CELSO LUÍS GAGLIARDO
A exposição de fotografias clicadas pelo barbarense José Roberto Bueno, aberta recentemente, se nos permite uma volta aos tempos, um passeio mental, uma "viagem" pelos caminhos da infância, da juventude e vida adulta, estágios de alguns momentos, ícones que não se apagam de nossa memória.
Esse moço começou conosco, fazendo registros para assessoria de imprensa no ano de 1993, e logo foi se mostrando talentoso, criativo e persistente. A percepção do fotógrafo ultrapassa os limites do razoável, lê ângulos que a visão comum não encontra, e daí a um simples aperto de botão faz o milagre da imagem admirada para sempre.
Em tempo do aniversário da nossa cidade querida pude sentir nalgumas solenidades, como essa da abertura do painel fotográfico, que minha terra ainda (bem) consegue conservar o seu jeitão caloroso, cultuando valores, pessoas, fatos, momentos, levando a todos a boa reflexão, causando até um aperto no peito a partir dessas autênticas flechadas de saudade.
Por estas linhas cumprimentamos o Zé Roberto, e também o Zé Maria - esse batalhador que incorporou tão bem a farda de prefeito e que executa com amor a árdua tarefa delegada. Ele e sua forte equipe souberam estimular e moldar o fotógrafo por passos firmes e diferenciados, fazendo-o um misto de repórter de um tempo e também de artista sensível que vê, na plástica do cotidiano, a oportunidade de encantar nossos olhos.
As fotos do saguão da Prefeitura mostram ângulos distintos de um cotidiano e monumentos em forma de obras públicas que asseguram a qualidade de vida que o povo espera. Água, luzes, árvores, espetáculos, flores, parques, passeios, passado, presente e acenos de futuro em Cenas da Minha Terra. Uma reportagem de pouco texto, imagem pura e reflexão. Nostalgia, também.
Quem conheceu a velha Usina Sta. Bárbara, então, se encanta. A sensibilidade do fotógrafo captou das ruínas daquele monumento do trabalho a oportunidade de nos dar um cartão postal. Resgate de alegrias, e também de momentos de tristeza naturalmente presentes na nossa vida, altos e baixos que nos impulsionam nesse maravilhoso carrossel social- comunitário.
No além das fotos da Usina re-vi meu pai na simplicidade de sua vida profissional, tios trabalhando e "aprontando", o futebol mágico que se fez num tempo naquele velho e pequeno-aconchegante estádio Luizinho Alves. Encontros, desencontros. Lembrei-me até dos "ônibus do Vadô" circundando o "Santão", nos levando e nos trazendo no bucólico e ainda preservado caminho dos flamboyants.
O progresso é bom e inexorável. A tecnologia chega avassaladora, nos conecta ao mundo e melhora a vida, e a ninguém é dado cerrar as portas de um certo espaço físico urbano para dele fazer um feudo de poucos. Vivemos tempos diferentes, incomparáveis. Mas a sensação que fica é do passado de calmaria, da boa convivência, da simplicidade no cotidiano e de moderadas expectativas materiais. Jeito gostoso de viver.
Viajei com as fotos, e no texto. Saudades, boas!
ET - Aproveitei o evento e matei saudades do Antonio Carlos Angolini, esse moço de valor, também fotógrafo sensível, que contou sobre o trabalho que a Fundação Romi faz como centro de documentação e arquivo histórico, compilando em arquivo digital os dados, fatos e fotos do município de Sta. Bárbara d'Oeste, incluindo os jornais que a cidade viu. Com isso, a população, e principalmente os estudantes, poderão usufruir gratuitamente desse vasto material em seus lares, apenas ao toque do teclado de computador. Um trabalho notável. Meus parabéns ao pessoal da Fundação Romi, já fiz consultas interessantes, revivi bons momentos de minha cidade e de atividade profissional através do Jornal D'Oeste, entre outros.
Celso Luís Gagliardo é barbarense, foi redator de jornais da cidade, e é profissional de Organização e Recursos Humanos).
JUAREZ ALVARENGA
O sino solitário da matriz anuncia que a cidade não está deserta. Seus homens caçadores da rotina saem das cavernas onde os cascavéis manifestam o seu poderio.
Os jovens desocupados ocupam os corações das adolescentes. Como garimpeiro em mar pródigo busca insaciavelmente os sonhos distantes.
O filho do fazendeiro aquele que foi para capital e voltou, queria ser doutor, mas o destino foi traiçoeiro. Agora trabalha desesperadamente. Seus ideais os tratores enterraram. Na sua fazenda, sonha com cidade, com a menina de suas quimeras, com o baile no fim de semana no clube, com a boate. As luzes da noite desenham estrelas nas ruas desertas. Seus usuários, como guerreiro homérico, atiram nas ilusões da meia-noite. A vida não tem assombração. É uma delícia ver as adolescentes brincarem de Branca de Neve. Mesmo se o público são de anões.
Agora são duas horas, hora fatal. e o filho do fazendeiro começa a pensar "o que será que minha namorada está fazendo?" Lendo a revista Capricho? Torcendo pelo meu trabalho ou ouvindo rádio? Se ela ama mentira eu amo a rotina. A vida se faz, não idealiza. A vida se consegue, não mistifica. Agora é tarde, o trabalho no espaço se perde. E lá vem todo vaidoso. Avista da igreja e as meninas da periferia toda sonhando com ele. Cheio de razão e portador de sonhos, chega na cidade. Que maravilha! As normalistas que passam para as escolas carregam nos seus cadernos o sonho de um dia ser donas de quem é dono da cidade. A certeza de que a simplicidade é fonte inesgotável de felicidade. A pureza é sintoma evidente de que o céu é atingível.
Os baianos da cidades roubam os corações como profissionais da arte seduzir. A vida se resume num artifício aconchegante em noite de lua cheia. A utopia mora com a felicidade. Ambas enfeitam com simplicidade as ruas dos cães poetas. A ciência, coitada passa como relâmpago em noite de tempestade. A razão só tem coexistência se a vida é a protagonista.
É um paraíso que passa pela janela. Os dias úteis parecem feriados constantes. A paisagem real faz inveja aos cientistas mais convictos. O cético acredita que a felicidade é uma eterna mentira. Neste universo fragmentado o todo só é atingível com plenitude consistente de ir além da felicidade.
Juarez Alvarenga, advogado e escritor
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