RECORDAÇÃO

Um ilustre visitante
Oswaldo Vicentin

Atualmente ele mora em São Paulo-Capital. Recentemente comprou um "fusquinha", então vir dar uma volta por estas bandas onde vivera a maior parte de sua vida. Atravessou lentamente a cidade e na saída para Piracicaba viu o belo loteamento Residencial Dona Margarida frente à rotatória o prédio da Câmara Municipal, o trevo, e bem no inicio da velha Rod..135. O bom velhinho na verdade um mulato possuidor de um físico avantajado, estatura de gigante, parou o fusquinha no acostamento da antiga estrada. Lentamente desceu, apoiado numa bengala, rosto enrugado, cabelos brancos, mãos calejadas herança dos tempos. Pô-se a olhar no horizonte o sol se pondo como sempre colorindo as nuvens com seus raios dourados enfeitando ainda mais a terra rocha e nua pois a safra de cana havia acabado à poucos dias. A estrada parecia estar deserta. Não havia movimento. O silêncio sagrado só era quebrado pelo zunido do vento no farfalhar das folhas dos velhos bambuzais, e pelo gorjear dos passarinhos na sinfonia da tarde. Os olhos do bom velhinho percorriam os recantos, como a velha porteira e o lago chamado tancão da antiga Usina Santa Bárbara. Ao lado do tancão do outro lado da estrada permanecia incólume o velho brejo ou pequeno pântano. Tudo levava os pensamentos do bom ancião através dos tempos. Parecia ouvir a velha ,mãezinha chamando:- "Vamos Zé, a comida ta pronta e o caminhão tá esperando". Como uma retrospectiva ele ainda se via levantando, colocando chapéu de palha, empunhando o podão afiado, para logo em seguida estar junto com os companheiros e companheiras levantando nas madrugadas subindo no caminhão carregando a marmita para refeição, a chamada bóia fria. Depois a dura luta nos cortes de cana enfrentando as agruras do tempo. Mesmo assim não esmorecia, havia tempo para o bom humor com brincadeiras sadias, e o que era mais importante- o sorriso da Mariazinha mostrando os lindo olhos negros no rosto suado envolvido em panos. Via os companheiros robustos carregando os caminhões de cana, ou sacos de açúcar. Lembrava da antiga escolinha, da professorinha delicada. Lembrava dos casamentos e batizados, dos memoráveis bailes, da primeira namoradinha. Lembrava das festas religiosas, juninas, das incríveis jornadas futebolísticas, e dos grandes amigos que compunham e compõem até hoje a NEGADINHA DA USINA. O bom velhinho contemplou longamente aquelas paragens onde tanto lutara e divertira e disse consigo mesmo:- Felizmente ainda restaram vocês para alegrar meu cansado coração! Vocês formam a grande herança de um tempo maravilhoso, romântico, que tive ao lado de uma grande comunidade, uma boa negadinha! O vento continuou inclinando os velho bambuzal, os passarinhos continuaram numa sinfonia, O BOM VELHINHO RETORNOU AO FUSQUINHA . Mas duas lágrimas rolaram. Eram lágrimas da saudade de uma época que não volta mais.......
Oswaldo Vicentin é Contador e colaborador


Classe Média que ainda não é

José Aristodemo Pinotti

Não consegui deglutir essa euforia acrítica de classe média majoritária. Outro dia, contou-me um amigo, que alguém lhe perguntou: “Como faço para entrar na classe média, se ganho R$ 980,00?” “É muito fácil”, respondeu-lhe meu amigo, “peça ao seu patrão um aumento na carteira de trabalho de R$ 84,00, mesmo que não receba e você passará a ser mais um feliz integrante dessa classe o que certamente mudará sua vida”.
Não se brinca, assim, por atacado, com o povo de um país. Um mínimo de análise é necessário, por isso formulo algumas questões:
1- R$ 1.064,00 (um mil e sessenta e quatro reais) são suficientes para prover uma família, mesmo com 2 filhos e manter uma casa? E os gastos de telefone, transporte, cultura, lazer?
2- É só por renda familiar que se define classe média? É tão simples assim? Quem estabeleceu esses limites, respondeu a pergunta anterior?
3- Será que o cidadão exultante por viver em um país de classe média e pertencer a ela conhece os péssimos e mantidos resultados da avaliação do ensino público fundamental onde seus filhos certamente estudarão e os últimos resultados do ENADE (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes), onde 30% dos 731 cursos superiores foram reprovados com notas 1 e 2?
4- É verdade que esse cidadão não tem muita preocupação com a qualidade de ensino superior, pois seus filhos não estão e possivelmente não estarão na Universidade. A educação superior além de ser ruim é, acima de tudo, excludente para a grande maioria dos jovens dessa “Nova Classe Média”, que vêm do ensino público fundamental. Segundo pesquisas da Unicamp, a partir do 5º ano do ciclo fundamental, esses jovens vão desaparecendo das salas de aula e das estatísticas, os poucos que terminam o ensino médio não conseguem entrar nas boas Universidades Públicas e tampouco pagar as privadas. Apenas 11% dos jovens brasileiros entre 18 e 25 anos cursam o ensino superior e não são os que estão estatisticamente entrando na classe média. Recentemente, estatísticas da Ritla ( Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana) mostram que 53% das famílias mais ricas têm seus filhos nas universidades enquanto, das mais pobres, apenas 0,8% os têm.
5- De saúde, nem é bom falar, as estatísticas de descontentamento e os índices de mortalidade falam por si e as famílias que ganham de R$ 1.064,00 a 4.591,00 ficam num verdadeiro dilema: SUS com a falta de acesso, mau acolhimento, burocracias e filas ou planos de saúde ilusórios.
Não quero desclassificar os dados da FGV e do IPEA ou minimizar os acréscimos de rendimento que os brasileiros pobres tiveram nestes últimos anos, pelo aumento justo do salário mínimo, bolsa família, valorização da moeda e crescimento do emprego, mas dizer que somos um país de classe média é um escárnio, uma montagem, propaganda enganosa.
Precisamos, e esta é a razão do meu espanto, para criar uma classe média, prover pleno direito à educação, saúde, emprego, segurança, cultura e lazer, disponibilizando a todos, especialmente aos mais carentes, as condições para transformá-los - pelo seu próprio esforço e ambição de ascensão social - em cidadãos preparados para as tarefas de tecnologia avançada, com potencial produtivo e de participação política estabilizadora do sistema, ambas regadas e balizadas por um humanismo decorrente do acesso aos bens culturais. Vale a pena aguçar a consciência política e rever o belo filme “A Classe operária vai ao paraíso”(1971) de Elio Petri com Gian Maria Volunté.
Se nos contentarmos e conformarmo-nos com uma classe média virtual, fabricada por estatísticas, com apenas maior potencial de compra, nunca a teremos de verdade e, muito menos, um país desenvolvido no correto sentido da palavra.
José Aristodemo Pinotti, 73, deputado federal (DEM-SP), Professor emérito da USP e da Unicamp e Membro da Academia Nacional de Medicina. Foi Secretário de Saúde e Educação do Estado e Município de São Paulo. Presidente da Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia (1986-1992) e Reitor da Unicamp (1982-86)


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