Henrique Matthiesen
Quarenta anos nos aparta de 1964, não propriamente o ano em que o Brasil se decompôs, porque desmembrado já estava, mas o ano da protrusão explícita do País em duas metades. O diabo é que duas metades camufladas, caluniadores, desvirtuados à confrontação dispensável por seiva das conjunturas e, mais do que delas, por mal-intencionada manobra das elites econômico-financeiras nacionais e internacionais.
Porque até hoje se comercializa à impressão de que a partir de 1964 o Brasil dividiu-se entre civis e militares, estes usurpando o poder e infligindo a ditadura, aqueles vilipendiados, afastados de cena e condenados, primeiro, ao marasmo, depois à discrepância, e, desta à resistência e à vitória, 21 anos depois, com o afastamento das Forças Armadas da cena política.
Na veracidade, não foi nada disso, ou isso promulgou somente a casca falaz de uma substância muito desigual. Porque tanto a sociedade civil quanto a militar tinha e tem a mesma genealogia e a mesma fortuna. Formam uma só coesão. Ajuíza igual e possuem objetivos semelhantes. No caso, a preservação da nação, de nossa soberania e de nosso território.
A presença do Estado como agente regulador das relações econômicas e sociais, fator maior da repartição da eqüidade entre a população. Mais ainda, a edificação de uma realidade mais equânime e projetada para o vindouro. A repartição da abastança nacional em adjacências solidárias. Era isso o que almejavam os civis depostos pelos militares, como foi isso o que perseguiram os militares que depuseram os civis.
Fala-se do povo. Porque foram as elites os culpados pela ilusória e nefasta separação adubada até hoje, inflada pela atrocidade com que os militares se comportaram, tanto quanto pelo desatino antecedente ou a reação posterior, muitas vezes incomensurável, com que certas parcelas do poder civil reagiram. O que menos importa, hoje, é saber quem nasceu primeiro, se o ovo ou a galinha.
Na veracidade, era e é outra, a verdadeira separação que as aludidas elites buscaram e buscam encobrir. Servir-se dos militares, quarenta anos atrás, como as mãos do gato, para extrair as castanhas do fogo. Hoje, aproveita-se da coletividade civil, que etiquetam de libertária, para alcançar os mesmos fins.
Quais? A satisfação de seus negócios, a preservação de suas prerrogativas e a concentração de renda cada vez maior, em suas mãos. A prevalência de uma casta de abastados cada vez mais ricos e de uma massa sempre maior de descartáveis premidos pela penúria, o desemprego, a fome e a adversidade. Civis e militares.
Por escárnio, foram os militares que, no poder, ainda conseguiram resguardar as linhas mestras de nossa essência como nação. Como foram os civis que, suplantando a ditadura, viram-se iludidos e ludibriados, constrangidos a aceitar o modelo atroz que nos agonia cada vez mais, neoliberal, globalizante ou o que seja responsável pela nossa débâcle como sociedade independente e organizada.
Tremerão as elites no dia em que o Brasil conseguir estilhaçar a casca dessa confrontação anterior, real e justificável pela alegação dos dois lados. Estará desfeito o muro que nos aparta, artificialmente conservado como forma de nutrir a aspiração e os privilégios das minorias responsáveis pelo aumento da penúria, do desemprego, da fome e da adversidade.
A desagregação está aí mesmo, expressa no desígnio camuflado que nos vem sendo imposto. A quebra da soberania, a alienação do patrimônio público, a modificação do trabalhador em apêndice desimportante do processo econômico, a perda sistemática do poder aquisitivo dos salários, a supressão dos direitos sociais, a prevalência do setor especulativo sobre o setor produtivo, a voracidade do capital-motel que chega de tarde, passa a noite a vai embora de manhã, depois de haver violentado um pouco mais nossa economia, a mutação do Brasil em mero exportador de riqueza, mais do que necessário ao nosso desenvolvimento, o servilismo aos ucasses internacionais - tudo isso e muito mais permanece nutrido pelos esqueletos do passado.
Mudará tudo no dia em que civis e militares se conscientizarem de estar sendo iludidos e vilipendiados pelo bando neoliberal e dita globalizante, mesmo ao custo da cicatrização de feridas anteriores. Haverá que terminar estas desimportantes considerações sobre os quarenta anos da eclosão do movimento militar.
Possivelmente surgirão condenações dos dois lados. Dos militares, julgando-se afrontados pelo reconhecimento dos exageros que seus antecessores praticaram. Dos civis, que sofreram e sentem-se no direito de cobrar reparações até o fim dos tempos.
Calma, o passado não se deu ao trabalho de passar para ser olvidado. Não nos dirá o que fazer, mas justamente o adverso. Sempre expõe, o passado, aquilo que devemos impedir. Coisa que até agora não conseguimos, por força de quantos pretendem impedir o futuro.
Henrique Matthiesen é colaborador
O Ministério da Educação acaba de divulgar uma relação de 27 faculdades de Medicina com insuficiências graves. Hoje não há dúvida em relação a escolas ruins ou boas. Esta lista é uma repetição, talvez com alguns nomes diferentes, da mesma informação veiculada há alguns meses sobre 17 cursos de medicina cujos alunos tiveram baixo desempenho no Enade. Desta feita, ao exame do Enade foram acrescidos outros critérios: perfil do corpo docente e satisfação dos alunos.
Se todos os itens relevantes fossem considerados, incluindo a existência de hospitais universitários e de programas de residência médica (pontos mencionados pela Comissão para Avaliação de Critérios para Abertura de Novos Cursos e constituintes do substitutivo do deputado Átila Lira ao PL 65/2003), provavelmente a lista de faculdades insuficientes seria muito maior.
Das 175 escolas existentes atualmente no país, apenas 103 foram analisadas na primeira avaliação, e 153 nesta última. E onde estão as outras? Essa relação, portanto, não representa o quadro integral do ensino médico. De qualquer forma, fica novamente evidente que a podridão contamina nosso ensino superior. As denúncias sucedem-se, consubstanciadas em fatos irrefutáveis. Já é um passo. Faz-se necessário agora o fechamento das faculdades insuficientes. Para que isso ocorra, é preciso que todos os brasileiros se mobilizem, pois o lobby da indústria da educação no país poderá neutralizar os esforços do MEC.
José Luiz Gomes do Amaral, Presidente da Associação Médica Brasileira
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