Homo entorpecidus

Armando Correa de Siqueira Neto

Desde que os nossos ancestrais pré-históricos iniciaram o desenvolvimento do neocortex, ou camada de massa cinzenta cerebral mais recente, cuja função diz respeito ao uso da razão - já existiam outras estruturas primitivas relacionadas ao instinto e às emoções -, muita coisa mudou. Saltos tecnológicos conduziram o homem até ao quase inimaginável. Da pedra lascada à modificação genética, o mundo foi testemunha de cada avanço obtido através do pensamento e da ousadia. Mas tal avanço revela dois aspectos dignos de nota: a evolução, por um lado, gerou o convívio regrado entre as pessoas pelas determinações do que se convencionou chamar de sociedade, e, por outra parte, as razões que levaram o ser humano a empreender (e aceitar), obstinadamente, tamanha empresa. Indaga-se, pois: que motivos impulsionaram o homem a inventar tanto?
É possível estabelecer facilmente duas justificativas. Uma delas é o conforto, pois nós somos atraídos pelo prazer e inversamente repelimos o desprazer, reforçando, portanto, o apego ao bem-estar que deriva de cada invento, além da economia de energia e acomodação pessoais que se estabelecem inevitavelmente.
Outra prova versa sobre o desenvolvimento humano, considerando-se tanto a aprendizagem quanto a mudança - elementos fundamentais à sobrevivência e ao progresso evolutivo -, sem as quais seria impossível a convivência humana.
Inicialmente, o ser humano teve que lidar do modo mais grosseiro com os reveses impostos pela vida. Para melhorar a condição em que se encontrava precisou pensar e aprimorar o intelecto. Eis o preço cuja moeda foi a reflexão. Todavia, quanto mais penetrava no novo universo da sapiência, tanto mais se abriam os seus olhos diante de novos problemas mais sutis e menos motivadores: a natureza mostrava-se nua e crua para aquele que conseguira superar alguns graus de inconsciência a esse respeito. Do ser tosco e sombrio que ficava para trás, em razão do homem que desabrochava na direção da luz do saber, rompeu-se a cegueira que camuflava a causticante realidade. Nasceu dai uma dor, profunda e agonizante, levando o seu autor a ter de se defender. Eis a maçã bíblica do paraíso?
Porquanto após trágico diagnóstico, restava ao enfermo o automedicamento cuja cura lhe asseguraria a retomada do prazer roubado pela olhadela que dera na inoportuna realidade. Foi então que, sem se dar conta, passou a fazer uso do autoengano, tornando as coisas mais suaves, pelo menos na sua aparência. Pelo menos enquanto lhe fosse permitido ludibriar a si próprio.
E o engodo deu certo. O entorpecimento resultante foi bom. O pesar febril cedeu. (Mas a infecção da ignorância não arredou o pé.) O aconchego morno das vantagens relacionadas ao bem-estar e a acomodação que se sucederam ajudaram a sustentar tamanha arapuca. As estratégias se sofisticaram, e de invenções como o agrupamento social das pessoas, legalizando o poder, o controle, e a submissão (e a aspiração para tal), o suplício original revestiu-se de roupagem aceitável. Com o tempo, cada invento, o casamento, por exemplo, incorporou-se tão enraizadamente que o artificial transformou-se em natural. É infantil, mas até hoje é percebido assim.
Entretanto, a inconsciência ainda domina o homem. Para sair dela é preciso enfrentar, mesmo sob forte dor, a realidade que o psiquismo teima em negar. O próprio fato de o ser humano ser bem pouco consciente sobre o seu próprio estado já é uma evidência da escuridão em que se encontra mergulhado. Pior: se autoiludir, convencido de que se situa em um alto grau de consciência, pouco lhe criará incômodo, e, assim, dificilmente sairá do lugar, restando atrasado e bastante inconsciente dos deveres e direitos que têm para consigo mesmo. Não sem antes retirar, reflexiva e gradativamente, o manto do entorpecimento que lhe atrasa consideravelmente a própria evolução rumo à maturidade real e não autoenganada, como se pode perceber atualmente com certo esforço consciente.
Armando Correa de Siqueira Neto é psicólogo (CRP 06/69637), diretor da Self Consultoria em Gestão de Pessoas, palestrante, professor e mestre em Liderança pela Unisa Business School. Co-autor dos livros Gigantes da Motivação, Gigantes da Liderança e Educação 2006.


Criticar não ajuda

Milton Monti

O mundo se defronta com uma crise financeira dantesca. Mesmo assim, vemos alguns setores usando a velha receita da criatividade para crescer em meio à tempestade. Por que isso acontece? Porque existe o pensamento criativo, que garimpa a oportunidade de crescimento mesmo nos momentos de adversidades.
Lamentar os efeitos desastrosos da crise mundial não ajuda em nada. Criticar os erros de quem busca alternativas ajuda muito menos. O caminho para sair da crise o mais rápido possível é arregaçar as mangas, trabalhar com criatividade e determinação para superar as dificuldades.
Escrevo isso relembrando que há pouco tempo, em 2005, o setor automotivo enfrentava um momento que parecia ser o fim do túnel. Não era antes, como não é agora. Mas, naquele momento de crise, apresentei ao presidente Lula a sugestão de abrir linhas de financiamento via BNDES para que as prefeituras brasileiras pudessem renovar sua frota de veículos, maquinários e equipamentos. Nascia daquela sugestão o Provias, um programa federal de renovação de frota que já financiou R$ 300 milhões para prefeituras brasileiras até 2007, foi ampliado para R$ 500 milhões em 2008 e chega aos R$ 980 milhões neste ano. E vai continuar crescendo, porque é dinheiro barato para as prefeituras, porque melhora os serviços aos cidadãos em áreas que eles mais necessitam e porque injeta ânimo em toda a indústria automotiva, grande geradora de empregos e riquezas.
Neste momento em que a crise mundial é de crédito bancário, volto à mesa do presidente Lula e do seu Conselho Político com outra proposta. Recentemente, sugeri ao presidente e sua equipe a flexibilização do crédito para pequenas e médias empresas. Falo em crédito de baixo custo, com recursos disponíveis do BNDES para fazer chegar aos empresários o aporte necessário para financiar investimento e crescimento.
Atualmente, o sistema bancário comercial tem linhas de crédito do BNDES. Mas tem que arcar com o custo de ser o avalista da operação. Ou seja, o banco acaba atuando como fiador do empréstimo. Essa fórmula não funciona bem porque os bancos temem a inadimplência. Assim, o dinheiro existe, mas não chega a quem realmente produz riquezas para o País, mesmo neste momento de grande necessidade de crédito.
A proposta que levei ao Conselho Político do presidente Lula sugere que os bancos comerciais continuem operando as linhas de crédito do BNDES para financiar a empresa de pequeno porte. A novidade é que o próprio empresário passe a garantir o pagamento do empréstimo tomado para investir em seu negócio. Desse modo, o pagamento da dívida, em parcelas compatíveis com o orçamento da empresa, passa a ser uma relação direta entre o empresário e o BNDES.
A expectativa é que a flexibilização do crédito possibilite que os recursos disponíveis no BNDES cheguem de maneira mais eficiente a quem realmente precisa de dinheiro para tocar seu negócio e estimular a retomada do crescimento econômico. A sugestão está na mesa do presidente Lula, que mostrou interesse e prometeu analisar sua viabilidade. Acredito que, assim, criando alternativas viáveis e propondo caminhos para encurtar a retomada do crescimento e da manutenção do emprego para os milhões de trabalhadores brasileiros, contribuímos para superar o momento difícil pelo qual passa a economia do mundo. Isso é muito diferente do que simplesmente criticar o que está sendo feito e lamentar os efeitos da crise.
Milton Monti é deputado federal e vice-líder do governo na Câmara.


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