Alonso de Oliveira
"Tudo morre: pais, irmãos, filhos, amigos, inimigos, esposas, amantes, gatos, cachorros e tias".
Há quase exatos cem anos, em 15 de agosto de 1909, morria o escritor, jornalista, engenheiro e professor Euclides da Cunha, numa frustrada tentativa de vingança contra o amante de sua mulher, Ana.
Frustrada porque o famoso autor do livro 'Os Sertões' tentara matar o tenente do Exército Dilermando de Assis. Para azar de Euclides Dilermando era exímio atirador.
Louco de ciúmes e estimulado por parentes e amigos a um acerto de contas, Euclides chegara de surpresa à residência de Dilermando, no bairro Piedade, no Rio de Janeiro, onde sua mulher havia passado a noite.
Completamente fora de si, portando um revólver que conseguira emprestado, invadira a casa gritando: "Vim para matar ou morrer". Mais assustado que alarmado, Dilermando correra a seu quarto para se vestir. Trajava redundantes mangas de camisa e queria usar a farda para enfrentar "o doutor", assim o chamava. Mal tivera tempo de abotoar o colarinho e Euclides o localizara, arrombara a porta com um chute, atirando com alguma direção certeira, alvejando Dilermando na virilha.
O tenente procurara tirar a arma da mão de Euclides. Contudo, debilitado, não o conseguira, tendo sido novamente alvejado, dessa vez no peito. Nesse momento, Dinorah, o jovem irmão de Dilermando, o qual também morava na casa, intercedera, tentando desarmar Euclides. Não tendo êxito, Dinorah ainda fora premiado por Euclides com um tiro na nuca.
Nesse intervalo, o tenente, no uso de todas as forças que conseguira reunir, pegara sua arma de fogo, que estava sobre o armário do quarto, atirando no pulso de Euclides para fazê-lo demover de seu intento vingativo. Apesar de ligeiramente ferido o escritor não perdera os movimentos, atirando novamente contra o rival. Na primeira tentativa o tiro não saíra a contento, mas acionando agora com êxito o revólver Euclides ferira Dilermando nas costelas direitas, causando-lhe imensa dor. Dilermando alvejado três vezes e achando que ia morrer, atirara em Euclides para matar. Com pontaria certeira, fulminara Euclides. Caído na soleira da porta, o escritor e engenheiro falecera alguns minutos depois.
Dilermando fora levado ao hospital somente depois de prestar declarações ao delegado de polícia. Situação inusitada nos dias atuais, pois uma pessoa ferida deve ser socorrida antes de mais nada. Ainda assim, sobrevivera. Ana, escondida no quarto dos fundos, com um filho pequeno nos braços, vira-se abandonada por todos ao final do confronto. Sozinha, carregando o bebê sob forte chuva, saíra a pé da residência em Piedade, rumando para a casa de sua mãe, a qual não quisera ampará-la para não manchar a reputação do pai, o general Sólon Ribeiro.
A opinião pública e parte da imprensa culparam Dilermando pela morte de Euclides. O tenente havia matado para não morrer, mas a condenação social devia-se ao fato de Dilermando ter-se relacionado com uma mulher casada, e casada com um dos homens mais respeitados do País.
Lamentável Euclides, homem culto, inteligente e escritor ter morrido assim, impelido muito mais pelo desejo de vingança nele inculcado por uma sociedade de cultura patriarcal e reacionária. Preconceituosa, não levara em consideração que mesmo no início do século passado - ainda hoje é assim - as necessidades femininas não estavam e não estão fincadas no mero arranjo familiar, onde casa, cama e comida ou a satisfação do conforto ou do luxo, ou, ainda, a aparência singular ou sua ostentação significassem sua realização plena.
Mas desgraça pouca é bastante... Dinorah, o irmão de Dilermando, estava na flor da idade e desenvolvia brilhante carreira na Escola Naval. Destacava-se como jogador de futebol do Botafogo, mas ficara paraplégico em consequência do tiro na nuca. Destruída sua vida, ele se matara.
Preso, processado e julgado por homicídio pela Justiça Militar, Dilermando terminara absolvido por legítima defesa. Casara-se com Ana ao sair da prisão.
Em 1916, por volta das 13 horas do dia 4 de julho, Dilermando estava no Cartório da Vara de Órfãos, pleiteando a guarda de Manoel Afonso Cunha, filho de Ana que se encontrava com familiares de Euclides. Um estampido atrás seguido de grande dor, as pernas lhe fraquejaram, a vista turvara-se, sobrevindo grande mal-estar. Voltando-se, distinguira um vulto conhecido vestindo uniforme de aspirante da Marinha. Era Euclides da Cunha Filho. Aos 18 anos procurava vingar a morte do pai.
Dilermando esperava que algum dos presentes desarmasse o rapaz, mas todos fugiram. Novo tiro nas costas. Percebia que não mais poderia permanecer inerte e lamentando profundamente tratar-se do filho de sua mulher, Dilermando sacara de sua arma, atirando três vezes, desmaiando após. Euclides da Cunha Filho morrera e Dilermando se restabelecera.
Tamanha tragédia com consequências tão funestas só podiam parecer enredo novelesco. Aliás, a Tevê Globo a abordara, focando, contudo, muito mais o relacionamento de Dilermando com Ana e o que provocava os índices do ibope: o caldo de ciúmes, ansiedade, medo do flagrante, dos comentários dos vizinhos etc., tão ao gosto dos telespectadores. Os jornais da época atribuíram a Dilermando uma predestinação divina, ao superar os ferimentos a bala que lhe foram impingidos por pai e filho e ter sobrevivido incólume. Matando-os, claro.
Sobre o amor que sentia por Ana, Dilermando declarava ao jornal Diário de São Paulo à época que seu único pecado era "ter amado, aos 17 anos, uma mulher casada cujo marido não conhecia e se achava ausente em paragens longínquas". Ana tinha 30 anos quando conhecera Dilermando, apaixonando-se por ele.
Ana nunca enganara Euclides. Jamais o "traíra", como se alegara à época e até hoje alguns repetem. Traição, aliás, fora o tema central abordado pela emissora global. Mas, Ana havia contado ao marido, assim que ele retornara de Canudos, estar enamorada de outro homem. Queria se separar de Euclides, mas ele não concordava com isso. Quem imaginaria que cem anos atrás alguém pudesse se separar para se juntar a outra pessoa, principalmente que uma mulher assim decidisse para se unir a um outro homem? Impensável... Até hoje diante de tanta evolução tecnológica.
Alonso de Oliveira, jornalista. Foi secretário de Administração, coordenador de Recursos Humanos e diretor de Suprimentos da prefeitura de Americana. RG 5.209.484. E.mail: alonsoliveira@hotmail.com. Do livro 'Matar ou Morrer, o Caso Euclides da Cunha', de Luiza Nagib Eluf.
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