Brasil precisa de projeto olímpico

Antonio Carlos Pannunzio

As Olimpíadas de Pequim, que caminham para o final, reservaram aos brasileiros mais decepções do que sucessos. Os avanços que obtivemos não compensaram as esperanças frustradas, principalmente em modalidades nas quais, após os Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro, passamos a cultivar expectativas exageradas.
Excetuado o caso da atleta Fabiana Murer, cujo desempenho na final do salto com vara foi prejudicado por uma deficiência inaceitável na organização da prova, os resultados que alcançamos estão dentro do previsível.
Um dos objetivos das Olimpíadas é o de ampliar os limites do desempenho humano. Isso tem sérias implicações para os competidores e para os responsáveis pela política esportiva dos países que participam dos Jogos.
Proporcionalmente, o melhor desempenho do Brasil em Jogos Olímpicos ocorreu em nossa estréia naquela competição, em Antuérpia (Bélgica) em 1920. Enviamos 22 atletas e conquistamos três medalhas, inclusive uma de ouro, na prova de tiro com pistola, vencida por Guilherme Paraense.
Somente em 1952, em Helsinque (Finlândia), conquistaríamos novamente o ouro olímpico, agora no salto triplo masculino. Ademar Ferreira da Silva saltou 16m52 e, além de vencer a prova, quebrou o recorde olímpico. O paulista repetiu a dose em Melbourne, na Austrália, em 1956, quando quebrou de novo o recorde olímpico, saltando 16m56. Não fora isso suficiente, entre uma e outra quebrou também o recorde mundial, ao saltar 16m56 nos Jogos Pan-Americanos do México, em 1955.
Este ano, um salto de 17m15 de Jadel Gregório garantiu a ele apenas a classificação para a final daquela modalidade. O mínimo era 17m05.
Em muitos esportes, a melhoria de desempenho é ainda mais rápida. O vencedor de uma olimpíada que se classifica para a seguinte sem superações substanciais de seus limites, corre o risco de não alcançar os resultados desejados.
A Olimpíada dos sonhos dos brasileiros exigirá, de nosso país, a política olímpica que ainda não temos. É indispensável uma substancial ampliação das práticas esportivas de massa, para revelar os milhares de possíveis valores a serem burilados, de que necessitamos.
Em paralelo, há que se conduzir um grande programa de especialização de professores de educação física, para transformá-los em treinadores de primeira linha; construir centros de excelência esportiva em diferentes pontos do País e multiplicar as oportunidades de nossos atletas, de participarem de um maior número de competições de alta qualidade.
Sem isso, podemos até, graças a um dispendioso trabalho de construção de arenas, piscinas e estádios avançadíssimos, sediar a Olimpíada de 2016. Mas, nela, os atletas brasileiros não ocuparão tantos pódios como sonhamos, não obterão a quantidade de medalhas pretendida nem nos permitirão ouvir, tantas vezes quantas gostaríamos, a execução do Hino Nacional durante a entrega do ouro olímpico.
Antonio Carlos Pannunzio, Deputado federal, ex-líder do PSDB na Câmara, ex-presidente do diretório estadual de São Paulo, membro da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional.


Terceirização, os riscos que ninguém vê

Arthur De Biasi

As empresas de todo o mundo descobriram na terceirização a possibilidade de melhorar o foco e ganhar em produtividade, concentrando-se mais no core business da companhia. Trata-se de uma tendência muito forte no mundo corporativo. Algumas estimativas apontam que, em uma empresa de grande porte, quase um terço dos funcionários que trabalham dentro das instalações são terceirizados. A prática da terceirização, no entanto, camufla alguns sérios riscos para as empresas, que devem prestar atenção às práticas trabalhistas dessas empresas contratadas. O grande perigo é a aposta dar errado e a terceirização se tornar uma fonte de problemas, e não de soluções. Nas auditorias por nós realizadas, constatou-se que 70% das ocorrências representam riscos para as empresas contratantes.
A questão trabalhista deve ser analisada a fundo. Mesmo terceirizados, os empregados trabalharão internamente à empresa. Este certamente é um dos motivos para que a Justiça trabalhista mantenha o entendimento de que a empresa que contrata o serviço terceirizado é co-responsável pela garantia dos benefícios. Isso quer dizer que, em um possível caso de litígio, mesmo que o funcionário não pertença aos quadros da empresa, ela poderá ter de responder à Justiça, caso seja envolvida no processo - o que, na maioria dos casos, sempre ocorre.
O ideal para equilibrar as vantagens da terceirização, sem correr os riscos de ser acionado na Justiça Trabalhista, é realizar um processo de auditoria na empresa contratada. Assim, é possível identificar possíveis irregularidades trabalhistas com antecedência, evitando problemas judiciais no futuro. Sempre que essas auditorias passam a ser feitas de forma sistemática, os riscos de irregularidades e, por conseqüência, de ações trabalhistas envolvendo as empresas contratantes, reduzem-se ao mínimo ou simplesmente deixam de existir.
Trata-se de um processo que traz resultados imediatos. Já realizamos diversas auditorias de terceirizados, por iniciativa das empresas contratantes e, em algumas delas, foi tomada a decisão de rescindir os contratos, tantas eram as irregularidades encontradas. Em uma grande multinacional do setor de alimentos, havia mais de 90 ações trabalhistas por ano envolvendo terceiros. Após os trabalhos de auditoria, esse número caiu para quatro.
Além da vantagem financeira, de não precisar arcar com os custos do processo e de eventuais indenizações, existe um enorme benefício de imagem. Empresas grandes dependem muito da imagem que a marca tem perante a sociedade e seus acionistas. Litígios em excesso podem arranhar a reputação da companhia, seja pela falta de cuidado na contratação de prestadores de serviços, seja por permitir que empresas com irregularidades trabalhem dentro de suas instalações.
Fica aqui o alerta para as empresas que recorrem à terceirização, sem o devido cuidado, de buscar a prevenção contra as chamadas "contingências ocultas", por meio de auditorias periódicas, executadas por auditores independentes, junto às prestadoras de serviços terceirizados (vigilância, segurança, cozinha industrial, transporte de funcionários etc).
Arthur De Biasi é sócio-diretor da De Biasi Auditores Independentes


www.diariosbo.com.br - email: editor@diariosbo.com.br