Henrique Matthiesen
Transcorridos 55 anos do mais nefasto episódio de nossa história, o suicídio de Getúlio Vargas na manhã de 24 de agosto de 1954, ninguém contesta que ele inseriu o Brasil moderno com o Código de Minas, tomou posse como Chefe do Governo Provisório em 3 de novembro de 1930 e já no dia 14.11.1930 criou o Ministério da Educação e Saúde Pública e em 26.11.1930 o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio; fundou a Usina Siderúrgica Nacional de Volta Redonda, a Companhia Vale do Rio Doce, o BNDE (S) e a Petrobrás, e indicou a Eletrobrás. Hoje, em seu tributo vou rememorar feitos de menor ênfase, porém de acentuado acepção para a sociedade. Em 22 de janeiro de 1942, Getúlio rubricou o decreto-lei 4.048 instituindo o Serviço Nacional de Aprendizagem dos Industriários (SENAI), subordinado à Confederação Nacional da Indústria, com as competências de constituir em todo o país escolas de aprendizagem para habilitar operários, ministrar ensino continuado, aprimoramento e especialização de mão de obra. Ele acatava a uma demanda de Euvaldo Lodi, presidente da CNI, e Roberto Simonsen, presidente da Federação das Indústrias de São Paulo (FIESP), líderes empresariais que aprovavam a política nacionalista de Vargas.
Em 1932, ele inseriu a Carteira do Trabalho, extraindo a subversão de patrões e empregados das delegacias de polícia. No documento constava o ofício do trabalhador, seu salário e o direito de filiar-se a um sindicato, dados pessoais, representando a importância de sua cidadania. As consecutivas leis de proteção ao assalariado, salário mínimo, jornada de 8 horas, férias remuneradas, culminando com a Consolidação das Leis do Trabalho em 1º de maio de 1943, contendo mais de 800 artigos, afiançaram a concordância entre capital e trabalho que até hoje se verifica. Fato reto de nota foi a decretação da moratória da dívida externa em 1931/32, que resultou na anulação de mais de 50% da mesma, uma vez que na auditoria decorrente constatou-se que apenas 40% dos acordos estavam documentados. A propósito, assinale-se o descumprimento de norma da Constituição Federal de 05 de outubro de 1988 que determina no artigo 26 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias: "no prazo de um ano a contar da promulgação da Constituição, o Congresso Nacional promoverá, por meio de Comissão Mista, exame analítico e parcial dos atos e fatos geradores do endividamento externo brasileiro". Que diferença com o ato empreendido por Getúlio Vargas!
Outra atitude de estadista que merece ser rememorado. Em janeiro de 1942, realizou-se no Rio de Janeiro a Conferência Interamericana convocada pelos Estados Unidos, após a agressão japonesa a Pearl Harbor em dezembro de 1941 para definir sobre o rompimento de relações diplomáticas e comerciais dos 21 países latino-americanos com o Eixo, formado por Alemanha, Itália e Japão. Exceto Argentina e Chile, todos romperam com o Eixo e se comprometeram a munir a América do Norte com borracha e minério de ferro. Getúlio Vargas só divulgou a ruptura no último dia da reunião, após conseguir do presidente dos EUA, Franklin Delano Roosevelt, o acordo de apoiar a edificação da siderúrgica de Volta Redonda e a Companhia Vale do Rio Doce, resultante da encampação de multinacional Itabira Iron, que estava sentada em nossas reservas minerais e nada produzia. Roosevelt também celebrou o acordo militar para nos equipar armas e aparelhamentos militares no valor de US$ 200 milhões. O Brasil cedeu espaço para instalação de uma base aérea norte-americana em Parnamirim, Rio Grande do Norte, batizada de Trampolim para a Vitória. Participamos na 2ª Guerra Mundial com esquadrilha aérea da FAB e com a Força Expedicionária Brasileira (FEB), que atuaram heroicamente junto com os aliados na península italiana.
É fecunda a contribuição de Getúlio Vargas em todas as áreas da vida nacional. Na cultura popular, oficializou na década de 30 as escolas de samba, incluindo as regras de competição para o carnaval, como a escolha de temas históricos para os enredos e as fantasias. Ele foi entusiasta do teatro e dos shows musicais, comparecendo a numerosos espetáculos, aplaudindo os artistas e cumprimentando-os pessoalmente. Deu evidência do mesmo modo à música erudita, prestigiando e divulgando ao público brasileiro as composições de Villa-Lobos, autor de prestígio internacional. Quanto mais passa o tempo, agiganta-se a recordação das ações desbravadoras e das realizações concretas de Getúlio Vargas em prol do Brasil e da nossa gente.
Henrique Matthiesen é colaborador
Armando Correa de Siqueira Neto
Como de costume, as críticas contra os políticos mantêm-se vigorosas. A população irritada ataca seus "ovos e tomates podres" sobre aqueles que pintam e bordam com o dinheiro público. Algumas entidades também se manifestam na mesma direção. Entretanto, elas poetizam através de discursos tão pomposos quanto pálidos e de empobrecido alcance. Penso cá com os meus botões: são palavras ao vento, são letras feitas na areia da praia. Como de hábito, muito se fala e pouco se faz. Os resultados não vingam e o desgaste e a descrença vicejam. Não sugiro, contudo, que se deixe de falar o que se tem em mente. Seria impossível, pois na hora da raiva, não há quem detenha a explosão que faz vomitar o bolo de escândalos atravessado na garganta. A expressão não é apenas um direito social, ela é também uma maneira de se trocar impressões que podem estimular a reflexão e o desenvolvimento pessoal. Logo, a sua importância é inquestionável e merece ampla defesa.
O que falta, todavia, é a concretização do que se pensou e falou. Que razões impedem a sociedade de se organizar melhor e direcionar parte da sua energia à análise crítica acerca do assunto, ao planejamento e ao empreendimento, legal, dos atos que levem ao ajuste dos equívocos tão escancaradamente expostos no quadro político? Por que pouco se cobram os políticos que foram democraticamente eleitos para representar toda a sociedade? Eles, por ventura, são blindados? O seu poder sobrepuja toda a população? Afinal, quem elege quem?
Não adianta apenas protestar. Palavras ao vento não modificarão o cenário. Mexa-se. Não se intimide, nem se acomode. Fortifique o seu voto desde bem antes de as eleições chegarem. Elas começam, de verdade, quando o cidadão decide estudar com seriedade os passos dados por cada político durante a sua gestão. Mantenha-se atento às notícias pelos variados canais de comunicação. Pondere a respeito. Extraia conclusões próprias e discuta-as com conhecidos, procurando muito mais ouvir e compreender do que falar e impor. A democracia é um exercício que, quando mal praticado, faz enrijecer o diálogo e torna-se uma porta aberta ao autoritarismo e egoísmo. Por hora, precisamos de uma boa dose de sabedoria e altruísmo que nos conduzam ao bem-comum. Faça a sua parte. Só nós podemos dar jeito na questão.
Armando Correa de Siqueira Neto é psicólogo (CRP 06/69637), palestrante, professor e mestre em Liderança. Coautor dos livros Gigantes da Motivação, Gigantes da Liderança e Educação 2006.
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