Dissimularam o que não eram

Henrique Matthiesen

Durante alguns anos, depois de abandonar o poder, se não passou ileso, o general Ernesto Geisel parecia destinado a inscrever-se na crônica como um presidente da República que acertou mais do que errou. Afinal, tanto faz os pretextos que o inspiraram, mas levantou a censura na imprensa escrita.
Principiou o processo de abertura política e, até mesmo, nos derradeiros três meses de seu governo, revogou o Ato Institucional número 5. Na coluna do "haver", também pesam em seu crédito a ratificação da soberania nacional, quando colidiu de frente com os Estados Unidos. O ensaio de inscrever o Brasil no clube nuclear. Uma política energética nacionalista.
E mais a tomada pública de atitude contra o tormento institucionalizado, depois do homicídio do jornalista Wladimir Herzog e do operário Manoel Fiel Filho nos porões do II Exército, em São Paulo. Um general de quatro estrelas foi exonerado, tivesse ou não ciência dos odiosidade cometidos à sua sombra. De quebra, Geisel livrou o movimento militar do general Silvio Frota, que surgia como presidenciável e era a encarnação do ditador irascível e truculento. O então ministro do Exército foi exonerado numa verdadeira operação de guerra.
É evidente que na coluna do "deve" muita coisa pesou. Censura à imprensa nos dois primeiros anos de seu governo, cassações de mandatos, decretação do recesso do Congresso, "pacote de abril", com execráveis casuísmos políticos dedicados à preservação do poder em mãos de um regime que já fazia água.
Sem ponderar na obrigação do herdeiro, general João Figueiredo, sem reflexão a nenhuma pessoa, nem mesmo ao Alto Comando do Exército. Até hoje há quem hesita de ter sido acaso a morte, num espaço de nove meses, dos três principais antagonistas em condições de sobrepujar nas urnas vindouras o sistema militar: Juscelino Kubitschek, João Goulart e Carlos Lacerda.
O diabo, para Geisel é que após de sua morte brotou a acusação do jornalista Elio Gaspari, aliás, seu amigo pessoal, através da exposição, em livro, de uma gravação. Nela, em conversa como o general Dale Coutinho, o presidente da abertura defendia o banimento físico de adversários do governo, por agentes do governo. Quer proferir, explicou o assassinato puro e simples daqueles que tentavam derrubar o regime, seja lá porque artifício que fosse.
O ídolo foi indicado com os pés de barro. Se não surgirem, como não surgiram até agora, contraditórios ou desmentidos eficazes, vai para o espaço o conceito do penúltimo general-presidente.
João Figueiredo, o derradeiro, foi uma espécie de Macunaíma do sistema militar. Astuto, tanto que serviu a todos os antecessores, oponentes entre si. Coronel chefe da Agência Central do SNI no governo Castelo Branco, general chefe do Estado-Maior de Garrastazu Médici no comando do III Exército, no governo Costa e Silva, chefe do Gabinete Militar do presidente Médici, chefe do SNI do presidente Geisel, o derradeiro general-presidente era competente. Tríplice coroado quer proferir, primeiro aluno em todos os cursos castrenses de que participou, buscava imprimir uma imagem antiintelectual, antes e depois de assumir o poder. Preferia aroma de cavalo a cheiro de povo. Fingia-se de grosso, simpatizante dos palavrões.
Mas logo que acomodado no palácio do Planalto, levantou a censura no rádio, na televisão e nas publicações que faltavam. Decretou ao Congresso projeto de anistia aos cassados e instigou a volta de todos os exilados. "Lugar de brasileiro é no Brasil", assegurou ao assistir pela televisão o retorno de Leonel Brizola, Luis Carlos Prestes, Miguel Arraes e mais um monte de exilados, dos que se contrapunham retoricamente e dos que pegaram em armas para mudar as instituições.
Ia tudo dando certo quando a direita desvendou outra vez a pata. Atentados a bancas de jornal e a livrarias que passaram a vender literatura de esquerda; bombas em automóveis e residências de líderes da oposição; cartas-bomba enviadas à Ordem dos Advogados do Brasil. À Associação Brasileira de Imprensa e à Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro.
Enfim, a experimento de explosão do Rio Centro, durante a consumação de um show de música popular organizado por artistas de límpida atitude oposicionista. Teria sido um carnificina de centenas de jovens, não fosse a fé de que Deus é mesmo brasileiro. Um dos petardos explodiu por precocidade, no colo de um capitão e de um sargento do Exército, no carro em que tentavam armá-lo. Um faleceu, outro sobreviveu ambos integrantes do afamado CIEX, cerne do terrorismo de estado.
Foi o divisor de águas, culpado até pela exoneração, a solicitação, do general Golbery do Couto e Silva, chefe do gabinete Civil, que ordenava a apuração e o corretivo dos responsáveis, do capitão aos generais. Figueiredo titubeou e cedeu. Como exibir seus companheiros, que governavam com ele? De que modo arriscar-se a penitenciar seus ministros, porque a linha de apuração dos acontecimentos atingia até eles? Engendrou-se uma dissimulação, atribuindo-se aos bolchevistas aquilo que o sistema fazia. Agora, com a cumplicidade do chefe...
Do Rio Centro ao término do seu mandato, tocado por grave enfarte e mil outras somatizações da impotência política, João Figueiredo transformou-se na sombra daquilo que uma vez almejou ser e quase conseguiu: o general-presidente responsável pela restituição da democracia do Brasil. Com a eleição de Tancredo Neves e a posse de José Sarney, encerrava-se o ciclo militar iniciado há quarenta anos.
Henrique Matthiesen é colaborador


Irresponsabilidade no ensino médico brasileiro

Jorge Carlos Machado Curi

Os resultados do Enade 2007, divulgados recentemente, confirmam as graves denúncias que há anos fazem as entidades médicas. A má qualidade da formação na medicina, um reflexo da irresponsável abertura indiscriminada de cursos, é um crime contra o próprio exercício da profissão e um risco real à saúde e à vida dos cidadãos. Nos países desenvolvidos há meios de controle para impedir que escolas se alastrem sem necessidade e existe rigorosa fiscalização para garantir o bom nível do aprendizado. No Brasil, enquanto não houver a regulamentação dos cursos já existentes e a imediata interrupção da abertura de novos, permaneceremos reféns de maus empresários da educação que priorizam o ganho de dinheiro fácil em detrimento da saúde da população. Infelizmente, a verdade é cruel: parte expressiva das faculdades em funcionamento não possui qualquer compromisso com a boa formação médica e a correta assistência aos cidadãos. Esperamos que o anúncio destes resultados seja acompanhado de postura corajosa e coerente por parte do Ministério da Educação e de nossos legisladores.
Jorge Carlos Machado Curi, presidente da Associação Paulista de Medicina


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