Engenheiros americanos costumam usar a gíria "kluge" ao se referirem a soluções improvisadas para problemas em projetos. A falta de iluminação numa casa nova pode rapidamente ser resolvida, por exemplo, com um fio desencapado, uma lâmpada velha, uma extensão e esparadrapo. Esse tipo de gambiarra, diz o psicólogo Gary Marcus, da Universidade de Nova York, é também a melhor analogia para descrever a mente humana.
"Kluge" é o título do novo livro de Marcus, dedicado a mostrar como nossas faculdades mentais mais caras -consciência e raciocínio lógico- foram construídas pela evolução aproveitando estruturas cerebrais primitivas, na falta de algo melhor. Dá para o gasto, mas o preço que pagamos por não sermos fruto de um "projeto inteligente" é que nossa gambiarra cerebral freqüentemente entra em curto-circuito.
Auto-engano, teimosia, presunção --e crenças religiosas- seriam todos efeitos colaterais da forma como a mente é estruturada. Nossa memória, também, parece ser ótima para um caçador identificar pegadas de animais, mas não muito para guardar senhas de banco.
Analisando suas teorias à luz de experimentos psicológicos, Marcus mostra o quanto somos capazes de violar a racionalidade que supostamente é a marca registrada do Homo sapiens, o homem que sabe. Em um fenômeno conhecido como "ancoragem e ajuste", por exemplo, o cérebro é normalmente induzido por valores arbitrários --o autor descreve um experimento no qual números que saíam numa roda da fortuna influenciavam voluntários a responder uma questão não-relacionada, como "qual é a porcentagem de países africanos na ONU?"
Outro fenômeno analisado por Marcus a chamada "preparação", ou indução subliminar. As pessoas tendem a responder a perguntas sobre suas vidas com mais otimismo depois de assistir a "Os Smurfs" do que a "O Ladrão de Bicicletas".
Diante disso, Marcus acusa seu próprio professor Steven Pinker --o papa da psicologia evolutiva-- de superexaltar o cérebro humano como um órgão perfeitamente adaptado.
Assim como os vírus da gripe e dos resfriados se espalham mais facilmente no inverno, um novo estudo norte-americano sugere que o verão pode ser a estação preferida de bactérias que causam infecções hospitalares. É o primeiro trabalho científico relevante que estabelece essa relação, segundo os infectologistas.
Pesquisadores da Universidade do Oregon (EUA) e do Instituto de Pesquisa do Hospital Sick Children (Canadá) descobriram que uma série de infecções provocadas pelas bactérias gram-negativas --que são as principais envolvidas em infecções urinárias e gastrointestinais, por exemplo-- apresentam picos durante o verão.
A pesquisa, publicada no periódico "Infection Control and Hospital Epidemiology", foi baseada em sete anos de investigações em um hospital de Baltimore. Os resultados indicam que o número de pacientes afetados por bactérias como a Pseudomonas aeruginosa, a Escherichia coli, a Enterobacter cloacae, e a Acinetobacter baumannii pode subir até 17% a cada dez graus de elevação da temperatura. Em conseqüência disso, a incidência de doenças causadas por esses microrganismos pode ser 46% maior no verão do que no inverno, apontaram os pesquisadores.
Embora as razões do aumento sejam diferentes para cada microrganismo e não estejam ainda bem estudadas, a variação sazonal passa a ser um dado importante no diagnóstico e na adoção de medidas preventivas contra infecções hospitalares, avalia Jessina McGregor, professora-assistente na Universidade de Oregon e uma das autoras do estudo.
"Todo mundo sabe que existe uma sazonalidade para certas infecções virais, como as provocadas pelo influenza, mas agora nós descobrimos que algumas das infecções bacterianas têm seu pico no verão."
Para a infectologista Maria Claudia Stockler, do hospital São Luiz, o estudo é ainda preliminar, mas, se outros trabalhos vierem a comprovar essa relação, novas atitudes poderão ser acrescentadas ao rol de medidas já adotadas para a prevenção da infecção hospitalar, como uma diminuição da temperatura da UTI.
Stockler explica que as bactérias gram-negativas estão na natureza (na terra, na areia e na água, por exemplo), mas só acometem o homem dentro do ambiente hospitalar. "Em geral, quando o indivíduo está com baixa imunidade, é idoso, está com um tubo, com uma úlcera de pressão [escaras]", exemplifica a médica.
Segundo o infectologista Max Igor Banks Ferreira Lopes, do Hospital das Clínicas de São Paulo, outros trabalhos menores já tentaram associar o clima a uma maior ou menor incidência de bactérias. "Mas só se conseguia estabelecer relações entre as infecções virais, principalmente gripe, e algumas pneumonias durante o inverno. Por isso, esse novo trabalho é bem interessante."
As hipóteses --nenhuma pode ser comprovada-- apontadas pelos pesquisadores para explicar o aumento dessas bactérias no verão são as mais variadas. No caso da Pseudomonas, por exemplo, micróbio que costuma estar presente na água, a razão seria o fato de as pessoas freqüentarem mais piscinas no verão, o que poderia aumentar a colonização da bactéria no organismo e facilitar a infecção por ela.
Já a Escherichia coli, uma bactéria intestinal muito associada às infecções urinárias, seria mais incidente no verão porque as pessoas teriam mais relações sexuais nessa estação, segundo os pesquisadores.
"Não sei se eu vou beijar menos meninas agora, porque você só pega essa doença uma vez na vida, mas ela é muito ruim, horrível", diz Alexandre Turoni Zaparoli, 14 anos, que saiu do consultório médico com o seguinte diagnóstico: "doença do beijo".
Trata-se do nome popular da mononucleose infecciosa, doença transmitida pelo vírus Epstein-Barr, que afeta principalmente adolescentes e adultos de até 30 anos. "Ela ocorre mais nessas faixas etárias porque, depois, quem tinha de pegá-la já pegou. É difícil passar por todas essas fases sem ter contato nenhum com o vírus", explica o infectologista Claudio Sergio Pannuti, professor da Faculdade de Medicina da USP.
A mononucleose ganhou a alcunha de "doença do beijo" décadas atrás, quando uma epidemia tomou conta de uma universidade norte-americana após um piquenique --muitos alunos ficaram, e o vírus se espalhou pelo campus.
"A transmissão se dá pela saliva, principalmente pela troca durante um beijo na boca. Muitos não manifestam os sintomas nunca, mas o vírus fica no organismo. A pessoa sara, mas continua excretando o vírus", continua Pannuti. "A boca sempre tem os seus vírus. É preciso ver o custo-benefício de cada uma", brinca ele.
Alexandre Zaparoli ficou dez dias afastado do colégio, com febre de quase 39 graus. "Beijei umas três meninas, teve a viagem de formatura. Eu não sabia que existia a doença do beijo. Sinto muita dor de cabeça e em cima dos olhos", diz.
Além das dores, a mononucleose tem sintomas como febre, dor de garganta, mal-estar e fadiga --o que gera muitos diagnósticos equivocados. Muita gente nem chega a saber que teve a doença do beijo.
"É fácil confundir com amigdalite, por exemplo, mas, se o médico tem a hipótese na cabeça, pede exames que comprovam a mononucleose. A fase aguda dura uma ou duas semanas", diz Regina Succi, professora de pediatria e doenças infecciosas da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).
"Você andou beijando?"
Um exame de sangue detecta aumento dos linfócitos, um tipo de célula, que ficam alterados. Outra pista, além da pergunta "Você andou beijando na boca?", é o inchaço de gânglios.
O contágio costuma acontecer na fase inicial da doença, enquanto o vírus está incubado. Esse período de incubação dura, em média, duas semanas. Respirar no mesmo ambiente fechado e colocar a mão na boca e, depois, em algum objeto são outras formas de transmitir o vírus, da família do herpes.
Entre um grupo especial de pacientes, os imunodeprimidos --transplantados ou HIV positivos, por exemplo--, a mononucleose pode evoluir para tumores malignos --há vacinas sendo testadas. A maioria dos infectados, entretanto, apenas fica de cama por alguns dias, tentando descobrir com quem trocou o tal do "beijo fatal".
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