Armando Correa de Siqueira Neto
Através da parceria entre o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), o Ministério da Educação (MEC), a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (UNDIME) e o Instituto de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), realizou-se uma pesquisa focalizada no sucesso de algumas escolas da rede municipal. Os resultados mostram alguns aspectos importantes voltados ao compromisso de uma educação de maior qualidade.
Tal comprometimento educacional baseia-se em ações de aprendizagem comuns, conforme o estudo "Redes de Aprendizagem: Boas práticas de municípios que garantem o direito de aprender", com mais de cem páginas, que preconiza: 1. Foco na aprendizagem: Estabelecer como foco a aprendizagem, apontando resultados concretos a atingir. 2. Consciência e práticas de rede: Promover a gestão participativa na rede de ensino. 3. Planejamento: Envolver todos os professores na discussão e elaboração do Projeto Político-Pedagógico, respeitadas as especificidades de cada escola. 4. Avaliação: Acompanhar cada aluno da rede individualmente mediante registro de sua freqüência e do seu desempenho em avaliações, que devem ser realizadas periodicamente. 5. Perfil do professor: Valorizar o mérito do trabalhador da educação, representado por desempenho eficiente no trabalho, dedicação, assiduidade, pontualidade, responsabilidade, realização de projetos e trabalhos especializados, cursos de atualização e desenvolvimento profissional. 6. Formação do corpo docente: Instituir programa próprio ou em regime de colaboração para formação inicial e continuada de profissionais da educação. 7. Valorização da leitura: Estimular a leitura, suprir a deficiência de acervo, estimular a família à participação. 8. Atenção individual ao aluno: Combater a repetência através de aulas de reforço no contraturno, estudos de recuperação e progressão parcial. 9. Atividades complementares: Ampliar as possibilidades de permanência do educando sob responsabilidade da escola para além da jornada regular e valorizar a formação ética, artística e a educação física. 10. Parcerias: Firmar parcerias externas à comunidade escolar, visando à melhoria da infra-estrutura da escola ou a promoção de projetos socioculturais e ações educativas.
Pois bem, significativa parcela de educadores e outros profissionais da educação da rede municipal conhecem não apenas os conteúdos evidenciados pela pesquisa, mas, sobretudo, a sua relevância na formação educacional. Há outra parcela que sequer faz idéia da maioria dos itens mencionados. E existem aqueles que, embora saibam, ignoram ou rejeitam silenciosa ou abertamente as práticas que auxiliam qualitativamente o desenvolvimento infantil. Vale a pena lembrar quão trabalhoso é adotar cada um dos dez itens, e, portanto, faz-se prudente refletir um pouco mais.
Refiro-me particularmente ao perfil do educador (e também de quem dirige a escola). A qualidade educacional está, entre outros fatores, relacionada diretamente ao empenho particular de cada profissional. O talento singular é determinante para a obtenção de melhores resultados. Mesmo que se leve em conta a junção dos recursos, é por meio da individualidade, basicamente, que se avança cada centímetro na jornada da educação. É louvável parabenizar a equipe, mas há pessoas e pessoas. Daí a César o que é de César. Faça-se justiça!
É, por conseguinte, compreensível que, se de um lado existem bons profissionais, por outro, contudo, há aqueles que pouco oferecem e até atrapalham, seja por incompetência ou por falta de vontade. A primeira deficiência pode ser substituída por novos incentivos ao aperfeiçoamento, além do necessário crivo gerenciador. Todavia, a segunda falta, via de regra, diz respeito a crenças enraizadas e bem difíceis de se modificar, ainda que se deva respeitar e agir com empenhado vigor na tentativa de alterar o quadro. Porém, como a decisão é íntima, ou seja, somente o profissional permite-se a uma reviravolta de conceitos e atitudes - a resistência e a falta de tempo podem ser obstruções decisivas -, tal condição implica, em alguns casos, em afastamento. Alguns professores se encontram na profissão por falta de outra oportunidade ou até por não terem encontrado a real vocação. Todavia, observe-se uma regra justa: Todos têm o direito a encontrar o caminho ideal, desde que não se obstrua o caminho alheio.
Logo, as boas práticas devem caminhar de mãos dadas com a boa vontade e a ação do educador e de outros trabalhadores do setor. Não há mágica que transforme o estado atual da educação em outro de melhor nível senão através do esforço combinado entre saber, querer e fazer. As avaliações devem focalizar quem de fato se empenha de modo engajado na melhoria das relações educacionais e tem por meta o progresso de cada aluno, respeitando-o através da dedicação que preza a competência e o sentimento de missão que pretende colaborar na formação do futuro cidadão tanto responsável quanto agente de boas realizações sociais de toda ordem.
Armando Correa de Siqueira Neto é psicólogo (CRP 06/69637), diretor da Self Consultoria em Gestão de Pessoas, professor e mestre em Liderança pela Unisa Business School. Co-autor dos livros Gigantes da Motivação, Gigantes da Liderança e Educação 2006
Manoel Messias da Silva
A população mundial vive momentos de expectativa diante da iminência de um colapso financeiro da economia norte-americana. De um lado, temos os Estados Unidos, o maior mercado comprador do mundo, sem saber até quando consegue manter esta posição. Do outro, países emergentes, como China e Índia, crescendo 7,5% ao ano e gastando como nunca antes havia acontecido.
A pergunta que fica é: se os Estados Unidos "quebrarem", como os demais mercados vão reagir? Será que apenas o consumo interno destes países sustenta seu crescimento? Não, provavelmente, eles também vão para o fundo do poço. Afinal, em grande parte, seu desenvolvimento está atrelado ao fornecimento de produtos ao primeiro mundo.
Não vamos ser alarmistas e encampar a idéia de uma nova crise de 1929. Mas não há como negar que vivemos um momento de desaceleração econômica. E, num mercado globalizado e totalmente integrado, não podemos assistir ao "espetáculo" sem imaginar possíveis conseqüências para a economia brasileira.
No Brasil, o momento é de euforia - todos querem comprar, viajar, trocar de carro, mudar de casa ou equipá-la, investir num novo negócio. Nunca se consumiu tanto como agora. O crédito abundante estimula o consumo, que atinge 60% do PIB.
E é assim que tem que ser, porque somente com consumo é que a economia gira. Mas, nos preocupa o modo como esse crédito está sendo estimulado, com formas de pagamento a longo prazo e juros nem sempre claros. As compras são parceladas com prazos de 72 meses ou até 99 meses, para financiamentos de veículos. A compra torna-se irresistível, e a dívida, praticamente uma bola de neve.
Pesquisa encomendada pela Fiesp mostra que 60% da população brasileira desconhecem o problema dos Estados Unidos. E, dos 36% que já ouviram falar sobre o assunto, 60% acreditam que uma crise americana não terá reflexo para sua vida em particular. Analistas de mercado avaliam que o brasileiro não se preocupa com crises internacionais. Por outro lado, se os juros subirem, a inadimplência sobe junto. E todos perdem.
O momento é de cautela. A situação do Brasil não tardará a desequilibrar a balança econômica, estável nos últimos anos, mas que já dá sinais de que, se o governo não tomar medidas para restringir o crédito, penderá para o pior lado.
Os consumidores não estão percebendo que, apesar das facilidades dos financiamentos, o aumento do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), como forma de compensar o fim da CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira), encareceu ainda mais as parcelas. De 1,5%, o IOF subiu para 3%.
Não temos como negar que a economia globalizada tem seu aspecto positivo, mas, por outro lado, traz como conseqüência a interdependência dos mercados. É preciso, urgentemente, criar regras para liberar o crédito. O governo está estudando limitar o financiamento de veículos para 36 meses. É uma saída. Mas precisamos mais. Precisamos estar preparados para uma crise norte-americana e para as conseqüências globais. Como irá reagir uma população endividada, com a renda comprometida em prestações a serem quitadas em cinco anos diante de uma situação econômica caótica?
Sim, o futuro da nossa economia nos preocupa. Há anos estamos alertando para a necessidade de investir em educação financeira. É preciso educar, orientar e conscientizar as pessoas. Só assim o mercado irá se auto-regular. Esta é a saída ideal, para o longo prazo. Mas, hoje, o deslumbramento da população com o consumo exige que o governo coloque um freio no crédito farto. E já.
Manoel Messias da Silva Presidente da Central de Cooperativas de Crédito do Estado de São Paulo e vice-presidente da Confederação Sicoob Brasil
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