As lições de Carlos Drumond de Andrade

Henrique Matthiesen

O poema moderno (quando foi documentado) e eterno de Carlos Drumond de Andrade são notórios: no meu caminho havia uma pedra. Havia uma pedra no meu caminho. Nenhum conceito mais perfeito do que esta para explanar as dificuldades que nascem de repente, não mais que de repente, para os que ocupam ou buscam o poder, e exprimir os entraves que brotam no caminho para os candidatos, e para o exercício do poder. E também para os projetos elaborados. A política é mutante e mutável. Quem poderia conjeturar a morte de Vargas da forma com que se deu? A conseqüência da CPI sobre o financiamento do Banco do Brasil chefiada por Ricardo Jafet, ao Jornal Ultima Hora de Samuel Wainer? Quem poderia admitir, no desencadeamento dos acontecimentos, o atentado da rua Toneleros ao jornalista Carlos Lacerda, criador da Tribuna da Imprensa? Quem poderia contar a renúncia de Jânio Quadros? Nenhuma pessoa. Muito menos seu antecessor, Juscelino, que aguardava retornar ao Planalto nas eleições diretas de 65. Os acontecimentos surpreenderam. Não se poderia calcular a destituição de João Goulart em 64.
Nenhuma pessoa poderia sequer admitir a presunção de Lacerda, que no governo da Guanabara liderou de fato a oposição a Jango terminasse sendo encarcerado e cassado pelo movimento do qual foi o principal líder e inspirador. Importa menos que tenha sido deflagrado em Minas pelo governador Magalhães Pinto. O comando da oposição a Goulart sempre esteve nas mãos, no clamor, na aptidão teatral de Carlos Lacerda. Há sempre uma pedra no caminho. Nenhuma pessoa poderia conjeturar que, depois de sua conquista nas urnas da redemocratização de 89, Fernando Collor acabasse sendo afastado da presidência da República. Foi de PC Farias ao impeachment. As eleições de 89 foram as primeiras determinadas em dois turnos. Leonel Brizola retornara de um extenso exílio que começou no Uruguai e terminou nos EUA, abrigado pelo presidente Jimmy Carter. Em 82, foi eleito governador do Estado do Rio de Janeiro. Seu sonho era -sempre foi- chegar à presidência do país. Não quis se eleger deputado federal em 86, para isso teria de renunciar seis meses antes do pleito. Foi a pedra do seu caminho. Três anos após, pela querela de um ponto (16 a 15) perdeu para Lula o direito de enfrentar Collor no segundo turno. Colocou mal a trajetória. Sua idéia salvacionista abandonou o valor da articulação que teria podido desenvolver investido do mandato parlamentar. Cambaleou na própria sombra. Nela havia uma pedra. Não foi a única. O PDT, seu partido, dominava as ruas dividindo as áreas reformistas com o PT.
Mas no acontecimento do impeachment, em 92, opôs-se a ele. Brizola e o PDT submergiram. O PT assumiu todo o ambiente das oposições. Ou quase todo. Anos depois, em 2002, esse processo tornou-se terminante para a eleição de Lula e, quatro anos em seguida, sua reeleição. Deve agradecer a Drumond de Andrade, sai arte, sua pedra, sua poesia. O alento da realidade inesperada, contida na imagem que fica para sempre como emblema exato da dificuldade humana e dos imprevistos que a envolvem projetando o inesperado a qualquer momento. Muitos outros modelos, acoplados da lembrança, poderiam ser incluídos. Mas basta somente mais um. A pedra que a fortuna alocou na sociedade Brasileira e sua classe política.
Quando será que essa pedra que aparta, os anseios de uma política reta, ética... Será removida.
Não se sabe, porém, velhas figuras do atraso estão diante de varias pedras em seus caminhos, porquanto começa no Brasil a ser desmascarados os verdadeiros coronéis da pátria.
Mas ainda há pedras no caminho.
Henrique Matthiesen é colaborador


Começo ruim e final consagrador

Antonio Carlos Pannunzio

Faltavam 45 minutos para a meia noite, naquele julho de 1969, quando o senador Ted Kennedy, então com 37 anos, decidiu deixar Martha's Vineyard, no litoral de Massachusets, depois de participar de uma festa, e retornar ao seu hotel em Edgartown. Para isso, teria de rodar velozmente pelas estradas da ilha e chegar a tempo de tomar a última barca que ligava a ilha ao continente.
O senador, que habitualmente não dirigia, pediu as chaves do carro e saiu, levando consigo a jovem Mary Jô Kopechne, integrante de sua equipe, que se sentira mal durante a noite. Ao cruzar uma pequena ponte, em Chappaquiddick, perdeu a direção e o carro caiu na água. Ele escapou nadando, mas não prestou socorro à acompanhante e só na manhã seguinte comunicou o ocorrido às autoridades.
O incidente destruiu suas possibilidades de chegar a presidente dos Estados Unidos, a exemplo de seu irmão mais velho, John, assassinado em 1963, no exercício do mandato, e como quase conseguira o irmão do meio, Robert, igualmente morto a tiros durante as primárias, em 1968.
O Kennedy que faleceu esta semana, no exercício do oitavo mandato consecutivo pelo Massachusets (nos Estados Unidos, os senadores são eleitos por quatro anos), era um homem muito diferente do de quarenta anos atrás.
Tivera papel fundamental na aprovação de cerca de 15 mil leis, com destaque para aquelas na área dos direitos civis, que beneficiaram principalmente minorias étnicas, idosos e trabalhadores mal remunerados.
Destacou-se como um construtor de consensos entre democratas e republicanos, tornando-se conhecido como o Leão do Senado. E dedicou seus últimos dias naquela casa à luta para ver aprovada uma lei que criaria o seguro saúde universal, eliminando uma das grandes vergonhas da sociedade americana - o desamparo em matéria de assistência médica e hospitalar em que vivem milhões de cidadãos de poucos recursos.
Na campanha eleitoral do ano passado, seu apoio foi decisivo para tornar um senador novato, Barack Obama, um candidato viável à Presidência, a quem ajudou a vencer, dentro do Partido Democrata, uma máquina totalmente favorável a então senadora Hillary Clinton. O discurso por ele pronunciado na convenção democrata foi fundamental para consolidar a preferência por Obama.
Teve, entretanto, de sair às pressas da festa de posse, por conta de um câncer incurável, no cérebro, identificado no correr do ano passado.
Ted Kennedy chegou ao Senado americano sob suspeitas e críticas. Assumiu, inicialmente, como suplente do irmão, John, quando este elegeu-se presidente. Soube, porém, reconstruir-se e mostrou, em 47 anos de trabalho como senador, que tinha luz e convicções próprias.
Delas não se afastou durante a maré montante do conservadorismo que tomou conta de seu país e com base nas quais ajudou a conduzi-lo a um novo compromisso com a democracia e o desenvolvimento.
Antonio Carlos Pannunzio - Deputado federal, membro das comissões de Relações Exteriores e de Defesa Nacional (CREDN) e de Constituição e Justiça (CCJ), ex-líder de bancada e ex-presidente do Diretório Estadual do PSDB/SP.


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