Maria Izabel Azevedo Noronha
O novo secretário estadual da Educação, Paulo Renato Souza, tem pela frente uma missão tão difícil quanto importante: recuperar a qualidade do ensino, gravemente comprometida pela forma como vem sendo gerida a educação no estado de São Paulo.
O desempenho dos alunos da rede estadual de ensino em português, matemática e ciências, medido pelo Saresp - Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo de 2008, evidencia que a educação pública no nosso estado vai mal, e está piorando.
No ensino fundamental, a maioria das séries apresentou desempenho inadequado nas três disciplinas. Na 8ª série, 82,5% dos alunos não atingiram o nível esperado em português (19% a mais que em 2007). No caso de matemática e 88,4% dos alunos da 8º série ficaram abaixo do esperado (uma melhora de 6,2%). Em ciências, o índice foi de 83,3% dos alunos abaixo do esperado. No ensino médio, a situação é bastante ruim, embora com ligeiro avanço em relação ao Saresp 2007: em matemática, 94,8% não tiveram o nível esperado e, em português, 70, 6%.
Embora necessitemos de mais dados para entrar profundamente no mérito das metodologias adotadas no Saresp 2008, acreditamos que, em parte, os resultados demonstram que a mudança de metodologia - buscando a obtenção de resultados quantitativos mais favoráveis ao governo - resulta em distorções que aparecem, por exemplo, quando determinadas séries alcançam ligeira melhora mas todo um nível de ensino apresenta piora nos resultados.
O Saresp 2008 mostra que as políticas pontuais até então implementadas não são suficientes para resolver os problemas da educação no estado de São Paulo. Necessitamos de políticas duradouras, consubstanciadas em um Plano Estadual de Educação - P.E.E. que aponte diretrizes e metas para a melhoria da qualidade do ensino. A elaboração e aprovação de um P.E.E. pode demorar até dois anos, mas nada impede que definamos, desde já, diretrizes e metas que encaminhem soluções para os mais graves problemas hoje identificados.
Nossa concepção de escola aponta para um menor número de alunos em cada sala de aula, na perspectiva da melhoria da qualidade do trabalho pedagógico. Hoje há professores de disciplinas como Física e Química que são obrigados a assumir um total de até 500 alunos, de várias turmas, para compor sua jornada de trabalho, tornando praticamente impossível ministrar aulas com a qualidade desejada. Por que, então, não estabelecer, de imediato, um processo de redução paulatina da relação numérica professor-aluno na rede estadual de ensino?
Não será possível estabelecer um diálogo em torno da recuperação da liberdade do professor para definir seu plano de aulas, a partir de diretrizes centralmente determinadas; de sua participação da elaboração do projeto político pedagógico da escola; e de sua autoridade para avaliar os alunos, acabando com "aprovação automática" na rede estadual de ensino?
Finalmente, não se poderia trabalhar um processo de crescente ampliação da parte da jornada de trabalho do professor dedicada a atividades extra classes, o que significaria mais 13% em relação aos atuais 20%?
Não se pode mais considerar toda e qualquer melhoria do processo educacional como gasto. Para nós, o gasto se amplia na medida em que não se realizam os investimentos necessários na infra-estrutura das escolas, nas condições de trabalho, na formação continuada do professor no local de trabalho, nos materiais pedagógicos adequados ao projeto político pedagógico de cada unidade escolar, na valorização salarial e profissional dos professores. Os resultados do Saresp demonstram isto com toda a clareza: muitos gastos para poucos resultados.
Isto fica evidente no caso do chamado "turno da fome". Segundo o jornal Folha de S. Paulo, edição de 11/04/08, mais de mil crianças ficaram sem vagas no ensino fundamental na capital por causa da extinção do turno que vai das 11h às 15h, sem que novas salas de aula tenham sido criadas. Tal situação seria evitada se houvesse planejamento para a construção de novas salas e escolas, demonstrando que medidas fragmentadas agravam os problemas da educação.
Investimentos corretos na melhoria da educação, hoje, significam redução de gastos no futuro, pois haverá maior envolvimento dos alunos e melhoria do aprendizado, reduzindo a defasagem idade-série e também a necessidade de professores para aulas de reforço e recuperação dos alunos.
Nossas propostas são possíveis. Elas são factíveis e podem começar a ser implementadas aqui e agora. Confiantes nisto, lançamos um desafio: invista-se corretamente e estabeleçam-se políticas educacionais que sejam resultados do diálogo com os professores e comunidade escolar e a qualidade do ensino vai melhorar!
Maria Izabel Azevedo Noronha - Presidenta da APEOESP, Membro do Conselho Nacional de Educação
Armando Correa de Siqueira Neto
É importante cuidar da alimentação e da saúde dos filhos, mas é relevante também observar as motivações, as frustrações e o desenvolvimento das suas emoções, por exemplo, a fim de obter informações que, se analisadas devidamente, geram idéias sobre como educar de forma mais direta e mais acertada. Assim, as chances de errar diminuem consideravelmente. Porém, impõe-se um obstáculo colossal frente a esta situação: muitos pais não estão suficientemente próximos dos filhos. E agora?
Não há truque que dê jeito na educação. Ela é uma responsabilidade intransferível - as escolas não conseguem realizar o trabalho tipicamente familiar, que requer proximidade, apego, carinho, confiança, tempo e autoridade. Mas muitos pais justificam a sua ausência através da falta de tempo frente aos compromissos profissionais. Decerto que o sustento não pode ser comprometido. Todavia, o que não se leva em conta ao apontar o dedo da culpa para o cruel relógio das impossibilidades é que, justamente pelo deficiente convívio, a criança torna-se mal educada e nem os pais a suportam com o passar do tempo, além de não aprenderem como educar por manterem-se distantes e não colocarem a mão na massa. A situação fica cada vez mais intolerável e distante do desejável. É como se pais e filhos jogassem um jogo no escuro cujas regras não estão definidas e tampouco se tem prática a seu respeito. Em pouco tempo impera a chatice, o cansaço e a frustração. O que fazer?
Para aquele que deseja modificar a dramática situação, é recomendado que se autoavalie (o autoengano causa-nos a sensação de que fazemos o que podemos), além de ter em mente que a luta não dura um dia somente; ela continuará por tempo indeterminado, e o conhecimento e a persistência serão os elementos que podem assegurar melhor resultado. Então, deve-se estabelecer um acordo entre aqueles que cuidam da criança, definindo as regras que deverão ser respeitadas mutuamente, pois ao dividir as tarefas educacionais, além de dar atenção e carinho (legítimos), deve-se, ainda, ser firme e sério na hora de falar (sem grito), cobrar (hora do banho, lição escolar, comer, dormir) e deixar sem alguns prazeres pessoais (televisão ou jogos) por determinado tempo, quando necessário. Deve-se ainda explicar as razões que motivaram cada intervenção. Atender às birras, jamais; somente aos pedidos razoáveis, e não se deixar levar pelo manhoso lamento, pois ele seduz e engana. Com o tempo, os próprios pais perceberão que eles também se modificam. Para alcançar novo estágio requer-se de si mesmo nova consciência.
Não obstante, é natural que os pais se sintam frustrados mesmo diante do esforço empregado, haja vista a criança não ceder tão facilmente depois de tanto tempo sem o adequado limite. Você cederia? Mas é a aproximação do convívio, a firmeza de propósito, a dedicação, o aproveitamento qualitativo de cada minuto e a persistência que podem colaborar na fundamental mudança que se almeja. Lembre-se que o árduo e enraizado trabalho educacional dá frutos à criança e a quem dela cuida também. Entretanto, educar empenhadamente demanda decisão e atitude.
Armando Correa de Siqueira Neto é psicólogo (CRP 06/69637), diretor da Self Consultoria em Gestão de Pessoas, professor e mestre em Liderança pela Unisa Business School. Coautor dos livros Gigantes da Liderança, Gigantes da Motivação e Educação 2006. E-mail: selfcursos@uol.com.br
www.diariosbo.com.br - email: editor@diariosbo.com.br