Usurpadores em abundância

Henrique Matthiesen

Neste apontamento rápido do movimento militar iniciado há quarenta anos, que persistiu 21, implica ir completando o registro daqueles idos. incapaz de governar em função de uma trombose cerebral, o segundo general-presidente, Costa e Silva, não foi substituído pelo vice-presidente Pedro Aleixo. Uma junta usurpou o poder, estabelecido pelos ministros do Exército, Lyra Tavares, da Marinha, Augusto Rademaker, e da Aeronáutica, Marcio Mello.
Foi o patamar institucional mais desprezível que vivemos. Começaram prendendo o vice-presidente, para que não assumisse. Distorceram o desígnio maior de Costa e Silva, que era abolir o Ato Institucional número 5, que ainda iria perdurar dez anos.
Cada general indagava "por que eles e não eu?" Estabeleceu-se o desordem. Para aperfeiçoar, as esquerdas radicais fizeram o que ninguém fazia desde 1648, quando da assinatura do Tratado de Vestfália: enclausuraram um embaixador e prontamente dos Estados Unidos. Nenhuma pessoa sabia o que fazer, nem mesmo o governo de Washington, que sem know-how de seqüestros de embaixadores, pressionou a Junta Militar para cumprir todas as requisições dos seqüestradores e proteger a vida de mr. Charles Burke Elbrick. Presos políticos foram tirados dos calabouços e mandados para o México.
Entre eles o líder estudantil José Dirceu. Caminhões do Exército distribuíram provimentos pelas favelas cariocas. E o Jornal Nacional propalou na íntegra manifesto onde os militares eram titulados de ditadores, torturadores, bajuladores aos interesses americanos e vendidos ao capital internacional.
A anormalidade suscitou mais coação, censura e congêneres, mas teve sua saída na adjacente eleição de um novo general-presidente. Eleição direta, por sinal, mas com uma particularidade: só votaram os generais, almirantes e brigadeiros do serviço ativo. Para impedir a preferência do general Afonso Albuquerque Lima, de ala nacionalista, o artifício foi garfado e, no final, nasceu o nome do general Garrastazú Médici, o mais medíocre de todos.
Na posse, em cadeia nacional de rádio e televisão, ele assegurou que ao término de seu mandato deixaria a democracia terminantemente devolvida no Brasil. Não deixou, porque somente havia lido uma alocução que não minutou. O autor foi o então coronel Octávio Costa.
Em termos institucionais, o governo Médici não progrediu, mas retroagiu, registrando-se que pelo menos não invalidou um só mandato parlamentar. Não necessitava. O Congresso vivia tempos de absoluto sabujismo e acomodação, apesar de o único partido de oposição, o MDB, principiar sinais de reação.
Jamais a censura foi tão abominável quanto naqueles quatro anos de mandato do velho chefe do SNI. Tudo era proibido, do surto de meningite que matou muita gente a críticas à política econômica e a alusão à próxima sucessão presidencial.
Avolumaram-se os seqüestros, os assaltos a bancos e os atentados a quartéis, promovida que estava a guerrilha urbana pela esquerda desatinada e acéfala, pois somente dava ensejo à direita para conservar a pata sobre a nação. Mais prisões, torturas e violência institucionalizada. Foi quando se expandiu a percepção de que vivíamos uma guerra interna, a guerra revolucionária.
No plano material, no entanto, era um sucesso. O Brasil chegou a crescer 11% em cada um daqueles anos, com desemprego zero. O presidente Nixon, dos Estados Unidos, chegou a afirmar que para onde o Brasil se virasse, iria toda a América Latina.
O ministro da Fazenda, Delfim Neto, viu-se apontamento de "o mago das finanças". Quem se dedicasse a alguma presteza fértil auferia dinheiro e adicionava a abastança nacional. Era o momento do "milagre brasileiro", meio aleivoso, mas muito bem marqueteado. O maciço merchandising governamental chegava a cobrir o País com out-doors onde se lia "Brasil, ame-o ou deixe-o", alusão aos montes de antagonistas que ganhavam o exterior para não ser presos, torturados ou mortos. Sempre havia um gaiato para escrever a carvão, em baixo: "O derradeiro a sair apague a luz do aeroporto...".
Por sarcasmo, no ano de 1970 o selecionado nacional de futebol tornou-se tricampeão do mundo. Para consternação de quantos se multiplicavam na oposição ao regime, o presidente Médici acertou, na véspera, o resultado da partida final com a Itália: 4 x 1. Foi a consagração do ditador, que passou a ter seu nome apregoado quando chegava aos estádios para assistir aos jogos de campeonato. Durante alguns meses, cem mil pessoas o aclamaram de pé, sempre que adentrava no Maracanã, no Morumbi e no Beira Rio.
Depois, os episódios regressaram ao leito natural, já que a coação só majorava. Faça-se justiça, o terceiro general-presidente também recusou a proposta dos áulicos, de reeleição.
O general Ernesto Geisel, então presidente da Petrobrás, ex-chefe do Gabinete Militar de Castelo Branco, dispôs de múltiplos fatores para tornar-se o herdeiro. Seu irmão, Orlando Geisel, era o ministro do Exército. Cosendo sua candidatura estava o general Golbery do Couto e Silva. Tinha celebridade de bom administrador e adesão no Alto Comando do Exército, conhecido como duro e inflexível, tanto que nunca outorgará um excepcional habeas-corpus para presos políticos, enquanto ministro do Superior Tribunal Militar. E contava com a apatia de Garrastazú Médici.
Os tempos, porém, começavam a ser outros. A conjuntura econômica já dava sinais inconfundíveis, pelo considerável aumento dos preços do barril de petróleo exportado pelos árabes. Nosso débito externo crescera vertiginosamente. As exigências começavam e era imperativo trazer a população para a realidade. Como continuar transmitindo a impressão de que tudo ia bem quando a inflação crescia, o desemprego aparecia e as falências se multiplicavam?
Por isso, o presidente Ernesto Geisel começou a extrair os censores das redações. Mas sempre sob a advertência de retornarem, caso a imprensa não se comportasse. Quanto ao rádio e à televisão, nem pensar. Num país de analfabetos, dava dividendos outorgar liberdade vigiada à imprensa escrita, mas tornava-se necessidade continuar amordaçando vídeos e microfones.
Henrique Matthiesen é colaborador


Encantamento mútuo

Armando Correa de Siqueira Neto

Muito se tem tratado a respeito da motivação na vida profissional, sem, contudo, explorar uma fonte estimuladora de grande impacto no profissional que trabalha com qualidade: o cliente. Considerável parte dos colaboradores que mantém contato com o consumidor compreende o poder existente no elogio legítimo pronunciado por aquele que se sente realizado com o produto ou serviço adquirido. Ou seja, reconhecimento motivador não advém apenas do chefe, mas, notadamente, do cliente que expressa sua satisfação também. Não é sempre que tal fato ocorre. Portanto, o valor do elogio emitido pelo consumidor encontra-se em alta consideração no mercado.
Para exemplificar, observe-se o trecho de uma carta escrita pelo gerente de um hotel, em resposta a uma avaliação feita, parabenizando, entre outros itens, o atendimento impecável recebido durante um dado período de hospedagem: "Seus comentários foram repassados para toda a nossa equipe. Comentários como esses nos motivam e nos fazem cada vez mais buscar o aperfeiçoamento com o objetivo de tornar a estada de nossos hóspedes inesquecível!" Bingo! Todos souberam da carta. Logo, hóspede e funcionários se beneficiaram.
É o que se pode chamar de encantamento mútuo. É de se pensar mais amplamente sobre a satisfação de aspectos relevantes existentes nas pessoas dos dois lados do balcão. Dar e receber. A reciprocidade honesta acerca do intercâmbio comercial é uma chave importante para o sucesso na relação que pretende progredir, fazendo projetar, inclusive, excelente expectativa sobre o futuro do consumo.
Não obstante, deve-se manter a atenção sobre a falha também. Faça a sua crítica quando necessário. Ela, todavia, quando ponderada, surte efeito naquele que deseja crescer. Anima e fortalece, além de levar à maturidade. Se, entretanto, é hostil em seu conteúdo, ou venenosa através da fala dissimulada ou do olhar debochado, provoca o desânimo em sua vítima, e, em incontáveis casos, a raiva e o descontrole. Dependendo do que se almeja, obtém-se resultado correspondente, via de regra. É preciso prudência quanto ao que se quer.
O encantamento mútuo é uma conquista que envolve profissionalismo e boa vontade. Vale a pena refletir: Como cliente insatisfeito, maldizer ou lamentar-se apenas, irrita e não estimula favoravelmente. Só se satisfazer, sem elogiar devidamente, desgasta e frustra. Faz parecer obrigação somente. O contrário, todavia, pode proporcionar bem-estar e desenvolvimento. Como cliente insatisfeito, criticar com sabedoria pode levar à exata poda do ramo e ao florescimento conseqüente. Elogiar condizentemente pode elevar o estado de espírito ao nível merecido. Em suma, colhe-se boa dose de motivação, além de melhores resultados, aquele que se faz elogiável e aquele que elogia.
Armando Correa de Siqueira Neto é psicólogo (CRP 06/69637), diretor da Self Consultoria em Gestão de Pessoas, professor e mestre em Liderança pela Unisa Business School. Co-autor dos livros Gigantes da Motivação, Gigantes da Liderança e Educação 2006. E-mail: selfcursos@uol.com.br


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