Adevalto Morais Vieira Júnior
Questões relacionadas a meio ambiente e desenvolvimento passaram a ser amplamente discutidas a partir da Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento, que pretendia introduzir mudanças no modelo de desenvolvimento do Século 21 e representou um momento histórico do apoio público e político para os objetivos interligados de desenvolvimento, erradicação da pobreza e proteção ao meio ambiente. Um de seus principais resultados foi a Agenda 21 - acordo internacional a ser seguido por todos os países signatários - que entre seus pontos principais tratava da integração entre meio ambiente e desenvolvimento na tomada de decisões. De acordo com a Agenda 21, os países, em cooperação com instituições e grupos nacionais, a mídia e a comunidade internacional deveriam estimular a tomada de consciência do público em geral, bem como dos círculos especializados, no que se refere à importância de se considerar o meio ambiente e o desenvolvimento de forma integrada e estabelecer mecanismos que facilitassem a troca direta de informações e pontos de vista, possibilitando a contribuição dos diferentes grupos sociais.
Infelizmente, os princípios da Agenda 21 não foram colocados em prática de maneira satisfatória e os padrões dominantes de produção e consumo continuaram causando devastação ambiental e aumento das desigualdades sociais, colocando em risco as bases da segurança global. Todavia, com o lançamento da Carta da Terra, que contou com a participação de organizações de todas as regiões do mundo, iniciou-se uma nova tentativa de estabelecer uma base ética sólida para a sociedade global emergente e ajudar na construção de um mundo sustentável baseado no respeito à natureza, aos direitos humanos universais, à justiça econômica e a uma cultura de paz.
De acordo com o jornalista Alberto Dines, a informação deve situar o leitor dentro do acontecimento e atraí-lo para a ação ou evento como um interveniente. De forma semelhante, a Agenda 21 propõe que é preciso sensibilizar o público, fazê-lo participar e fomentar o senso de responsabilidade pessoal em relação ao meio ambiente e ao desenvolvimento sustentável para, assim, enfatizar o princípio da delegação de poderes, responsabilidades e dar preferência aos meios locais nas atividades de conscientização. Portanto, podemos considerar que a mídia local é de fundamental importância para a discussão sobre o desenvolvimento sustentável. Todavia, para que a mídia consiga exercer o seu papel de intermediar as discussões, seria essencial que todas as partes envolvidas no processo estejam preparadas para o debate. Michael Kunczik, em seu estudo sobre conceitos de jornalismo, ao analisar as relações entre jornalismo e sociedade, comenta sobre diversas funções atribuídas à comunicação e expõe que nos países em desenvolvimento os meios de comunicação de massa atuam como inspetores gerais do sistema político a fim de proporcionar a crítica pública necessária para garantir algum grau de integridade política por parte daqueles que estão no poder.
A partir destes conceitos, foi analisada a cobertura jornalística do Diário de Santa Bárbara, com objetivo de verificar se o jornal exerce o papel de fiscalizar o poder público e como é a sua atuação enquanto mediador das discussões sobre meio ambiente e desenvolvimento. Fizeram parte da amostragem as edições do mês de setembro de 2007, das quais foram selecionadas somente matérias relacionadas aos temas meio ambiente e desenvolvimento, possibilitando a realização da análise de conteúdo, uma metodologia de pesquisa bastante utilizada no campo da comunicação social, tendo como critério a representatividade dos agentes envolvidos no processo, ou seja, o poder público municipal, as instituições de ensino, a sociedade organizada, o setor privado e a população em geral.
Conforme análise dos dados, podemos afirmar que os temas meio ambiente e desenvolvimento estavam em evidência no jornal Diário de Santa Bárbara, sendo que durante o mês de setembro de 2007, foram abordados em 112 matérias. Obras e ações do poder público relacionadas ao desenvolvimento e ao meio ambiente apareceram como grupo que reunia maior participação nas matérias selecionadas (35%), seguido por projetos e ações de instituições de ensino e da sociedade organizada (20%), denúncias, críticas e reclamações da população em geral (17%), desenvolvimento em geral (16%) e investimentos e ações do setor privado (13%).
No que se refere à participação do poder público municipal foi verificado que as matérias de conteúdo positivo sobre meio ambiente e desenvolvimento decorriam da divulgação realizada pela Prefeitura, enquanto as de conteúdo negativo eram decorrentes de críticas, reclamações e denúncias da população em geral e das organizações não-governamentais, em especial a Apasb (Associação Pró-Ambiente de Santa Bárbara) que costuma se envolver diretamente em questões ambientais, denunciando crimes cometidos contra o meio ambiente. A partir da análise do posicionamento dos setores envolvidos nas matérias, podemos considerar que o poder público municipal prioriza a divulgação de obras e serviços, enquanto as pautas referentes a projetos sociais voltados à conscientização, geralmente, decorrem da participação do terceiro setor. Neste sentido, destaca-se a atuação do Instituto DESS (Instituto para o Desenvolvimento do Empreendimento Social Sustentável de Santa Bárbara d'Oeste) que tem como missão promover o crescimento da filantropia e do investimento social comunitário, através do aumento da eficiência e do impacto dos projetos e das iniciativas sociais.
Vale ressaltar que, conforme informado pelo próprio jornal, a participação popular em audiências públicas realizadas pelo Município costuma ser inexpressiva, por isso o Diário se torna um elo importante entre a sociedade e o poder público, exercendo influência no processo de tomada de decisões. O Diário costuma produzir matérias pautadas em reclamações de moradores e possui uma seção de cartas, onde os leitores podem expor suas opiniões. A participação popular nas matérias é freqüente e está voltada para problemas ambientais e o desenvolvimento urbano, visto que através do jornal a população consegue expor problemas do cotidiano e cobrar providências do poder público, participando ativamente das discussões sobre meio ambiente e desenvolvimento.
Quanto ao setor privado, foi verificado que a sua atuação está voltada, principalmente, ao desenvolvimento tecnológico e econômico das empresas, que costumam expor seus produtos em feiras e divulgar investimentos e faturamentos. Podemos considerar que a preocupação do setor privado com questões ambientais existe, todavia não é prioridade. Consideramos que para aumentar a participação do setor privado na cobertura jornalística seria importante que as empresas priorizassem as ações de interesse público, caso contrário, terão que pagar pelo espaço publicitário.
O desenvolvimento está sempre presente nas matérias do Diário, que costuma divulgar informações relacionadas ao desenvolvimento econômico local, regional e nacional. Neste contexto, são abordadas questões sobre orçamento, habitação, transporte urbano, nível de emprego, produção de álcool e biodiesel, etc. Em suma, a cobertura jornalística do Diário de Santa Bárbara é bastante democrática e abre espaço para todos os setores da sociedade divulgar suas ações e confrontar opiniões. Todavia, alguns grupos são mais organizados e tecnicamente capacitados, enquanto outros não estão preparados adequadamente para participar das discussões. Podemos afirmar que enquanto não houver entendimento da inter-relação existente entre todas as atividades humanas e o meio ambiente devido à falta de conscientização, haverá a necessidade constante de sensibilizar o público sobre os problemas de meio ambiente e desenvolvimento e incentivá-lo a participar de suas soluções e fomentar o senso de responsabilidade pessoal e uma maior dedicação em relação ao desenvolvimento sustentável. Portanto, seria fundamental que todos nós, enquanto formadores de opinião ou simples consumidores, em conjunto com governos, indústrias, sindicatos, instituições de ensino e organizações não-governamentais promovêssemos a compreensão da relação existente entre preservação do meio ambiente e práticas saudáveis. Os governos deveriam realizar políticas públicas voltadas para o meio ambiente, ou seja, levar realmente a sério a gestão ambiental. E quando os interesses econômicos confrontarem com a preservação do meio ambiente, as autoridades deveriam avaliar as preferências da sociedade, sem se esquecer das gerações futuras, antes de tomar qualquer decisão. Concomitantemente, os meios de comunicação deveriam realizar os esforços necessários para ampliar a consciência pública como parte indispensável de uma ação mundial para colocar em prática os ideais do desenvolvimento sustentável, cultivando o princípio da delegação de poderes e responsabilidades com a contribuição de todos os segmentos da sociedade. Desta forma, a mídia local por estar mais próxima do público, através da abordagem eficaz de questões do nosso cotidiano e do ambiente onde vivemos, deve continuar lutando para cumprir o seu importante papel na sociedade. Sobretudo, no que se refere a contribuir para que os cidadãos sejam bem informados sobre a realidade e estejam preparados para participar das decisões de forma democrática.
Adevalto Morais Vieira Júnior é funcionário público, publicitário e especialista em Gestão da Comunicação Jornalística (UNIMEP). Colaborador no livro "Desconcentração Industrial: impactos socioeconômicos e urbanos no interior paulista (1970-1990)".
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