Uma jogada de mestre

Oswaldo Vicentin

Obviamente, como todos sabem, a quebra financeira americana atingiu o mundo inteiro. Foi um efeito cascata, ou dominó. E é lógico que deve ter atingido também os grandes times europeus. Em minha opinião com exceção do Milan do Berlusconi, todas as grandes equipes de futebol europeu já não possuem a tão decantada mina de ouro. É cedo ainda, mas, deveremos notar que não existirão grandes contratações como se fazia com milhões e milhões de euros. Diante disso, as investidoras ou patrocinadoras como a Nike, por exemplo, dirigem suas vistas para outros mercados do mundo. A contratação de Ronaldinho pelo Corinthians é um exemplo. Já é uma abertura para o mercado futebolístico brasileiro. Pois, outros times deverão seguir o exemplo.
Sou palmeirense desde o tempo do grande goleiro Obertan Catani. Por falar no Oberdã, a pouco tempo o encontrei no Parque Antártica, onde estive junto com meu sobrinho Wilson Gottardo. Contudo não sou fanático, e sempre respeitei os grandes jogadores e diretores de futebol de qualquer equipe adversária. Como sempre admirei diretores e presidentes de outros clubes. Tenho um pouco de inveja e admiro a grande administração sãopaulina, motivo pelo qual o São Paulo está colhendo muitas taças. Sempre admirei o grande Presidente do Corinthians, Vicente Matheus. Vicente Matheus (para mim o maior presidente de clube de todos os tempos) era polêmico, por isso suas frases ficaram registradas nos anais na história. Vou citar algumas delas: "Minha gestação foi a melhor que o Corinthians já teve!". "Quem entra na chuva é para se queimar!". "O Sócrates é invendável, inegociável, e IMPRESTÁVEL!". "Jogador tem que ser completo como o pato, que é um bicho aquático e gramático!". "O jogo só acaba quando termina!". "Haja o que hajar, o Corinthians vai ser campeão!" "Peço aos corinthianos que compareçam às urnas para naufragar nossa chapa!". De tanto que admirava Vicente Matheus, e por ter na época um jogador barbarense o Ademir Gonçalves, cuja família é muito amiga, e também por causa do Messias, um amigo corinthiano, torci pelo Corinthians ficar campeão. Foi em 1977, contra a Ponte Preta, e o Ademir foi um grande vencedor. Mas só torci aquela vez, pois continuo palmeirense. Depois de Vicente Matheus, o Corinthians entrou em decadência. Entrou ratos por todos os lados. Roeram até o osso. Cada um roubou um pouco. Quase acabaram com timão, que alem de tudo sofreu a humilhação de cair para a segunda divisão. Mas, e sempre tem um, "mas", como diz o velho ditado:- Não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe", o CORINTHIANS da grande fiel elegeu um grande presidente a exemplo de Vicente Matheus. Chama-se Andrés Sanches. Esse moço, dinâmico, está conseguindo colocar o seu time na altura que ele merece. Isto é junto aos grandes times do cenário mundial. Depois de contratar um grande técnico que é o Mano Meneses, conseguiu retornar o time à primeira divisão. Agora para completar sua eficiência como grande presidente, contratou Ronaldinho. Mas não contratou o jogador só pelo seu futebol, que ainda é temeroso em voltar a ser como antes. Fez um investimento visando aumentar a renda, sanar despesas e fechar o enorme buraco negro deixado pela Diretoria anterior. Pode aumentar a já grande torcida, e conseqüentemente montar um grande plantel. Não sei se todo mundo notou, mas o trabalho desse moço o Sanches, foi uma abertura para o cenário nacional e internacional. Poderemos ter futuramente o retorno de novos jogadores, e novos investimentos, pois o mercado europeu já não está com àquela corda tudo.
Não resta a menor dúvida que a atitude do Presidente Sanches, pode ser considerada como um gol de placa. Uma administração transparente como a do São Paulo, que serve de exemplo para tantos clubes grandes do Brasil, onde só vemos brigas, vaidades, parasitas e ganâncias. Esses péssimos dirigentes são os responsáveis da ausência de torcedores nos campos. Isso sem contar com fato escandaloso de venderem jogadores para a Europa sem ao menos segurar por uma temporada. Vai ficar campeão de que forma? Se vendem prematuramente, jogadores primordiais da equipe. Uma máquina nunca será perfeita se tiramos dela peças essenciais. Parabéns, pois, Diretoria e torcida Corinthiana. Quem sabe os outros dirigentes criem vergonha na cara, e siga o exemplo!
Oswaldo Vicentin é Contador e colaborador


AI-5 Contra a imprensa. Parte II

Henrique Matthiesen

No alvorecer do dia 12 de dezembro de 1968, quinta-feira, o presidente da República, general Costa e Silva, exerceu uma bucólica agenda em Belo Horizonte. Discursou para uma turma de formandos em ciências contábeis e inaugurou um computador, recém-comprado pelo governo de Israel Pinheiro.
A bonança era ilusória. Em Brasília, no mesmo dia, em atmosfera de conflito, a Câmara dos Deputados votou a solicitação de alvará para que o deputado Márcio Moreira Alves fosse denunciado, sob a incriminação de ter afrontado as Forças Armadas num discurso.
Na sede do Estado, em São Paulo, o chefe de redação, Julio de Mesquita Filho, acompanhava cada movimento da preocupante conjuntura. Quando recebeu o aviso de que a Câmara não daria o alvará, sentou-se e terminou de escrever a Nota 1 , o principal editorial da página 3 do jornal. Sob o título Instituições em Frangalhos, seu documento abalizava o embaraço em que se deparava o País, no qual já vigoravam quatro atos institucionais designados pelo regime militar, a qual o Estão apoiava. Expunha um panorama político de "nuanças nebulosas", no qual as oportunidades de recomposições se esgarçavam cada vez mais. Parecia conjeturar o rompimento derradeiro, o ato que naquele momento estava sendo escrito em outro ambiente por um catedrático de direito tido até então como liberal, Luís Gama e Silva.
O documento declinou depressa para as oficinas e a produção do jornal prosseguiu normalmente naquela quinta-feira. No princípio do anoitecer, ligaram da Polícia Federal em São Paulo, para indagar ao secretário de redação, Oliveiros S. Ferreira, quais seriam as manchetes da primeira página no dia subseqüente. A censura à distância já era um hábito naqueles dias pesados. Os títulos foram lidos pelo telefone e, como nenhum deles amofinou o censor, a impressão do jornal prosseguiu. Horas mais tarde, porém, já na antemanhã de sexta-feira, 13, o chefe da PF em São Paulo, general da reserva Sílvio Corrêa Andrade, apareceu nas oficinas do Estado e solicitou observar o jornal. Além das manchetes, leu o editorial escrito pelo diretor do jornal. Não gostou. E naquele mesmo minuto decidiu a interrupção da impressão e a apreensão dos exemplares concluídos. Cerca de 106 mil jornais, porém, já haviam deixado a cidade, rumo ao interior de São Paulo.
A bestialidade do acontecimento, quase 20 horas antes de o general Costa e Silva rubricar o AI-5, espantou e representou um penoso golpe para Julio de Mesquita Filho, que já havia dirigido o Estado por quatro tempestuosas décadas.
Na tarde do mesmo dia 13, ante as coação dos militares, advertiu ao diretor da PF e ao governador Abreu Sodré, que o Estado não praticaria a auto-censura. A empreitada competia à polícia, disse. Em retaliação, à noite, censores foram enviados à redação.
Henrique Matthiesen é colaborador


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