"CPC de portas abertas para que você abra seus olhos"

Eliane Pereira Lima

Quando falamos em ficar cego a gente se arrepia. A cegueira ou a baixa visão assusta a todos. Ela nos remete a um caos: enxergamos e não nos imaginamos sobreviver sem este sentido que nos organiza desde sempre no mundo. Dentre muitas perdas que a ausência de visão nos remete ela também nos faz confrontar com a nossa essência humana: quem sou?
Proponho uma brincadeira. Busque parar, fechar os olhos e ver. Tente se deslocar ou buscar algo no espaço em que se encontra. Depois tente se imaginar se virando no seu dia-a-dia sem a visão... Conseguiu? Muitos nem conseguem permanecer com os olhos fechados! Os que entram nesta vivência podem imaginar o que é ser cego. Mesmo assim, destaco que nós somente podemos imaginar e não sabemos o que de fato é ser. Explico. Enxergamos e a angustia é diferente quando sabemos que basta reabrirmos os olhos que voltaremos a ver. Muito diferente é a angustia de quem sabe que de olhos abertos ou fechados não depende de si voltar a enxergar.
A chamada do título se refere a um milagre que depende da sua sensibilidade e disponibilidade afetiva. Quer saber mais? Quer se compromissar com a conquista de um lugar ao sol a quem é de direito? Aqui há muita vida, alegria, garra, determinação e capacidade de superação. Esclarecemos. No CPC não realizamos cura oftalmológica, aqui não brincamos de Deus e nem temos o poder de restituir a visão a ninguém. Deixamos claro nossa intenção: nós estamos te convidando para abrir os seus olhos! Venha conhecer nossa instituição e nosso trabalho. Desejamos acima de tudo que você veja: saiba o que de fato é a ausência de visão, o que ela faz e como viver com ela. Queremos que entenda sem preconceitos o que é esta limitação sensória e reconheça o potencial do deficiente visual. Buscamos os seus olhos do coração e estamos de portas abertas para todos que estejam dispostos a facilitar a inclusão do diferente em nossa sociedade.
Quando nos chega alguém que perdeu em parte ou totalmente a visão em algum momento da vida sabemos que temos um longo caminho a percorrer, pois teremos que lidar com a morte e a vida: "a pessoa dotada de visão está morta, a cega que surge poderá tornar-se a mesma pessoa somente se estiver disposta a suportar a dor da perda da visão".
Hoje, oferecemos três programas aos que possuem baixa visão ou cegueira: Estimulação Essencial, Educação e Reabilitação. Realizamos serviços na área de saúde e educação aos que possuem baixa visão e precisam de adaptações. Já aos cegos possibilitamos o aprendizado do Braille (código de escrita e leitura) e técnicas de orientação e mobilidade, a exemplo da bengala longa.
Fazemos também um apelo a toda comunidade, às autoridades, principalmente, à comunidade médica, a todos profissionais de saúde e educadores: identifiquem e encaminhem o mais cedo possível, pois a intervenção precoce é a mola para a construção da identidade do deficiente visual e de todo o desenvolvimento do ser humano. Diz o ditado que "o pior cego é aquele que não quer ver". Nós, CPC - Centro de Prevenção à Cegueira de Americana, estamos de portas abertas aos que estão com o coração ligado à nossa responsabilidade social e compromisso de "ter olhos quando os outros os perderam". Vale lembrar que nossa sede é em conjunto com nossa Mantenedora LIONS CENTRO: Av. Bandeirantes, 2660 - Jd. Santana Americana - SP. Nosso telefone é o 3461-6364 para maiores informações. Vem pra perto você também!

Eliane Pereira Lima - Especialista em Psicologia Clínica, Organizacional e do Trabalho - CRP 06/43457


Os US$ 5 trilhões solucionarão a crise?

Marcos Cintra

A turbulência mundial surgiu nos EUA em 2007 e tomou proporções alarmantes com a crise de credibilidade financeira, que não deve ser confundida com crise de liquidez, sendo deflagrada pela imperícia das autoridades econômicas do governo Bush, que permitiram a quebra do banco Lehman Brothers.
O sistema financeiro tem efeitos econômicos semelhantes aos serviços de utilidade pública como energia elétrica, água e gás. Esses setores, que por suas características específicas compõem a infra-estrutura da economia, não podem deixar de existir, ou quebrar, sob pena de aniquilar toda a produção. Os bancos são semelhantes. Irrigam o sistema produtivo. A ausência de crédito, quase tanto como a falta de energia elétrica, paralisa a atividade econômica.
A barbeiragem dos norte-americanos foi permitir que um setor estratégico como o financeiro, cujos fundamentos estão assentados na credibilidade, confiabilidade e solidez, ficasse com sua imagem comprometida. Isto se deu pela quebra do Lehman Brothers, dando início à crise sistêmica que se alastrou pelo mundo globalizado. As expectativas se deterioraram, os empresários se retraíram e a liquidez passou a valer mais que a rentabilidade. Os investimentos cessaram, o comércio externo e o crédito encolheram e a retração econômica se instalou.
A injeção de US$ 5 trilhões de dólares (como anunciado pelo G-20) resolverá o problema? Os governos estão injetando liquidez na economia através de aumento de gastos públicos, não importando quais, desde que o dinheiro seja abundante.
Tais medidas ajudam a superar a recessão, como qualquer aumento de liquidez em qualquer fase do ciclo econômico faria para aumentar a demanda agregada. Mas, isto não vai ao cerne da questão que é a recuperação da credibilidade dos bancos. E parece que o mundo está dando cabeçadas sobre como restaurar a confiabilidade do sistema financeiro. Sobra liquidez, mas empoçada porque falta confiança.
O governo Barack Obama percebeu que a mera injeção de liquidez não resolveu o problema. E agora volta ao projeto inicial de Bush, propondo a limpeza dos balanços dos bancos mediante compras de ativos tóxicos Mas será que os bancos venderão esses títulos? Afinal, muitos desses papéis estão escriturados por valores históricos, pois a marcação a mercado não é universal nos EUA. A venda de títulos abaixo do valor escriturado evidenciará a fragilidade que os bancos tentam esconder, e agravará ainda mais a perda de confiança que os ameaça. O Plano Obama ainda é uma incógnita.
Quais os efeitos dessa inundação de liquidez? A ciência econômica ainda não rejeitou o fato de que a inflação é um fenômeno monetário. Assim sendo, o que nos espera no futuro? A liquidez aumenta, os déficits públicos explodem e o setor público cresce a cada dia. Voltaremos aos anos de 1970 e 1980, com inflação crescente, baixo crescimento, instabilidade, insolvências em cadeia e governos inchados?
O pêndulo uma hora irá para o outro extremo, com políticas fiscais e monetárias restritivas e baixo crescimento. Contudo, o que mais perturba é pensar que esse preço alto que o mundo pagará pelo expansionismo monetário atual poderá ser em vão se a crise de confiança no sistema financeiro não for urgentemente sanada.

Marcos Cintra é doutor em Economia pela Universidade de Harvard (EUA), professor titular e vice-presidente da Fundação Getulio Vargas. É Secretário Municipal do Trabalho de São Paulo.


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