Fôlego para os aposentados

Milton Dallari

Não é novidade para ninguém que os aposentados são a "menina dos olhos" das instituições financeiras, no que diz respeito a empréstimos consignados. Esse público é visto pelas entidades como isca fácil de atração, já que é movido pela necessidade constante de dinheiro - o que os idosos ganham com a aposentadoria é insuficiente sequer para a aquisição de remédios. São clientes de alto potencial. A boa nova nesse filão fica por conta do pacote anunciado pelo ministro da Previdência Social, Luiz Marinho, na primeira semana de março, embora as medidas não passem de mais uma tentativa de reduzir o alto endividamento dos aposentados.
A mudança de maior impacto se refere à redução dos juros no empréstimo consignado. Ele passa dos 2,64%, aplicados até o dia 5 de março, para 2,5%. A queda é de apenas 0,14%, mas já basta para que aposentados e pensionistas sintam a diferença no bolso. O teto cobrado no juro do cartão de crédito também diminuiu. Foi reduzido de 3,7% para 3,5% ao mês. É mais uma boa novidade para quem precisa recorrer à "ajuda" financeira.
O pacote do ministro Marinho trouxe outras modificações. Com as novas medidas postas em prática, agora fica proibido às instituições financeiras o estabelecimento de carência aos aposentados para o pagamento das prestações. Tal prática eleva os juros e engana o tomador do dinheiro, já que ele pensa que fez um empréstimo e que poderá começar a pagá-lo somente depois da carência, mas não sabe que os juros já correm durante o prazo dado como benefício. Cabe dizer aqui que a atenção deve ser total antes de se assinar qualquer empréstimo. Afinal, nada é dado gratuitamente e a "vantagem" oferecida em um momento certamente será cobrada mais adiante.
Mais duas medidas completam o conjunto de mudanças. A partir desse mês, o empréstimo ao aposentado será cedido apenas em seu estado de origem ou de residência. É mais uma medida importante, que deverá reduzir o número de fraudes de pessoas que ainda não se aposentaram e que, com documentos forjados, acabam conseguindo o benefício de aposentado. A outra nova regra impõe a proibição da reserva de margem do comprometimento de renda dos aposentados para possíveis emissões de cartão de crédito. Tal alteração na regra acontece porque algumas instituições financeiras reservam cartões em nome de segurados que sequer fazem o pedido, fato que acaba por impossibilitar o aposentado de escolher o banco com menor taxa de juro.
A novidade que todo aposentado espera - ou sonha - é ter uma renda mensal compatível com suas necessidades, em uma situação em que apenas com o dinheiro da aposentadoria possa desfrutar de uma merecida tranqüilidade. Porém, enquanto tal situação não passa de utopia e o empréstimo ainda continua sendo um recurso talvez necessário, saber que o governo está jogando a favor dos aposentados, que está desonerando um pouco esse grupo e inibindo taxas abusivas cobradas pelas instituições financeiras, já pode sim ser considerada uma boa notícia.
Milton Dallari é diretor administrativo e financeiro do Sebrae-SP e presidente da Associação dos Aposentados da Fundação Cesp.


Crise Política x Participação Popular

Maurício Batarce

É triste ter a sensação de que a história política do Brasil venha se repetindo há mais de cinco séculos, desde seu descobrimento por nossos patrícios portugueses. Naquela época o Brasil ainda estava se formando e muitos tropeços eram aceitáveis, já que qualquer criança que nasce tem que tropeçar, cair e levantar várias vezes até ter total domínio sobre seu corpo para andar com as próprias pernas.
Mas parece que essa criança que nasceu exuberante em função de sua grande diversidade de recursos naturais, de tamanhos continentais e cercada por uma onda de mistério devido ao seu sincretismo religioso, foi abandonada a própria sorte e tomou caminhos sinuosos, diferentes dos caminhos tomados pela maioria das crianças de sua época. Ou talvez seus pais não souberam educá-la, mesmo tendo todos os recursos disponíveis para investir na sua formação.
Independente de quem foram os responsáveis pela formação do Brasil, o fundamental é que essa criança cresceu, ganhou maturidade e hoje é vista, pelo mundo globalizado, como um adulto de grande potencial para investimentos, prestes a se tornar uma sumidade na superação dos mais diversos obstáculos para o desenvolvimento. E ainda assim, vários erros do passado parecem estar sendo praticados ainda hoje.
Há quem diga que a responsabilidade por esses erros, é da classe política do País, pois vivemos uma das maiores crises de valores políticos desde a repressão militar de 1964, quando a democracia foi solapada da nação em função de um golpe militar.
Mas de lá para cá já tivemos "Diretas Já!", Impeachment de um presidente e levamos ao poder, pelo menos em sua "essência", um representante político com grande respaldo popular. Tais fatos parecem ser um paradoxo diante do que dizem os críticos despreparados de plantão, que insistem em generalizar situações pontuais e partem para uma verdadeira "caça aos culpados", sem se dar conta de que os culpados podem ser eles mesmos, já que existe o poder do voto.
E essa colocação não pode ser considerada mera defesa da classe política brasileira, pois ao mesmo tempo que vivemos uma crise de valores políticos, também temos presenciado total apatia política da população brasileira na reivindicação de direitos e deveres e também na participação das decisões políticas do País.
A palavra "política" tem origem grega e vem da palavra "pólis", que significa "cidade", local de onde, até hoje, todas as reivindicações se originam. Além do mais, temos que agradecer aos gregos também por ter nos dado a palavra "democracia" ou "democratia", que quer dizer "governo do povo". Na antiga Grécia, o "povo", tinha maior participação política, mesmo que o conceito de "povo" da época fosse diferente do que é hoje.
Independente disso, os moradores da pólis grega iam ao Parlamento reivindicar seus direitos, para dar suporte à Democratia e hoje tudo isso foi esquecido, ou melhor, abandonado. Para perceber isso, basta fazer um pequeno acompanhamento da participação da população nas Câmaras Municipais, Assembléias Legislativas e Congresso Nacional. Sem esse envolvimento popular, hoje a política acaba sendo feita somente para políticos, embora ainda existirem alguns políticos que incentivem a participação popular nas decisões do País.
Assim, antes de sairmos em busca dos "culpados" pela situação do Brasil hoje, é preciso saber se temos feito alguma coisa para mudar essa situação que vivemos. Mesmo por que, querendo ou não, a classe política que aí está, foi eleita por todos nós, sendo que entre "nós", estão incluídos jovens acima de 16 anos, que são de uma das gerações mais democráticas que já existiu na história do Brasil e que têm acesso à maior quantidade de informações já disponibilizadas durante toda história do ser humano. Não adianta procurarmos "culpados" pela situação que vivemos hoje. Precisamos mudar essa situação e se quisermos mudar, basta assumirmos a mudança e fazermos parte dela e a única forma de fazer isso é tomar atitude de mudança, ser agente mutante. Talvez assim, poderemos fazer com que a democracia floresça novamente como na Grécia Antiga, isto é, através da participação popular.
Maurício Batarce - Jornalista Assessor de Imprensa da Câmara de Pedreira


www.diariosbo.com.br - email: editor@diariosbo.com.br