Henrique Matthiesen
A crise econômico-financeira, previsível e fatal, envia a uma crise mais densa. Trata-se de uma crise de valores. Carecem traços de valeres ínfimos da concepção neoliberal na economia de mercado, sem os quais nenhuma instituição, a médio e longo prazo, se sustenta de pé: a confiança e a veracidade. A economia implica a certeza de que os impulsos eletrônicos que movimentam os papéis e os contratos tenham lastro e não sejam meros objetos imaginários, conseqüentemente, fictícios. Implica, igualmente, a veracidade de que as metodologias se façam segundo preceitos advertidos por todos. Ocorre que no neoliberalismo e nos mercados, sobretudo a partir da era Thatcher e Reagan, predominou a financeirização dos capitais. O capital financeiro-especulativo é da ordem de 167 trilhões de dólares, enquanto o capital real, agregado nas metodologias fecundas (por volta de 48 trilhões de dólares anuais). Aquele delirava na agiotagem das bolsas, dinheiro inventando dinheiro, sem controle, somente conduzido pela voracidade do mercado. Por seu caráter, a especulação admiti sempre alta imponderação e vem submetida a anomalias sistêmicas: à ganância de mais e mais ganhar, por todos os meios presumíveis.
Os gigantes de Wall-Street eram tão prestigiosos que impediam qualquer controle, seguindo somente suas próprias regulações. Eles contavam com os subsídios antecipados (Insider Information), manipulavam-nas, apregoavam rumores nos mercados, induziam-nos a caluniadoras apostas e extraíam dai grandes benesses. Basta interpretar o livro do mega-especulador George Soros A crise do capitalismo para constatá-lo, pois ai descreve em minúcia estas manobras que aniquilam a confiança e a veracidade. Ambas eram imoladas ordenadamente em emprego do cupidez dos especuladores. Tal preceito tinha que um dia desmoronar, por ser aleivosos e nefários, o que de fato aconteceu.
A tática inicial norte-americana era injetar tanto dinheiro nos "ganhadores"(winner) para que a conexão permanecesse a laborar sem pagar nada por suas inadvertências. Seria aprazar a amargura. Os europeus, recordando-se dos resíduos do humanismo das lucidezes que ainda restam, tiveram mais circunspeção. Denunciaram o embuste, puseram a campo o Estado como instância salvadora e reguladora e, em geral, como ator econômico direto na edificação na infra-estutura e nos campos sensíveis da economia. Agora não se trata de refundar o neoliberalismo mas de estabelecer outra arquitetura econômica sobre bases não fictícias. Isto quer dizer, a economia deve ser capítulo da política (a tese clássica de Marx), não a ofício da especulação, mas da produção e da adequada acumulação. E a política se conduzirá por critérios éticos de limpidez, de equidade, de justa media, de controle democrático e com especial cuidado para com as condições ecológicas que admiti a prosseguimento do projeto planetário humano.
Por que a crise contemporânea é crise de valores? Porque nela sub-posta um julgamento depauperado de valores que só analisa um lado dele, seu lado de ego. O ser humano é habitado por duas forças cósmicas: uma de auto-afirmação sem a qual ele apagar-se. Aqui prevalece o ego o jogo. A outra é de integração num todo maior sem o qual também apagar-se. Aqui prevalece o nós e a colaboração A existência só se amplia saudavelmente no conceito em que se equilibram os egos com o nós, a concorrência com a colaboração. Dando rédeas só à competição do ego, abolindo a cooperação, brotam as deformidades que assistimos, levando à crise atual. Inversamente, dando espaço somente ao nós sem o ego, gerou-se o socialismo despersonalizante e a destruição que provocou. Erros desta circunspeção, nas condições atuais de interdependência de todos com todos, nos podem liquidar. Como jamais antes temos que nos guiar por um julgamento adequado e integrador dos valores, por um lado individual-pessoal com direitos e por outro social-comunitário com limites e obrigações. Caso contrário, nos atolaremos sempre nas crises que serão menos econômico-financeiras e mais crises de valores.
Henrique Matthiesen é colaborador
Claudio Tieghi
Desenvolvimento de negócios sustentáveis não é somente uma proposta para empresas de grande porte ou, como muitos imaginam, para o setor industrial. Diante do esgotamento mundial dos recursos naturais, todo e qualquer negócio deve ser repensado também pela ótica do desenvolvimento sustentável. A capacidade de exercer uma atividade econômica que garanta às futuras gerações condições de dar continuidade ao empreendimento é tão imprescindível quanto a necessidade de se obter lucratividade.
O setor de franquias brasileiro, que este ano completou 21 anos, apresenta números expressivos. Conta com cerca de 1.200 marcas franqueadoras, faturamento anual de R$ 46 bilhões e 65 mil pontos de vendas, que juntos empregam quase 600 mil pessoas. Mas o sucesso das redes depende do êxito da franquia, quase sempre um pequeno negócio. Para estimular o setor a entrar na rota da sustentabilidade é que foi criada, em 2005, a Afras (Associação Franquia Solidária), braço de responsabilidade social empresarial (RSE) da ABF - Associação Brasileira de Franchising.
No início, a Afras dava suporte para que as associadas desenvolvessem projetos sociais como ação de responsabilidade social da empresa. Mas após conquistar a credibilidade do setor, já em 2006, houve um amadurecimento da sua missão. A Associação percebeu que o conceito de RSE deveria ir além do que o simples fomento de projetos voltados à comunidade. Dessa forma, a Afras passou a orientar suas associadas a adotar uma gestão responsável e sustentável em relação aos colaboradores, fornecedores, clientes, governo e meio ambiente. É necessário ensinar que o conceito de RSE é uma prática de gestão.
No ano passado, a Afras, em parceria com o Instituto Ethos, decidiu criar indicadores de RSE para o setor de franchising. O questionário que algumas redes utilizavam até então para avaliar o desempenho da empresa e traçar planos de ação sobre o tema não contemplava as características específicas do setor como, por exemplo, a relação do franqueador com seu franqueado. Foram convocadas 13 marcas representativas do franchisng para a elaboração de 36 indicadores que foram lançados em outubro deste ano. Entre eles, destacam-se compromissos éticos, práticas anticorrpução e antipropina, balanço social, governança corporativa, critérios de contratação, valorização da diversidade entre outros.
Os indicadores se destinam, em primeiro lugar, às franqueadoras, pelo forte poder de influência que exercem nas franquias. Entretanto, a ferramenta possui questões que avaliam se a empresa franqueadora incentiva ou orienta suas franquias a realizar boas práticas adotadas por ela. O setor contará com um banco de dados administrado pelo Instituto Ethos, que permitirá uma avaliação clara sobre o desenvolvimento da responsabilidade social dentro das empresas que aderirem à utilização dos indicadores. Os resultados da sua aplicação passarão a nortear as atividades estratégicas da Afras nos próximos anos. As perspectivas de aplicação dos indicadores são extraordinárias. Apenas as 13 marcas que participaram da elaboração representam 5.506 pontos de vendas.
O desenvolvimento de negócios sustentáveis é um caminho sem volta. As empresas encontram na gestão de responsabilidade socioambiental uma forma equilibrada para exercitar e consolidar seus valores de forma ética e transparente. Será possível repensar atividades, abrir espaços para o engajamento, criatividade e inovação. Como prêmio, o consumidor consciente retribui esses esforços estabelecendo uma relação próxima e de longo prazo com as marcas.
Claudio Tieghi é presidente da Afras (Associação Franquia Solidária) e executivo de responsabilidade social da rede Yázigi Internexus
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