deveres; sobretudo criaturas éticas, responsáveis e plenas de esperança por algo mais humanizado que nos realize - e não nos vulgarize - como humanos.
Fazer o bem sem olhar a quem? Sim! Levar o bem-estar a um grande número de pessoas, dar emprego, ter lucro? Também! Mas, realizá-las em sua mais pura aspiração, fazê-las ser não como agulha ou linha; muito menos como alfinete: fincou, ficou.
Promovê-las, não usá-las, deveria ser o grande propósito dos grandes homens que almejam ser eleitos a cargos políticos e administrar o patrimônio público. Isso deveria ser o sonho de todos os homens; amar e promover o próximo. Não é a máxima de Cristo? Que nos amemos uns aos outros como a nós próprios? Os políticos amam-nos sim. Apenas quando pretendem se eleger...
Nos dias atuais dá para contar nos dedos pessoas assim, desprovidas de vaidade, de despretensão e que estejam dispostas a vestir uma camisa despojada de propósitos escusos, em que o bem comum não parece ser o foco, mas onde, subliminarmente, todo mundo sabe que está a autopromoção, aquela fogueira de vaidades, onde o premiado enxerga somente o próprio umbigo. E não deseja no íntimo: que todos sejam seus servos.
Tal como uma sanguessuga, a qual inocula na corrente sangüínea de sua vítima um efeito anestésico - o veneno -, enquanto lhe absorve o néctar íntimo de seu desejo maior: sua energia vital. Procura garantir a própria sobrevivência, aumentando os próprios tentáculos, esgota-lhe docilmente a resistência, transmite-lhe até a idéia de prazer e alegria na doação: o predador é o único que leva proveito nesta ilógica simbiose unilateral.


NOSSA PRETENSÃO PARA AS PRÓXIMAS ELEIÇÕES

Os requisitos do candidato que queremos ver representando nosso partido e nossos ideais nas próximas eleições municipais já temos: nem agulha nem linha; muito menos alfinete. Nem abrindo caminho para muita linha ordinária, muito menos se achando o máximo só por causa de estar 'unidinho' a algum elegante de plantão. Menos ainda um alfinete: fincou, ficou... Nosso representante deverá ser alguém com presença marcante, com posicionamento definido, deverá ser alguém que faça a diferença e que tenha o propósito de construir o bem comum.
César Fábio Rossetti, presidente do diretório do Partido da República em Santa Bárbara d'Oeste.


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