Mama ou Próstata José Aristodemo Pinotti

Neste último ano, o dobro do espaço nos jornais foi dedicado ao Câncer de Próstata, comparado com o de Mama. Na melhor das hipóteses, decorre do movimento de liberação masculina, na trilha da teoria hegeliana de tese, antítese e síntese, ou na pior delas à permanência da discriminação da mulher.
Quero lembrar, nesta semana de homenagem a mulher, que um milhão delas, este ano, terão Câncer de Mama. Contrariamente ao conceito predominante - de que Câncer de Mama é doença dos países e das mulheres ricas - mais da metade desses tumores ocorrerão nas nações em desenvolvimento, onde, não só a incidência como a mortalidade crescem mais do que nos desenvolvidos. No Brasil, em 20 anos, dobrou o número de casos e o número de mortes. Neste ano, ultrapassaremos 50.000 mulheres e 10.000 mortes.
Quando diagnosticamos tumores menores do que 1 cm - e isso é perfeitamente possível usando-se a mamografia - curamos 90% dos casos, conservamos a mama em perto de 100% e graças à técnica do gânglio sentinela, preservamos a axila em 90% das operadas. Com a colaboração dos cirurgiões plásticos, muitas mulheres saem do Centro Cirúrgico com a mama esteticamente melhor do que entraram e o tratamento custa quatro vezes menos do que nos casos avançados.
Parte desses tumores (6%) são genéticos, e temos formas de preveni-los parcialmente através de medicações ou cirurgias. Conhecemos os fatores de risco dos outros 94%, quase todos decorrentes de hábitos de vida. Alguns deles podem ser modificados, como a idade da 1ª gravidez, número de partos, lactação no peito, número de ciclos menstruais, obesidade e uso de hormônios que deixou de ser uma panacéia na menopausa, para tornar-se um tratamento útil desde que com a droga certa, em dose mínima e por tempo limitado.
Porque então, com tudo isso, a mortalidade continua aumentando no País inteiro. Começa pela burocracia para fazer mamografia. A paciente deve ir ao Centro de Saúde para marcar uma consulta (poucos Centros de Saúde têm ginecologistas, que estão com agendamento lotado), quando ela consegue a autorização, o exame, o resultado e o retorno são também etapas demoradas e burocratizadas. Se tiver alguma imagem suspeita, novos e múltiplos exames... novas e múltiplas esperas. Qual a mulher, que trabalhando fora e com filhos, consegue vencer essas barreiras, que de formas diferentes, acontecem também em bom número de planos de saúde. Tudo isso é desnecessário pois, para fazer uma mamografia, basta ter mais de 40 anos, e isso é lei (nº 11.664 de 29/04/08).
A outra é a conduta equivocada do Instituto Nacional de Câncer (INCA), que determina o uso do exame para apenas 50% das mulheres acima de 50 anos nos 1223 mamógrafos públicos instalados, que devem fazer somente 16 mamografias por dia. Com essas regras absurdas eles atendem uma pequena parcela da população. Pesquisa do PNAD (2006) mostra que 49,7% das mulheres, com mais de 50 anos, sequer fizeram uma mamografia.
Se quisermos realizar diagnóstico precoce e diminuir a mortalidade, a mamografia deve ser feita a partir dos 40 anos (não dos 50), e é evidente que a capacidade instalada dos mamógrafos é de 40 mamografias/dia (não 16). Com seu uso adequado, poderíamos cobrir todas as mulheres que precisam, sem comprar sequer um mamógrafo a mais. Ao invés disso, continua-se comprando mamógrafos e deixando-os na ociosidade.
Falta também educação para Saúde e Controle Social, pois na mesma pesquisa do PNAD, 67% das mulheres não sabiam que a mamografia era o método correto de detecção.
Finalmente, a terapêutica oferecida é precária na maioria dos convênios e em alguns Hospitais Públicos, negando às mulheres a prática de reconstrução (Lei 10.223 de 2001), a técnica do linfonodo sentinela, remédios necessários como Trastuzumab e outros, e a terapêutica em Centros de Referência com médicos especializados.
Não li todos os textos sobre Câncer de Próstata, mas, posso garantir que o que disse aqui, mutatis-mutandis, vale também para essa glandulazinha incômoda. Portanto, cancelando a brincadeira inicial, o que precisamos é uma gestão competente dos Serviços de Saúde públicos e privados, olhando para o usuário.

nJosé Aristodemo Pinotti, 74, Secretário Especial da Mulher do Município de São Paulo, Professor emérito da USP e da Unicamp e Membro da Academia Nacional de Medicina - Cadeira 22. Foi Secretário de Educação (1986/87) e Saúde(1987/91) do Estado e, também, do Município de São Paulo. Presidente da Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia (1986-1992) e Reitor da Unicamp (1982-86)


Hanseníase: uma batalha a ser vencida

Prof. Dr. Antonio Carlos Lopes

A hanseníase, equivocadamente conhecida como lepra, traz em seu nome uma homenagem a Gerhard Amauer Hansen, médico norueguês que descobriu, em 1673, o bacilo de Hansen, seu micróbio causador. É uma doença praticamente erradicada em todo o planeta.
Infelizmente este não é o caso do Brasil, que figura entre os nove países no mundo que ainda não conseguiram erradicá-la. Pior ainda: com cerca de 40 mil novos casos ao ano, ocupa o segundo lugar em números absolutos, atrás apenas da Índia. Aliás, em 2007, pouco mais de 41 mil pacientes encontravam-se em tratamento.
Segundo o documento Vigilância em Saúde: situação epidemiológica da hanseníase no Brasil - 2008, divulgado em janeiro deste ano pelo Ministério da Saúde, mais da metade dos casos concentra-se em regiões isoladas do país, em extensas áreas geográficas, conferindo maior complexidade para intervenções efetivas.
O mesmo estudo mostra ainda que os novos casos da doença estão concentrados em dez grandes áreas do país. Cerca de mil municípios brasileiros nas regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste registraram 53,5% dos novos casos diagnosticados entre 2005 e 2007. Em termos populacionais, no entanto, as cidades avaliadas concentram 17,5% dos residentes no país.
O estudo cita como exemplo a região Amazônica, na qual a intensificação da vigilância epidemiológica nas áreas endêmicas e a manutenção de ações efetivas dependem de mobilização social, vontade política e compromisso.
Ainda hoje, a falta de informação é o maior agravante para a disseminação de mitos e discriminação que rondam a hanseníase e seus portadores. Equivocadamente, o medo de ser infectado prossegue rondando a sociedade, que teme contrair a doença em um aperto de mão, abraço, ou pelo compartilhamento de copos ou talheres.
Ela apenas é transmitida se a pessoa infectada apresentar a forma contagiante, ou seja, se não estiver em tratamento. Só assim continuará eliminando os bacilos de Hansen pelas vias respiratórias, por meio de secreção nasal, gotículas da fala, tosse ou espirro. No entanto, após iniciado o tratamento, o paciente deixa de transmiti-los, mesmo antes da cura.
A doença acomete a pele, os nervos periféricos e também a mucosa nasal, além do fígado, dos testículos e dos olhos, mas é curável. Quantos antes for feito o diagnóstico e iniciado o tratamento, mais fácil será o tratamento e menores serão as chances de sequelas.
Por este motivo, manchas na pele de cor esbranquiçada ou avermelhada, nas quais a pessoa perde a sensibilidade ao calor, à dor e ao toque, que aumentam e ficam ainda mais dormentes, devem ser mostradas a um médico imediatamente. Entupimento do nariz, formigamento nas mãos e pés, inchaços nas mãos, pés, rosto e orelhas, problemas nos olhos e até mesmo esterilidade masculina podem ser indícios da hanseníase.
Como a doença tem uma lenta evolução, podendo levar de dois a sete anos para começar a apresentar os primeiros sintomas, é importante que familiares e amigos que tiveram contato com alguém recentemente diagnosticado com hanseníase também façam uma avaliação médica.
Postos e centros de saúde, Programa de Saúde da Família (PSF) e outras unidades da atenção básica de saúde à população devem oferecer exames para diagnóstico, orientação e tratamento gratuitos.

nProf. Dr. Antonio Carlos Lopes é presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica


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