“Basta um pequeno evento: a folha que cai, o vento que sopra de modo desusado, o pé desajeitado no estribo do trem, para que tudo transtorne e caminhe na direção de assustador imprevisto”. (Wilson Bueno, no Caderno 2 do jornal O Estado, de 25.6.2006, ao comentar o livro “Sinistros com Fogo”, de David Means).
Alonso de Oliveira
Quais premonições aziagas indicam o exato momento em que viver
é perigoso? Um piscar de olhos pode significar a diferença entre
continuar vivo e morrer.
Na porta do veículo que teima em não abrir, após desabar
por uma ribanceira quase abissal, numa curva acentuada, não obstante
a sinalização indicativa do perigo, a rodovia ser o caminho
obrigatório diário para ir e voltar ao trabalho e a exímia
perícia do motorista ao volante.
Este, sem saber que está mortalmente ferido, tudo o que deseja é
se desvencilhar daquele agora maldito cinto de segurança, o mesmo equipamento
que evitara fosse lançado para fora do automóvel e por ele esmagado
enquanto despencava desgovernado, cambalhotando precipício abaixo.
Grita, mas não tem forças para produzir som algum. Nem sabe
se seria ouvido... Sente-se desvalido para continuar a lutar. Resta esperar.
Esperar o quê? Por um milagre. Existem milagres e só um o salvaria.
E o ocaso anuncia os primeiros sinais de mais uma terrível e longa
noite, fria e silenciosa, com terríveis presságios a augurar
a pior das solidões, onde se sentirá o mais só dos sós.
Consegue até se compadecer dos pequenos animais que habitam as circunvizinhanças,
os quais jamais notara antes; chega a lhes invejar a vagareza frente a absoluta
imobilidade sua: movimentam-se com incrível rapidez, procuram os abrigos
que lhes garantam a incolumidade perante os predadores na cruel corrente da
perpetuação da espécie.
Vê, um dia mais, os pássaros que retornam aos ninhos e observa
a alegria e a voracidade dos filhotes a aguardar a chegada dos pais com o
alimento provedor e providencial a lhes garantir a sobrevivência. Só
não lhe vêem as cruciais necessidades e muito menos lhe são
solidários.
Lembra-se do pai quando nas madrugadas de sua não distante infância
ele se levantava para lhe perguntar se estava bem e o recobria para não
mais sentir frio. Trazia-lhe a mamadeira ou a papa morna, supridora e afetiva,
verdadeiro banquete de humanidade.
Chora ao constatar a impossível distância no tempo e, agora,
no espaço, para retorno ao mínimo conforto do ansioso afago
paterno. Quiçá dos filhos e da esposa... Pensa no que pensam
agora, neste momento. A essa hora estariam todos reunidos em casa, compartilhando
o jantar e rindo das peripécias dos filhos nas vicissitudes de mais
um dia.
Grita em pensamento ao Pai do céu para que lhe ouça os clamores
e dele tenha piedade em sua infinita misericórdia, pede-Lhe pelos filhos,
pela esposa e por seu pai , para permanecer calmos, pois crê, afinal,
que será salvo e retornará são e salvo ao convívio
de sua família.
Tomba faminto e sedento; ocorrem-lhe agora as dores cada vez mais insuportáveis.
Percebe que o final está próximo e já não se desespera
ante o inusitado; lembra-se de Cristo em sua dor atroz ao ser trespassado
pela lança do soldado romano e se resigna. Desacorda para não
acordar jamais.
Alonso de Oliveira, jornalista, ex-secretário de Administração da prefeitura de Americana
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