Todos em peleja

Henrique Matthiesen

O cataclismo econômico-financeiro, fruto de avidez e de embustes, encobriu de angústia para milhões de pessoas que perderam suas economias, seus domicílios e seus postos de trabalho. Quem fala deles? Os verdadeiros responsáveis se agrupam mais para salvaguardar ou convencionar o sistema que lhes afiance preeminência sobre os demais atores do que para desvendar passagem com características de racionabilidade, assistência e compaixão para com as acometidos e para com toda a coletividade.
Esta conjuntura traz à claridade outras conjunturas que, quais espadas de Dâmocles, estão amargurando sobre a cabeça de todos: a climática, a energética, a alimentaria e outras. Todas elas remetem para a crise do paradigma predominante. A conjuntura de desordem generalizada acende questões metafísicas sobre o sentido do ser humano na adjacente dos seres em desenvolvimento. Neste período emudecem os pós-modernos com o seu every thing goes. Almejariam eles ou não, há coisas que têm que valer há sentidos que deve ser resguardado, caso contrario nos enchafurdamos no mais ordinário descaramento, expressão de densa repulsa pela existência.
Já há tempos que pensadores como Teilhard de Chardin ou René Girard advertiram certo abuso de perversidade no caminho do desenvolvimento consciente. Aludo um pensamento de Girard, estudioso da brutalidade: "Tudo parece evidenciar que as forças causadoras da brutalidade neste mundo, por pretextos emblemáticos que eu tento compreender, num certo nível são mais poderosos que a harmonia e a unidade. Este é a exterioridade sempre contemporânea da perversidade original, enquanto, para alem de qualquer percepção mítica, representa uma denominação para a bestialidade na história". Não há por que abdicar este nebulosa sentença. Simplesmente o pensamento da esperança versus toda a esperança, da misericórdia e da utopia nos apresenta com um pouco de luz.
Mesmo assim, há que coexistir com a abantesma de que somos seres com desmedida aptidão de autodestruição, até o derradeiro homem. Há anos uma análise alemã sobre as guerras na história da humanidade, referida por Michel Serres em seu derradeiro livro Guerre mondiale (2008), chegava aos seguintes dados: de três mil anos antes de nossa era até o atual período, três bilhões e oitocentos milhões de seres humanos teriam sido trucidados, muitos deles em guerras de total aniquilamento. Só no século XX foram mortas duzentos milhões de indivíduos. Como não se interrogar, honradamente, sobre o caráter deste ser complexo, ilógico.
Hoje vivemos uma ocasião inteiramente incomum. É a guerra coletiva contra o próprio Mundo, ou seja, contra o Planeta Terra. Até a iniciação da guerra total por Hitler (totaler Krieg), as guerras possuíam seu cerimonial: eram entre exércitos. Depois passaram a ser entre Estados e entre povos: era a guerra de todos contra todos. Hoje ela se radicalizou: é a guerra de todos contra o mundo, contra o planeta. Pois é isso que está implicado em nosso paradigma civilizacional que se propôs explorar e sugar, com brutalidade tecnológica, a soma dos recursos do planeta Terra. Com seqüelas, agredimos a Terra em todas as suas frentes, nos solos, nos subsolos, nos ares, nas florestas, nas águas, nos oceanos, no espaço exterior. Qual é o canto da Terra que não seja parte de absorção e de predomínio por parte do ser humano?
Há feridas e sangue por todas as partes, sangue e feridas de nossa Mãe Terra. Ela geme e se contorce nos abalos sísmicos, nos tsunamis, nos ciclones, nas enchentes devastadoras em Santa Catarina e nas secas terrificantes do Nordeste. São sinais que ela nos está expedindo. Cabe interpretá-los e transformar o nosso comportamento. Esta guerra não será ganha por nós. O planeta Terra é paciente e com aptidão desmedida de agüente. Como fez com tantas outras espécies no passado, oxalá não determine livrar-se da nossa, adjacentes gerações.
Não nos satisfaz a aspiração do filósofo Kant da paz perpétua entre todos os povos. Necessitamos com urgência fazer um pacto de paz perene de todos com a Terra. Já a afligimos descomedidamente. Importa pensar-lhe as feridas e cuidar de sua saúde. Só então Terra e Humanidade terão uma fortuna minimamente afiançada.

Henrique Matthiesen é colaborador


Escolhas Reprodutivas

Maria Helena Vilela

O Direito às escolhas reprodutivas livres e responsáveis - É o direito de decidir ter ou não ter filhos, o número e o tempo entre cada um, e o direito de acesso aos métodos de regulação da fertilidade.
Sexo engravida. A reprodução é função natural do ato sexual! Entretanto, com a evolução da humanidade, o sexo deixou de ter apenas a função reprodutiva e tornou-se uma manifestação de desejo e de prazer entre um casal. Tal mudança provocou uma procura pelo sexo, muito mais voltada para a vivência prazerosa, do que para o objetivo de ter um filho. O problema é que o nosso organismo não consegue fazer a distinção entre as motivações para o sexo e impedir que ocorra uma gravidez, quando este não é o propósito do casal. Por isso é necessário que as pessoas façam uso de métodos contraceptivos.
Até a década de 60, antes da descoberta da pílula anticoncepcional, as pessoas dispunham de poucas alternativas para se prevenir de uma gravidez. O que existiam eram os métodos naturais, que falham com uma freqüência muito alta; e a camisinha, que era pouco difundida, e nem sempre fácil de ser adquirida. Mas esta não é mais a nossa realidade. Em pleno século XXI, muitas conquistas científicas foram obtidas no campo da contracepção, de tal forma que podemos exercer o direito de decidir o melhor momento para ter um filho, sem que para isso a natureza sexual de cada pessoa seja agredida, inclusive na adolescência.
No Brasil, os jovens são os que menos exercem os seus direitos reprodutivos. Enquanto, nos últimos 10 anos, o número de partos por ano, diminuiu na idade adulta, na adolescência, aumentou 2%. Em 2004, de cada 100 bebês que nasceram 26 eram filhos de garotas entre 10 e 19 anos. Vocês acreditam que a adolescência é um bom momento para se ter um filho? Se sua resposta for não, conheça os métodos contraceptivos, ponha em prática a sua cidadania e fique fora desta estatística.
Muitos são os métodos anticoncepcionais, uns mais eficientes, outros menos. Há os métodos naturais (pouco eficientes), os mecânicos, os hormonais e os de barreira. Estes últimos (camisinha masculina e feminina) são mais práticos e acessíveis para os adolescentes, sendo muito eficientes quando utilizados corretamente.
A grande maioria dos métodos contraceptivos foi desenvolvida para ser usada pelas meninas. Isto dá à mulher uma maior autonomia na decisão sobre a maternidade, mas não significa que a prevenção deva ser uma responsabilidade só dela. Os meninos também podem participar ativamente do processo. Aliás, aquele garoto que quer ter a certeza de que não corre o risco de "ficar grávido", deve usar a camisinha em todas as relações sexuais, independente do fato de a namorada estar usando um outro método contraceptivo. Usar a camisinha é a única forma de o menino ter o controle sobre a paternidade. Engravidar deve ser uma escolha e não uma fatalidade!

Maria Helena Vilela é diretora executiva do Instituto Kaplan - www.kaplan.org.br


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