Henrique Matthiesen
No plenário da Câmara, no dia 12 de dezembro de 1968, 216 deputados rejeitaram a solicitação dos ministros militares para processar o deputado emedebista Márcio Moreira Alves. Foram somente 141 os votos a benefício do requerimento e houve 15 abstenções. Moreira Alves teve a imunidade parlamentar sustentada com o estimado apoio de deputados do partido do governo, a Arena.
O Legislativo menosprezou os sinais vindos do cerne do poder. Eles reproduziram uma cadeia de coações: os militares faziam atingir ao presidente Costa e Silva a avisos de que não aceitariam, o "achincalhe" às Forças Armadas; o presidente proferia ao chefe do Gabinete Militar, Jayme Portella, que não admitiria uma deslealdade da Arena; e Portella, por sua vez, repassava isso para os políticos.
Para os parlamentares adversos à cassação das imunidades de Moreira Alves, no entanto, isso era só uma fanfarrice. Segundo narra o historiador Hélio Silva, nesse momento houve intensa articulação parlamentar na área militar para estimar uma imaginável reação das Forças Armadas, caso o pedido fosse recusado. No dia 7 de dezembro, o condutor do MDB na Câmara, Mário Covas, saiu de Brasília com o deputado Renato Archer e reuniu-se, no Rio, com o coronel Francisco Boaventura Cavalcanti, irmão do então ministro Costa Cavalcanti. A conversa entre o militar e os parlamentares foi devidamente reconstituída por um agente de informações. Boaventura garantiu-lhes que não existiria reação das Forças Armadas.
Quando Costa e Silva saiu do Palácio do Planalto, com destino a Belo Horizonte, no dia 12 de dezembro, já partiu com o conhecimento dos líderes parlamentares de que a triunfo seria complicado. De volta ao Rio, no avião, Costa e Silva rabiscou um rascunho de ato institucional. "Minutei isso para não ser pego de surpresa, caso o governo seja sobrepujado na votação da Câmara", ilustrou o presidente a Jayme Portella, segundo o narrativa do general, já morto, feito no livro A Revolução e o Governo Costa e Silva. Naquele período, o sufrágio para o pedido de licença para processar Moreira Alves estava em andamento.
Na chegada ao Palácio das Laranjeiras, o presidente escutou pelo rádio do automóvel: o governo fora sobrepujado. Subiu a seus aposentos. Portella, então, fez uma série de telefonemas para averiguar que os generais estavam irritados. Às 17 horas, o ministro do Exército, Lyra Tavares, e o chefe do EMFA, Orlando Geisel, foram ao palácio e o presidente os recebeu. Segundo Portella, Lyra Tavares informou a Costa e Silva que seu gabinete estava abarrotado de generais, todos cobrando uma atitude do governo.
"Presentemente, nada a deliberar, mas amanhã darei a minha decisão", objetivou Costa e Silva. Os dois generais saíram desgostosos, mas Portella disse-lhes que o presidente não os decepcionaria. No seu livro de reminiscências, o ex-ministro Jarbas Passarinho, na época titular da pasta do Trabalho, conta ter escutado depois de Costa e Silva a motivo da prorrogação de sua decisão: "Adverti ao Portella que não deliberaria sob coação dos generais (...) Se houvesse cedido, passaria de presidente a refém dos generais, e não seu comandante soberano; não mais governaria sobre eles, mas sob eles."
Costa e Silva deu ordens expressas de não receber mais ninguém naquela noite. Foram barrados os ministros Costa Cavalcanti, Albuquerque Lima, Hélio Beltrão, Delfim Netto e igualmente o ministro da Justiça, Gama e Silva. Segundo relata Passarinho, Gama e Silva exaltou-se e advertiu invadir os aposentos do presidente, "para proteger a Revolução". Para enganar o ministro civil que se situava à direita de qualquer militar, Portella lançou mão de um artifício, narrado em seu livro: trancou-se numa sala com ele e deu o primeiro de múltiplos recados daquela noite.
"Olha, Gama, você vive fanfarreando que tem um ato dentro dessa pasta; sei que é blefe, mas vá para o hotel, refazer o que houver escrito, porque amanhã poderá ser benéfico na reunião."
Enquanto isso, em seu quarto, Costa e Silva fazia palavras cruzadas e via películas de cowboy. "Ele amava faroeste, mas eu via que não estava acompanhando nada; olhava exclusivamente para a frente", lembra-se o coronel Hernani D'Aguiar.
Eram 22h30 quando se deu o período mais pesado da noite. O comandante do 1º Exército, Sizeno Sarmento, havia desembarcado duas horas antes na Base Aérea do Galeão, vindo de Brasília. Para recebê-lo, cem oficiais se amontoavam no aeroporto, segundo conta Zuenir Ventura em seu livro 1968: O Ano que Não Terminou.
Portella relata que Sizeno telefonou às 22h30 e solicitou arrazoar com Costa e Silva. "Olha, velho, guerra é guerra, vamos despertar o Tio Velho", disse o general, empregando o codinome adotado por Costa e Silva no golpe de 1964. Mas o presidente não recebeu Sizeno. "Ele me disse que não ia receber depois das 22 horas, em sua casa, um oficial fardado", desvenda D'Aguiar. A essa altura, Portella seria o singular, além de Costa e Silva, que sabia que o ato institucional fechando o regime seria editado no dia subseqüente.
Pela manhã, na solenidade na Escola Naval que antecedeu a reunião do alto comando, Portella passou ao general Emílio Médici e ao ministro da Marinha o recado de que "a decisão era para valer". Era a senha necessária para que os militares revoltados soubessem que o presidente havia cedido. O País iria para o regime do arbítrio e da exceção.
Henrique Matthiesen é colaborador
Armando Correa de Siqueira Neto
Vê-se claramente o primitivismo presente em considerável número de pessoas, atraso do nível de desenvolvimento que se iniciou nos primórdios da nossa origem. Ironicamente, muitos se julgam avançados e no topo das realizações. Todavia, o homem é um ser que tem a habilidade de enganar a si mesmo. O psiquismo é capaz de turvar o raciocínio, alterando a percepção da realidade. Enxerga o que lhe convém, sobretudo as suas proezas, sem se dar conta de que elas estão longe de serem suficientes para facultar-lhe o real título de civilidade.
Ele não vê, contudo, a sua própria imagem irracional quando se lança truculentamente nos embates sociais, ao disputar o território com seu semelhante, na selva de pedra. Não tolera segundos de atraso daquele que se interpõe em seu caminho. Irrita-se e faz de tudo para ultrapassá-lo, mesmo sob o risco de eventual acidente. É capaz de agredir, de formas variadas, os que lhe são próximos, jugando-se justo, afinal, os seus problemas sempre são maiores e mais complicados. Não percebe, infelizmente, que os neurônios não processam a informação devidamente em razão de o orgulho e as emoções ainda predominarem no nebuloso terreno cerebral. É a cegueira dando as cartas no perigoso jogo da raiva e da sorte. Alguém acaba levando a pior.
Quando o homem se apresenta ao seu meio, no entanto, faz boa pose e tenta se mostrar benevolente, manso, adorável e sorridente, por vezes, ocultando assim o comportamento feroz tão vivamente experimentado no cotidiano longe do olhar alheio. Entretanto, a máscara da gentileza estranhamente permanece no seu ator, mesmo nos momentos em que se encontra só; ele não se reconhece como tal, mas como um cavalheiro, à sua moda, é claro. Ele próprio se convence de que é aquilo que desejou ser com o tempo. É o auto-engano. Passa a acreditar na elevada estatura que se desenhou em sua mente. Descarta rápida e escorregadiamente o auto-retrato fidedigno, no qual, impõe-se a realidade.
Contudo, na origem da espécie, ao mesmo tempo em que o ser humano se mostra rude, encerra-se nele também a promessa do desenvolvimento ilimitado, com a ressalva de uma exigência para se atingir as várias possibilidades de se tornar melhor: o exercício contínuo do poder existente em si. É, pois, através do esforço, da vontade e da incansável determinação que se alcança, cada vez mais, a grandiosidade a que temos pleno direito.
Eis o milagre que subjaz silencioso no íntimo de cada um. De todos, sem exceção. É a grande promessa, mas que requer o empenho pessoal para que se opere a ascensão de cada passo na escalada do monte que conduz ao êxito. Não o sucesso superficial que se desmancha. Mas a vitória de se tornar alguém capaz de marcar favorável e profundamente a si mesmo e aos demais; o registro vivo que não se apaga. Aquele que pode tudo quanto lhe convier, porque simplesmente possui a estatura necessária do desenvolvimento.
Convença-se: Você é a grande promessa de si mesmo!
Armando Correa de Siqueira Neto é psicólogo (CRP - 06/69637), consultor em gestão de pessoas, professor e mestre em Liderança pela Unisa Business School. Co-autor dos livros Gigantes da Motivação, Gigantes da Liderança e Educação 2006. E-mail: selfcursos@uol.com.br
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