Natal de paz

Dom Fernando Mason

Natal é celebração do otimismo, da esperança, da alegria; é a declaração de que este mundo está cheio de Deus, uma presença bem real, mas retraída no humilde mistério da encarnação, como se vê em Jesus: sob a fragilidade de uma criança, subentende-se a presença e a força do Verbo de Deus. Os anjos cantam: "Paz na terra aos homens por Ele amados".
O homem moderno não sabe bem o que é a paz, usa vários conceitos como o silenciar das armas, fazer acordos, buscar um ponto médio que concilie posições... A paz cantada pelos anjos é de qualidade inteiramente diferente. Paz significa presença benfazeja de Deus, portanto, salvação; ela é misericórdia, compaixão e benignidade. Nosso Deus é assim!
Até na maldade? Sim, pois diz Jesus em Mt 5, 44-45: "Eu vos digo: amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem! Assim vos tornareis filhos de vosso Pai que está nos céus, pois ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e faz cair a chuva sobre justos e injustos". E em Lc 6, 36-38: "Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso. Não julgueis e não sereis julgados, não condeneis e não sereis condenados. Dai e vos será dado. Uma medida boa, socada, sacudida e transbordante será colocada na dobra da vossa veste, pois a medida que usardes para os outros, servirá também para vós".
Jesus, ao viver a paz, chegou ao extremo de não resistir aos malvados que lhe batiam na face. É um ideal supremo. Os seguidores de Jesus, aqueles que celebram seu Natal, buscam constantemente esta paz que nasce de Deus. Com isso, fica patente que a força de Deus é qualitativamente diferente daquilo que usualmente é chamado "força", "poder". É uma força que não é carente dos próprios direitos e oferece a outra face, pois carência é falta de superabundância.
Para a mentalidade moderna que busca poder, segurança, saber de dominação, vontade de mudar os outros, etc, a paz mencionada acima não é nenhuma força, mas antes alienação. Com isso, a modernidade deixa de perceber e usar uma força redentora sumamente importante, a força de Jesus Cristo crucificado; uma força decisiva, mais forte que todas as lutas de agressão; uma força que aparece freqüentemente na mãe, na esposa, no pobre em espírito...
Não resistir aos malvados, porém, não é um campeonato de "engolir sapos" para se tornar herói da acolhida e da paz. Não se trata de procurar "sapos", mas aceitar os que a vida impõe e "aproveitar" deles para crescer na benignidade e na misericórdia. Bem longe do modo de ser fariseu que se escandaliza com tudo, que julga e pune a tudo, que a tudo mede; o modo de ser de nosso Deus a tudo entende, de nada reclama, a tudo compreende!
E lembremos neste Natal: a paz que se origina deste Deus não é algo a ser usufruído, é antes uma tarefa, um empenho a ser buscado e vivido, algo que assumimos. Ao celebrarmos o Santo Natal 2007, queremos renovar nosso propósito de sermos apóstolos e testemunhas da paz como ela é manifestada por Deus em Jesus Cristo no Santo Natal. Um Feliz Natal de Paz a todos!
Dom Fernando Mason é bispo diocesano de Piracicaba.


Um Natal diferente, totalmente diferente

Mons. Jonas Abib
 
No tempo de Natal, todos nós acabamos nos recordando, de maneira muito poética, que Jesus nasceu numa gruta em Belém e que Maria colocou-O numa manjedoura. É tudo poético! Nós até cantamos lindos versos com suaves melodias que exaltam essa realidade. O que muitos não sabem é que Jesus estava nascendo num lugar não somente anti-higiênico, mas também “legalmente impuro”.
 A lei de Deus dada por Moisés proibia terminantemente que uma criança viesse a nascer num lugar assim. Aquele lugar era “impuro” e a criança que ali nascesse também seria considerada impura. Por que teria Deus se preocupado em estabelecer uma lei assim? Porque Ele queria um povo. Um povo inteiramente dEle. Além disso, Ele precisava, além disso, que esse povo se perpetuasse. Essa era mais uma das leis preventivas para que seu povo fosse sadio e forte e assim continuasse de geração em geração.
Mas há outra pergunta mais séria e mais importante: Por que permitiria o Pai que seu Filho nascesse num lugar assim? Mais ainda: nascesse “impuro”? Como poderia o Puro por excelência nascer num lugar impuro? A resposta nos revela um maravilhoso mistério. A nossa salvação começa já no nascimento de Jesus. Naquele momento em que o Verbo de Deus se fez carne e veio habitar entre nós.
É por isso que, aos trinta anos, Ele vai ao batismo de João, que era um batismo de penitência. Ele havia assumido, desde o seu nascimento, toda a impureza da humanidade. É por isso que João, o Batista, O aponta como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. É porque Ele realmente havia assumido sobre si todo o pecado do mundo.
É por isso que Ele se aproxima dos pecadores e convive com eles. É porque Ele se faz pecado desde o seu nascimento. É por isso que Ele se aproxima e acolhe os leprosos, que eram os impuros por excelência da sua época, os toca e os cura. É por isso que Ele escolhe a casa de Lázaro, que era leproso, para o lugar do seu repouso, em Betânia, uma aldeia de leprosos.
A nossa salvação acontece em plenitude no Calvário onde Jesus, pregado na cruz, nela encravou os pecados de toda humanidade, em todos os tempos. Isso é real. Mas é muito importante assumi-lo de maneira bem pessoal: Jesus assumiu sobre si todos os meus e todos os seus pecados e os levou consigo para a cruz e ali os encravou definitivamente.
Há ainda outra pergunta muito mais séria do que as anteriores: se é assim, por que é que o mundo continua como está e as pessoas continuam do mesmo jeito? É porque a nossa salvação, que já aconteceu, precisa ser assumida por cada um de nós. É só assumir. Basta recordarmos o que aconteceu com um daqueles ladrões que foram crucificados com Jesus. Ele se voltou para o Senhor e disse: “Jesus, lembra-te de mim quando começares a reinar”. Ele lhe respondeu: “Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso”. A salvação estava acontecendo. Que merecimento ele teria? Nenhum. Que de bom ele fez? Nada. Ele apenas acreditou e assumiu. E recebeu de Jesus a garantia: “Hoje estarás comigo no Paraíso”.
Natal é festa e é preciso festejá-lo com tudo que pudermos. Mas, lembrando-nos de que Natal é o início da nossa salvação e ele é o momento privilegiado para cada um de nós assumir pessoalmente a salvação que já aconteceu. Eu e você precisamos assumir de coração o que aquele ladrão assumiu no alto da cruz. Façamos de tudo para que os nossos familiares e aqueles que nos são mais próximos também assumam a própria salvação, que já aconteceu. É a melhor maneira de viver este Natal.
Monsenhor Jonas Abib é fundador da Comunidade Canção Nova, que comemora 30 anos em 2008 (www.cancaonova.com)


www.diariosbo.com.br - email: editor@diariosbo.com.br