Alexandre Eugênio Serpa
O colapso imobiliário americano resultou em uma séria crise no sistema financeiro, caracterizada, em sua essência, como uma onda de desconfiança que se propagou rapidamente no cenário internacional, impondo a todo o concerto econômico a adoção de uma postura de cautela, expectativa e conseqüente desaceleração das atividades financeiras alicerçadas em mercados voláteis que dependem, por sua própria natureza, de um alto nível de confiança e solidez para que possa operar de forma eficaz e eficiente.
A instabilidade financeira reproduziu-se a partir do desmoronamento do insustentável modelo do mercado imobiliário norte-americano. A partir de 2000, os preços dos imóveis subiram exponencialmente e, alicerçados nesta virtual sobre-valorização, os bancos adotaram as hipotecas como um de seus principais ativos. Num ritmo frenético, o número de novas edificações ultrapassou o número de interessados e, nesse contexto, os bancos, com objetivo de equilibrar oferta e demanda passaram a autorizar financiamentos para correntistas de alto risco, tornando-se inevitável a queda na composição dos preços desses imóveis, comprometendo o retorno das aplicações e gerando aumento na inadimplência de suas hipotecas. Embora já preconizada, a gravidade da crise somente foi percebida quando em setembro de 2008, o 4º maior banco dos EUA, o Lehman Brothers faliu. Assim estabeleceu-se o caos.
O questionamento refere-se a quais serão suas conseqüências para economia nacional e regional. Para melhor compreender e avaliar os possíveis impactos na economia brasileira cabe-nos recordar que, já em 1999, o país ajustou o seu crescimento ao figurino econômico do Fundo Monetário Internacional (FMI). As propostas adotadas resultaram no fortalecimento da economia nacional, inclusive frente a possíveis crises internacionais. Cabe ainda ressaltar que os indicadores macroeconômicos, tais como redução da divida pública e aumento da poupança externa e interna, nos diferenciam, de forma positiva, dos demais países em desenvolvimento.
O momento atual apresenta um clima de pouca confiança, provocando redução do crédito e dos investimentos em Bolsas de Valores. Nesse ambiente, os reflexos na economia real se traduzem como sensível encolhimento financeiro. Agora, fato que minimiza efeitos nocivos, é a constatação de que os brasileiros sempre tiveram pouca tradição e quase nenhuma experiência na formação de poupança ou aplicações e investimentos de longo prazo. Também não temos no Brasil a mesma proporção de endividamento que ocorre nos EUA e Europa, certamente, porém, teremos redução do crescimento e certa desaceleração no ritmo de consumo. Já, essas economias mais densas poderão experimentar um período significativo de grave recessão.
A partir do retorno à normalidade, particularmente no que se refere à concessão de créditos, o Brasil poderá vislumbrar cenários bastante positivos, a curto e médio prazo (2009 e 2010), de fortalecimento do setor industrial, notadamente em função dos reflexos nas questões externas e na taxa de câmbio, que deverão proporcionar ao setor produtivo certo alívio para que possa se recuperar do longo período de invasão de produtos importados e das dificuldades de exportação.
A Região Metropolitana de Campinas, com um parque industrial abrangente, diversificado e composto por segmentos de natureza complementar e embora sujeita às conseqüências provocadas pela crise, deverá reagir com vigor, transformando esses impactos em fatores positivos, principalmente por sua estrutura produtiva estar alicerçada no consistente mercado interno. Destacando-se ainda a forte presença de centros inovadores no campo das pesquisas científica e tecnológica. Indispensável que se registre a forte preocupação regional com o planejamento criterioso que orienta seu crescimento de forma responsável e sustentável. A percepção que temos é que, com responsabilidade e senso de oportunidade, superaremos com facilidade esta crise assim como já o fizemos no passado. Sem menosprezar jamais as lições, boas ou más, resultantes do sistema econômico ao qual estamos submetidos.
Alexandre Eugênio Serpa, Economista, Empresário Industrial, Vice Presidente do CIESP e Diretor Titular de Ação Regional da FIESP.
Marcos Cintra
Muito se fala sobre a crise mundial, mas poucos se dedicam a analisar seus desdobramentos ao longo dos próximos meses. O debate atual mais parece uma pendenga entre torcidas organizadas.
De um lado estão os derrotistas, tentando mostrar que a crise já atingiu a economia, que será inevitavelmente sugada pela recessão nos países desenvolvidos. E de outro os ufanistas, mostrando que há um descolamento das economias emergentes como o Brasil, e que, portanto, a crise será apenas uma desaceleração no forte ritmo de crescimento recente. E nessa briga de rua, poucos discutem como será a economia mundial que emergirá.
A turbulência financeira que teve início em meados do ano passado atingiu seu ápice nos terríveis meses de setembro e outubro de 2008. Um ano, portanto, após seu início, a crise se avolumou e se espalhou de tal forma que semeou pânico ao redor do mundo.
A integração dos mercados mundiais e os desconhecidos e misteriosos instrumentos financeiros criados ao longo das últimas décadas fizeram um trabalho perfeito de quase completa destruição da credibilidade dos agentes nas instituições.
A preferência pela liquidez tornou-se irracional, jogando por terra qualquer análise objetiva dos conceitos que deveriam ser determinantes para a formação de preços de ativos financeiros.
Felizmente, tudo indica que esse tempo passou, apesar de deixar um rastro de destruição de valores por todo o espaço econômico mundial.
Cabe agora juntar os cacos e avaliar o que o futuro nos reserva.
Mas o pior será o rescaldo do atual quadro econômico. Por isso, lanço um desafio aos ufanistas e derrotistas para que eles apresentem, como contribuição efetiva ao debate, respostas aos seguintes questionamentos:
Como o mundo irá drenar a crescente liquidez que alaga os mercados mundiais? Como evitar as pressões inflacionárias que poderão surgir se nada for feito?
Como refluir os capitais públicos que invadiram os "board rooms" das empresas em todo o mundo?
Como evitar que a indispensável intervenção estatal seja confundida com a estatização da gestão e com o ultrapassado método de produção centralizada?
Como reconquistar credibilidade para o mercado e permitir que ele continue agindo como o melhor mecanismo gerador de riqueza já utilizado pela humanidade?
Como administrar o endividamento público e evitar o crescimento da carga tributária?
Como avaliar as conseqüências do forte realinhamento das taxas de câmbio?
Qual será o comportamento do dólar após o pânico que o transformou em porto seguro para os investidores inseguros?
Que blindagens contra futuras crises serão erigidas e que restrições ao crescimento econômico elas poderão implicar?
Como será a economia norte-americana após esse tsunami financeiro?
Sugiro que esses temas sejam analisados, pois o futuro será emocionante.
Marcos Cintra é doutor em Economia pela Universidade Harvard (EUA), professor titular e vice-presidente da Fundação Getulio Vargas.
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