Antonio Carlos Pannunzio
No ritual das relações entre o Executivo e o Congresso, nos Estados Unidos, um dos momentos mais solenes é aquele em que o presidente da República ali comparece para ler, aos deputados e senadores, a mensagem sobre o Estado da União.
Nele, apresenta uma visão geral dos problemas a enfrentar e das oportunidades disponíveis e anuncia como pretende equacionar aqueles e aproveitar estas utilizando os recursos do orçamento que, naquele instante, submete aos legisladores.
Este ano, por motivos fáceis de estender, a solenidade ganhou dimensão internacional. Era o primeiro discurso oficial do presidente Barack Obama ao Congresso e ele teria de dizer, a partidários e adversários, como pretende lidar com uma insólita combinação de coisas ruins: o maior déficit público da história do país, uma crise econômica sem precedentes e a brutal desaceleração da economia que põe em risco a sobrevivência de algumas de suas maiores empresas e o emprego de milhões de pessoas que delas dependem, direta ou indiretamente.
Em seu discurso, Obama fez constatações graves sobre a situação da economia, apontou focos de ineficiência e má destinação de recursos na administração pública em áreas nevrálgicas como saúde e educação e delineou várias propostas polêmicas, que dividem o Congresso e a opinião pública.
Isso não impediu que, em quase quarenta ocasiões, os legisladores se levantassem e o aplaudissem com grande entusiasmo. O final lembrava uma noite de autógrafos: dezenas de parlamentares o procuraram para conseguir sua assinatura no livreto do discurso que ele acabara de ler. Ao apresentar sua proposta para uma retirada responsável das tropas americanas do Iraque, o senador McCain, seu adversário na eleição de novembro, somou-se aos aplausos.
Tudo isso faz supor que as propostas de reconstruir os Estados Unidos, promover seu reencontro com o desenvolvimento e estender a mão aos setores da sociedade americana mais duramente sacrificados, agradam seus correligionários democratas e ecoam favoravelmente entre muitos republicanos. Não se imagine, entretanto, que se tenha chegado a algo parecido com um pleno consenso acerca dos rumos a seguir. O eco dos aplausos não havia desaparecido totalmente e adversários do presidente já alfinetavam suas propostas.
O importante é que Obama falou com notável transparência. Atacou, inclusive, o cerne do argumento neoliberal de que os Estados Unidos se construíram, basicamente, pelas decisões do mercado. Contrapondo-se ao mito, recuou aos dias da Guerra de Secessão para lembrar que o gravíssimo conflito não impediu o Estado de respaldar a ligação ferroviária do país, de costa a costa, iniciativa essencial ao ciclo de desenvolvimento que a ela se seguiu. Foi uma defesa serena, firme e didática do intervencionismo do Estado como instrumento usual de superação dos periódicos impasses que travam a economia.
Esse mix de firmeza, responsabilidade e sinceridade é indispensável, mesmo à nação mais poderosa do mundo, quando uma grande crise faz com que ela perca o rumo.
A transparência que marcou a fala de Obama deve servir de exemplo ao governo brasileiro que, chamado a lidar com a embaraçosa liquidação de postos de trabalho na Embraer, empresa beneficiada por seguidas iniciativas oficiais, tenta fazer a opinião pública acreditar que não sabia que a degola, anunciada com antecedência e até incluída no clipping do presidente, iria acontecer.
Temos muito trabalho duro a fazer para superar os efeitos do que, em dado momento, foi chamado de marolinha e se revelou o mais sério desafio de décadas recentes ao nosso desenvolvimento. Executá-lo supõe um mínimo de coesão entre lideranças de diferentes tendências e aspirações. Coesão que só se consegue se tiver como alicerce a sinceridade, ingrediente que tem faltado às envergonhadas tentativas do governo de explicar porque nada fez para evitar as demissões na Embraer.
Antonio Carlos Pannunzio é Deputado federal, membro da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, ex-líder de bancada e ex-presidente do Diretório Estadual do PSDB de São Paulo.
Armando Correa de Siqueira Neto
Não importa se os vizinhos agem de forma semelhante. Se vários colegas do trabalho concordam entre si com certas questões. Se os parentes falam a mesma coisa. Se a história reconta o passado estimulada pelos fatos presentes. Se a mídia exibe a mesma situação repetidamente. Se a maioria faz tudo quanto faz. Conveniência?
Nada deve interessar se você não analisa criticamente cada impressão que recebe. Portanto, é um dever opor-se à opinião de terceiros sem apreciá-la primeiramente, para não tropeçar e, pior, ao cair, apontar o dedo da culpa para os outros. Boa parte da responsabilidade pessoal é fruto da consciência sobre si mesmo, admitindo que se errou ao agir inconscientemente. Aquele que não ilumina o seu caminho através da reflexão, vaga errante nas picadas escuras formadas pelos retalhos das ideias alheias. Só você é capaz de lançar compreensão sobre os pensamentos e atos com os quais convive. Seja você mesmo!
Por não ter consciência sobre o que pensa, o homem concorda com muita coisa que sequer lhe diz respeito, no intuito de, pelo menos, mostrar-se cordato com os demais de convívio. Na ausência da opinião crítica individual, resta-lhe a concordância cega do pensamento coletivo. Medo de ser rejeitado? É um tipo de compensação, ainda que despercebida, efetiva no seu propósito. Parte e todo, pois, andam morosa e empobrecidamente.
É preferível desagradar a alguns e evoluir solitariamente a manter-se preso ao atraso do grupo. Cumpre dizer, contudo, que não é pela discordância que as pessoas se separam - ela, ao contrário, aproxima aqueles que nela enxergam proveito -, mas pelo desinteresse que se instala à medida que um avança e outro fica para trás. O ser humano agrupa-se socialmente por interesses particulares que atendam necessidades e desejos próprios. Ao perder tais proveitos, dá novo direcionamento às relações, buscando inusitados horizontes, ainda que negue a importante mudança, pelo sentimento de culpa que pode imprimir pressão e pesar.
Não é simples atravessar o deserto da transformação pessoal ao separar-se das pessoas de convívio, todavia há ganhos que não apenas compensam, mas elevam o entendimento de que a evolução cobra por cada passo dado e o seu preço é mais do que justo. Interessantes personagens atraem e são atraídos, gerando renovada e oportuna roda de convivência, além do alargamento da consciência que dá testemunho, cada vez mais, dos próprios atos que, por sua vez, são fruto da reflexão e não do acaso que é par constante da inconsciência. Seja você mesmo!
Armando Correa de Siqueira Neto é psicólogo (CRP 06/69637), diretor da Self Consultoria em Gestão de Pessoas, palestrante, professor e mestre em Liderança pela Unisa Business School. Co-autor dos livros Gigantes da Motivação, Gigantes da Liderança e Educação 2006. E-mail: selfcursos@uol.com.br
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