Conectados com o mundo...
Mas solitários!

Presb. Gilson Alberto Novaes

Tem me preocupado muito o crescimento da tecnologia da informação na formação da nossa juventude. Preocupa-me saber que nossos jovens ficam plugados horas a fio diante de um computador, "conversando" sabe-se lá o quê, com não sei quem. Dizem que são amigos! Nunca se viram, não se conhecem e nunca vão se conhecer, mas são "amigos". Preocupa-me quando vejo um adolescente concentradíssimo diante de um computador, só mexendo com os dedos polegares... Preocupa-me quando vejo crianças solitárias com seus joguinhos nas mãos, sem conversar com os pais e não querendo ser interrompidas...
Essa é a geração que nasceu no auge desse avanço tecnológico rápido que estamos vendo. Não são capazes de viver sem computador, sem celular, sem os jogos "on line", sem Orkut, e etc.
Talvez você que me lê possa pensar que sou ultrapassado e que não estou vendo o avanço tecnológico que acontece, queiramos ou não! Não é isso! O avanço da tecnologia da informação é fundamental, inevitável e benéfico, porém, na educação dos nossos filhos nós temos que tomar alguns cuidados.
Não podemos permitir que nossos filhos tenham amigos virtuais e não saibam o nome do seu vizinho do lado ou da frente da nossa casa. Não podemos assistir nossos filhos moverem apenas os polegares e deixarem atrofiar pernas e braços. Não podemos permitir que não tomem sol e que não andem descalços. Não podemos permitir que nossos filhos sejam "craques" no futebol virtual, mas não sejam capazes de dar um chute numa bola.
Tenho saudade do campinho de futebol perto da minha casa quando eu era criança! À tardinha, todos os dias, reuníamos os amigos da rua onde morávamos e fazíamos dois times: um com camisa e o outro sem camisa. Colocávamos tijolos que serviam de traves e jogávamos futebol até escurecer. É evidente que isso hoje não é possível! Mas era saudável.
Alguns educadores entendem que não é possível proibir aos nossos filhos o acesso aos jogos, ao MSN, ao Orkut e etc. Não acho que devamos proibir, mas devemos acompanhar, saber o que e com quem estão falando, o que estão vendo, quanto tempo ficam diante do computador, se estão dormindo o suficiente, se tomam sol, se fazem exercícios físicos...
Não gostaria de ver, daqui a alguns anos, jovens inteligentes, que sabem tudo "de computador", que virtualmente conhecem o mundo, que falam vários idiomas, mas pálidos, fracos, feios, fechados, introvertidos, neuróticos...
Nossas escolas e nossas igrejas precisam se modernizar para oferecer aos nossos filhos o que há de melhor na atualidade, mas finalizo com um testemunho. Recentemente assisti a uma senhora idosa contando estórias para crianças na igreja, com um velho flanelógrafo. O amor, a atenção aos pequeninos e o carinho nas suas palavras, aliado ao suspense em cada figura que colocava, substituiu qualquer "data-show" dos mais modernos.

Em tempo: sou professor na Escola Dominical da minha igreja e uso "data-show".

Gilson Alberto Novaes é Presbítero na I.P. de Americana-SP, Diretor Administrativo-Financeiro do Instituto Presbiteriano Mackenzie em São Paulo, e colaborador do Diário.


Ensino é dever do Estado e compromisso da sociedade

Custódio Pereira

O avançado patamar de qualidade e alta produção científica dos institutos de pesquisa e universidades dos Estados Unidos, com certeza um dos fatores que viabilizou o desenvolvimento do país e sua fabulosa economia, encontra nas contribuições da sociedade um de seus principais pilares de sustentação. Tal prática remonta ao Século XVII, fomentada pela consciência dos cidadãos sobre sua responsabilidade de participar ativamente com doações e trabalhos voluntários, objetivando ao desenvolvimento da educação.
Essa predisposição cívica dos norte-americanos também foi reforçada e estimulada pelo profissionalismo na captação de recursos por parte das escolas e universidades. Ao longo desses 400 anos desde o advento da prática, os Estados Unidos desenvolveram técnicas, publicaram centenas de livros e artigos, constituíram a prestigiada, bem paga e reconhecida profissão de captador de recursos (fundraiser), promoveram treinamento e conferiram respeitabilidade a esse trabalho. Em 1963, foi constituída a AFP (Association of Fundrasing Professionals), que congrega esses profissionais e realiza congressos internacionais todos os anos.
Todas as instituições de ensino que tive a oportunidade de visitar nos Estados Unidos, tanto escolas como universidades, têm um departamento especializado em obter recursos e interagir com os ex-alunos e a sociedade, visando a desenvolver programas e projetos capazes de contribuir para o seu crescimento. Um excelente exemplo é Universidade de Harvard. Uma das mais reconhecidas do mundo, é líder em fundraising com parceiros e ex-alunos. E (sem a intenção de trocadilho...) faz escola nessa atividade! Altos executivos de Oxford e Cambridge estiveram em Harvard para aprender e implementar na Inglaterra as suas técnicas de captação de recursos.
Outros países, em distintos estágios de avanço, desenvolvem programas do gênero, conforme constatei em universidades do Canadá, Irlanda, Reino Unido e Ásia. Verificou-se, entre 1996 e 2000, na Universidade de Monterey, no México, exemplo muito bem-sucedido de captação de recursos: foram obtidos US$ 27,2 milhões, provenientes de ex-alunos e até de funcionários que se envolveram com o projeto. Os mexicanos, assim como os brasileiros, historicamente não doam para instituições de ensino, pois consideram ser isto obrigação apenas do governo e/ou dos proprietários de escolas particulares, inclusive fundações. É como se a educação nada tivesse a ver com a comunidade.
A comparação entre países com larga tradição em captação de recursos e o Brasil é muito interessante, visto que temos alguns poucos exemplos de sucesso isolados no tempo. Aqui, verificam-se alguns movimentos relativamente bem-sucedidos, com doações significativas (certamente nada comparado aos volumes norte-americanos). Podemos dizer que não há em nosso país uma “cultura doadora”. No entanto, várias campanhas tiveram sucesso no passado e continuam com relativo êxito.
Para as escolas e universidades brasileiras obterem doações em maior volume e freqüência, terá de ser desenvolvido amplo trabalho, a começar pela formação de profissionais (fundraisers) preparados para planejar e atuar com competência na captação de recursos. Isto, porque para qualquer método usado é necessário ter um bom planejamento e trabalhar no envolvimento do doador. Enquanto nos Estados Unidos existe especialização, mestrado e doutorado em captação de recursos, no Brasil ainda são escassos os cursos que atendam à capacitação de pessoas para realizar esse trabalho.
Considerando o significado do desafio para o nosso país, um passo importante para a discussão do tema será o I Congresso Internacional de Sustentabilidade, Desenvolvimento e Ex-Alunos para Escolas e Universidades. O evento será realizado nos dias 21 e 22 de setembro de 2007, nas Faculdades Integradas Rio Branco - em parceria com a maior organização de captadores de recursos no mundo, a AFP (Association of Fundrasing Professionals) -, em São Paulo, contando com a presença de preletores de renome da Ásia, Europa, Estados Unidos (Harvard) e América Latina.
Prover educação de qualidade em todos os níveis, um fator cada vez mais condicionante ao desenvolvimento e ao crescimento sustentado da economia, é uma responsabilidade que a sociedade deve compartilhar com o Estado, conforme evidencia o último relatório da Giving USA Foundation (2006). O documento revela que, no ano anterior, as contribuições da sociedade civil a escolas e universidades, nos Estados Unidos, somaram US$ 38,56 bilhões. Apenas para comparar, o Brasil investe, no total, 4,5% do seu PIB em educação, algo em torno de US$ 28 bilhões...

Custódio Pereira é diretor geral das Faculdades Integradas Rio Branco, especialista em Ensino Superior e Gestão Universitária.


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