A mensagem cifrada da Petrobras

João Sampaio

Dentre os conceitos pétreos da economia contemporânea, como se sabe, inclui-se a internacionalização do valor das commodities, cujo comércio, dessa maneira, está acima do bem e do mal no jogo das oscilações cambiais. Não fosse assim, o Brasil, com a exagerada apreciação de sua moeda, já teria sofrido imensa perda na exportação de numerosos produtos, dentre eles os do agronegócio. Parece, entretanto, haver uma exceção naquela lei natural do mercado: a política de preços adotada pela Petrobras.
Os equívocos são cumulativos e abrangem a relação de equilíbrio entre os preços dos distintos derivados do petróleo. Vejamos: depois de quase três anos de congelamento, ou mais exatamente desde setembro de 2005, período em que a majoração mundial da commodity quebrou todos os recordes, a Petrobras estabeleceu, com vigência a partir de 2 de maio último, reajustes de 10% no preço da gasolina e de 15% no óleo diesel nas refinarias. De maneira a atenuar o impacto na ponta do consumo, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou a redução na Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) sobre os combustíveis. A alíquota incidente sobre a gasolina caiu de R$ 0,28 para R$ 0,18 por litro. No diesel, a redução foi de R$ 0,07 para R$ 0,03.
Esses números são de conhecimento público e nada de estranho haveria neles se não contivessem contradições e paradoxos que suscitam uma inevitável pergunta: por que a gasolina foi reajustada cinco pontos percentuais abaixo do diesel? A mesma questão precisa ser analisada no tocante ao congelamento, desde dezembro de 2002, véspera do início do primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do GLP (Gás Liquefeito de Petróleo) destinado ao consumo doméstico. Porém, o mesmo GLP, para uso industrial, sofreu aumento de 12%, em março de 2003, e 15%, em janeiro de 2008.
Fica claro que a Petrobras, por algum bom ou mau motivo, está segurando os preços dos itens percebidos de modo mais direto pela grande maioria dos brasileiros - ou seja, o da gasolina e o do gás de cozinha - e compensando a perda com reajustes mais agudos do diesel dos caminhões e do GLP vendido às indústrias. Guido Mantega, aliás, externou indiretamente essa estranha tática da estatal. Uma espécie de ato falho: "O aumento na gasolina não será sentido pelos consumidores, o que não ocorrerá no caso do diesel, que deverá ter reajuste de 8,8% nas bombas".
Como na economia não existe mágica e como a matemática não aceita prestidigitação, é inexorável o impacto dessas manobras aritméticas nos índices inflacionários e na própria panela dos trabalhadores. Afinal, as cargas neste país continental são movidas a diesel e parte expressiva das indústrias queima o GLP como combustível. Assim, o chão de fábrica e a logística, cujos custos são componentes fundamentais na composição dos preços, sofrem sensível pressão altista. Então, ouvem-se insinuações de que "todos devem colaborar para evitar a inflação" ou de que "são identificados reajustes na produção rural, na manufatura e nos fretes".
Certo ou errado, subsidiar os preços de determinados insumos, agravando o custo de outros ou o déficit público, é uma decisão de governo passível de saudável e democrática discussão. Partindo-se do pressuposto jurídico de que todo mundo é inocente até prova em contrário, não se pode apontar taxativamente qual fator motiva essas distorções na política de preços da Petrobras. Seria apenas uma estratégia equivocada, numa tentativa afoita e sem o respaldo de estudos mais aprofundados para mitigar as causas inflacionárias? Se o motivo for este, menos pior, pois erros, inclusive banais, são prerrogativas humanas.
Porém, se a prática for propositalmente desprovida de transparência e de maneira intencional permeada por subterfúgios, estará configurado um indisfarçável ato de desrespeito à inteligência dos cidadãos. Será mais grave ainda, se tiver alguma relação com a estratégia de marketing político da Presidência da República e/ou os calendários eleitorais de 2006 e 2008. Tais hipóteses são desalentadoras, pois pressuporiam a existência, na composição dos preços dos derivados de petróleo, de mensagem cifrada incompatível com a governança corporativa de uma companhia de capital aberto, de grande porte, reconhecida capacidade tecnológica e fundamental para o desenvolvimento e a soberania econômica do Brasil. João Sampaio, economista, é o secretário de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo.


Protótipo de um mundo melhor

Paiva Netto

Dirigindo-me aos ouvintes da Super Rede Boa Vontade de Rádio, comentei que ao assistirmos às cerimônias de abertura dos Jogos Olímpicos, a exemplo da que ocorreu no último dia 8, em Pequim, enquanto desfilavam, diante dos nossos olhos, mais de duzentas nações representadas por seus mais destacados atletas, somos levados a refletir sobre a magia benéfica das Olimpíadas. O esporte é capaz de congregar, nem que apenas durante a sua realização, as mais díspares culturas, etnias, regimes e economias do planeta, pois isso é do seu espírito original. O idioma utilizado para comunicar-se é o da saudável competitividade. A barreira a ser vencida é o limite do corpo, dos milésimos de segundo ou dos centímetros das marcas recordes.

É evidente que o doping deve ser decididamente combatido.

A Vila Olímpica, apesar das naturais falhas humanas, não deixa de ser protótipo de um mundo melhor. Dizer o contrário, seria negar os benefícios que as práticas desportivas trazem. Os desencontros que sempre ocorrem onde atuam os homens existem para ser corrigidos, ora! Lá se respira a diferença. Compartilham-se os sonhos dos jovens de países desenvolvidos, emergentes e subdesenvolvidos. Trata-se de imagem emblemática da globalização do amor fraterno que há décadas defendemos e cuja tese mandamos à Organização das Nações Unidas, ONU, numa publicação especial, por ela divulgada nos seus seis idiomas oficiais: francês, inglês, espanhol, chinês, árabe e russo.
Esse cenário que convida à paz reporta-nos ao Templo da Boa Vontade, uma das sete maravilhas de Brasília/DF, que diariamente vivencia as olimpíadas do espírito.
Louvável a presença de mais de 100 líderes mundiais no espetacular Ninho de Pássaro. Que não se esqueçam de que, neste jogo da vida, a grande conquista é ver os seus povos desfrutando digna existência.

Um pouco de história

Em 1896, o Rei Jorge I, da Grécia, abria em Atenas a moderna fase das Olimpíadas. O imperador romano Teodósio I encerrara, em 393 da chamada Era Cristã, o primeiro período dos famosos jogos que imortalizaram Olímpia, cidade situada na parte ocidental da península do Peloponeso. Considerou-os pagãos. Pelo espaço de 1.500 anos a idéia ficou adormecida, até que o Barão Pierre de Coubertin, em 1892, para uma nova época nos esportes, iniciou as providências que, em 1894, levaram ao "Congresso pelo restabelecimento dos Jogos Olímpicos", o que se deu em 1896 na milenar capital helênica. Milhares de pessoas viram a competição entre treze países em nove modalidades: atletismo, natação, ciclismo, luta, halterofilismo, tênis, ginástica, esgrima e tiro. Participaram 285 atletas. No princípio quase ninguém acreditava na retomada dos jogos. Em Paris, 1900, houve a primeira participação das mulheres: seis concorreram nas provas de tênis. O Brasil ingressou nas competições somente em 1920, em Antuérpia, Bélgica. De lá trouxe a sua primeira medalha de ouro: Guilherme Paraense, pistola automática, na prova de tiro.
Conta a mitologia grega que da luta entre Zeus e Cronos pela posse da Terra nasceram os Jogos Olímpicos, que ao longo de toda a Antiguidade observaram caráter religioso. Em 776 AD, fixaram-se em Olímpia que, também de quatro em quatro anos, promovia uma "reunião de Paz, Fraternidade, cooperação e amizade entre os povos". Sob a mesma invocação, De Coubertin resgatou aquelas empolgantes disputas para os nossos dias. É dele esta consideração que se tornou conceito máximo das Olimpíadas: "O importante não é vencer, mas competir".

Boas lembranças

Sempre amei os esportes. Meu pai, Bruno Simões de Paiva (1911-2000), gostava de nadar, remar e fazer musculação. Era um touro.
Recordo-me de que, quando menino, jogava descalço, com meus colegas de infância, futebol no chão de cimento (vejam só!) da vila em que, por um bom tempo, morei. Só de pensar, sinto calafrios na espinha (risos). Os blocos eram separados entre si com frestas suficientes para quebrar os dedos de qualquer um, à menor topada, o que nunca aconteceu. Graças a Deus! E depois há os que não acreditam em milagres (risos). (...) Nadei com meu pai e com o meu primo Orlando, em Paquetá, na Pedra de Guaratiba, Urca, Copacabana, no Rio de Janeiro. Com outros jovens, armava arraiais para a festa de São João, num terreno baldio. Também, andei de bicicleta à beça. Contudo, mais do que isso, apreciava ler e preencher palavras cruzadas. Esta era a minha paixão maior: a leitura, costume desenvolvido pelo forte incentivo do seu Bruno.
Bom, estamos aqui torcendo pelo sucesso de nossos atletas na China. A eles dedico este meu pensamento: Todas as vitórias estão decididamente ao nosso alcance pela força do nosso trabalho.
José de Paiva Netto - Jornalista, radialista e escritor.


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