João Sampaio
A retomada de aumentos mensais da Selic é medida equivocada para mitigar a majoração dos preços agrícolas. Afinal, como sabe qualquer estudante de Economia, juros altos são eficazes apenas para conter a inflação de demanda, mas jamais a de custos. Como é esta última a que se manifesta no Brasil, corremos o risco de diminuir o nível de expansão do PIB sem conseguir domá-la, unindo o inútil ao desagradável.
Para tornar a questão mais clara, é importante analisar os índices inflacionários. Tomemos como base o ICV-Dieese, cujo acumulado nos 12 meses de junho de 2007 a maio de 2008 foi de 4,95%. A maior alta deu-se na alimentação, com 14,17%. Mais dramático ainda, no período de julho de 2007 a junho de 2008, foi o aumento expressivo da cesta básica nas 16 capitais pesquisadas (30,83% em São Paulo), atingindo duramente aqueles que só podem consumir o mínimo necessário.
No ICV, alguns subgrupos tiveram comportamentos análogos aos duros anos pré-Plano Real, quando a inflação era aquela criatura bizarra de dois ou mais dígitos. Produtos in natura e semi-elaborados (média de 20,07%) sofreram reajustes muito altos, como feijão (105,14%), berinjela (43,58%), tomate (36,83%), arroz (34,30%), mamão (31,57%), carne bovina (25,44%) e leite (23,18%). Os itens da indústria alimentícia subiram 10,13%. Neste subgrupo chamam atenção o óleo comestível (61,55%), farinha de trigo (43,11%), leite em pó (36,79%), pão francês (27,72%) e massas secas (25,28%). Na alimentação fora do domicílio, elevação foi de 9,82%.
Por mais que no plano mundial atribua-se a majoração do alimento a um fenômeno de demanda (o grande aumento do consumo na China e Índia) e à produção de etanol de milho nos Estados Unidos, não se trata do caso brasileiro. Aqui, precedem-se como causas, além de um fator conjuntural ligado aos preços em ascensão de insumos como os fertilizantes, energia e combustíveis, questões estruturais que sempre oneraram a produção. Ou seja, estamos falando de custos.
A verdade é que o Governo Federal deveria ter política eficaz para incentivar a produção de alimentos. Não basta fomentar o biodiesel, com discutível subsídio. O Brasil, que tem terras suficientes para produzir energia de fontes renováveis e alimentos, precisa conciliar as duas vertentes. Este tema, aliás, está na pauta do Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável (CONSEA) de São Paulo, assim como medidas para minorar a inflação do alimento, educação sobre como comer corretamente e gastar menos, o novo papel do Estado no abastecimento, produção agrícola ambientalmente correta e difusão de novas tecnologias para aumento da produtividade. É necessário, ainda, administrar o preço do diesel, pois o sistema de fertilizantes, distribuição e transporte em caminhões depende muito desse insumo.
Quanto à diplomacia econômica, além de reivindicar o fim dos subsídios, o governo precisaria negociar com habilidade para remover as barreiras impostas aos produtos brasileiros nos Estados Unidos e Europa. Deveria contestar análises equivocadas de organismos internacionais sobre o nosso agronegócio e advogar o restabelecimento da autoridade da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) ante a OMC (Organização Mundial do Comércio) no mercado de alimentos. Ao invés de brigar com os argentinos pelo restabelecimento das exportações de trigo, poderia seguir o exemplo do programa paulista para diminuir a dependência da importação. Em São Paulo, semente de alta qualidade e baixo preço é fornecida aos agricultores, resultando em maior produtividade.
Por fim, há o grave problema da infra-estrutura, que, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA), prejudica produtores e onera exportações mais do que as barreiras externas dos subsídios, quotas e sobretaxas. Segundo estudo da entidade, de 2006, transporte e logística foram responsáveis por 70% do aumento dos custos do setor, nas cinco safras anteriores àquele ano. A situação não mudou. Desse modo, é impreterível a implementação de eficiente política agropecuária e para a produção de alimentos. Se o Brasil continuar confundindo custo com demanda e ignorando os problemas do campo, seguirá adotando soluções irreais para causas inexistentes, e ficção pode até alimentar o intelecto, mas não enche a barriga...
João Sampaio, economista, é o secretário de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo e presidente do Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável (CONSEA).
Antonio Carlos Pannunzio
Os municípios brasileiros que já existiam em 1947 realizam este ano a 15ª eleição consecutiva para escolha de seus prefeitos por voto direto da população.
Uma novidade que salta aos olhos é que, como regra, o número de candidatos a prefeitos e a vereadores, em cada município, será menor que em 2004. Em algumas de nossas maiores cidades, as candidaturas a prefeito caíram para três ou até para duas. Nas cidades que têm emissoras de rádio e TV e apenas dois candidatos, a coligação de que não faz parte o PMDB, dono do maior tempo de propaganda eleitoral gratuita, tende a postular que se apliquem ao 1º turno as regras do 2º, com a divisão do tempo meio a meio.
Mesmo com três, quatro ou mais candidatos, muitas campanhas já começam afuniladas em torno de dois nomes.
Isso não acontece por acaso. A bipolarização faz parte do DNA do sistema presidencial. Da Presidência da República às Prefeituras, o provável é que o número de candidatos diminua a cada eleição, inclusive pela constatação da inviabilidade eleitoral de um terceiro, quarto ou quinto nome.
Nos municípios, a polarização é mais acentuada. Teremos, este ano, múltiplas eleições plebiscitárias, mesmo onde o prefeito não postula a reeleição, ou por já estar cumprindo um segundo mandato ou por haver sido vencido dentro de seu próprio partido. O que o eleitor decidirá é se endossa a continuidade dos atuais rumos políticos e administrativos ou opta pela ruptura e leva ao poder outro grupo.
Conseqüência previsível do quadro agora delineado, que deve ganhar força total em 2010, nas eleições para governadores e presidente, é que sair do partido ao primeiro tropeço e lançar-se candidato por outra legenda será cada vez mais difícil. Os embates dentro de cada partido serão mais duros e escancarados. E, no momento seguinte, as legendas partidárias tendem a ser menos numerosas.
Antonio Carlos Pannunzio, Deputado federal, ex-líder do PSDB na Câmara.
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