Variedades
'O Bem Amado' vem para repetir
sucesso da TV nas telas
Há 38 anos, o político Odorico Paraguaçu gritava, no meio da praça da cidade de Sucupira: "Vote em um homem sério e ganhe um cemitério". Seu fiel escudeiro, o gago Dirceu Borboleta, rasgava um sorriso no rosto, orgulhoso do patrão. "O grande entretanto" - como diria Odorico entre seus neologismos - era o matador Zeca Diabo, nada satisfeito com a demagogia do prefeito.
Muito menos a Censura Federal do Brasil. Com bom humor e críticas diluídas nos diálogos de seus personagens míticos da novela O Bem Amado, o escritor Dias Gomes (1922-1999) incomodou o governo do País de 70: o Regime Militar. Mas a repressão governamental ao deboche foi dura.
Daniel Filho, supervisor do folhetim, teve de enxugar a produção de 223 para 178 capítulos. Ainda assim, Odorico e sua trupe de personagens hilários e marcantes - adaptados da peça Odorico, O Bem-Amado ou Os Mistérios do Amor e da Morte (1962), também de Dias Gomes - conquistaram o Brasil.
Em 1973, cerca de 7,5 milhões de pessoas de sentavam em frente à TV, às 22h, para assistir à primeira transmissão a cores da dramaturgia nacional. Na época, o Brasil tinha 90 milhões de habitantes, mas apenas 27% das residências tinham tevê.
A tradução dos números indica que cerca de 70% das famílias que tinham TV em casa assistiram à estreia da novela. Seria como se hoje 120 milhões de brasileiros assistissem a um capítulo de novela - para efeito de comparação, a trama de maior audiência dos últimos 10 anos foi Senhora do Destino, que em seu auge foi vista por 45 milhões de pessoas em todo o País.
Depois de tornar-se a primeira novela a ser exportada - primeiro para o Uruguai, em 1975, e depois para países como Angola, Bolívia, Chile, Espanha, Guatemala e Estados Unidos -, O Bem Amado virou série, ficando no ar de 1980 a 1984, na Globo. A série fez tanto sucesso que, em agosto de 1981, ao deixar o cargo de Chefe da Casa Civil, o general Golbery do Couto e Silva, Braço direito do presidente Ernesto Geisel, disse aos jornalistas: "Não me perguntem nada. Acabo de deixar Sucupira".
Nesta sexta, 23, depois de 26 anos longe dos holofotes, a cidade de Sucupira voltará à cena, nos cinemas de todo o Brasil. O diretor Guel Arraes, responsável por produções de sucesso, como TV Pirata (1988) e O Auto da Compadecida (2000), é quem assina a direção e a adaptação do longa O Bem Amado. "Esse é o grande momento de fazer uma sátira à política. O povo brasileiro despertou interesse pelo assunto. E a esquerda não é mais a vítima, já subiu ao poder. Melhor ainda para explorar os defeitos", diz Guel.
Sob o sol do Nordeste - Apesar de, na ficção, Sucupira estar localizada no litoral baiano, na versão cinematográfica, a cidade escolhida como cenário para as armações do corrupto e engraçado prefeito Odorico Paraguaçu (Marco Nanini) fica em Alagoas. De janeiro a fevereiro do ano passado, o pequeno município de Marechal Deodoro, fincado a 137 quilômetros de Maceió, virou Sucupira. A cidade, que celebrará 400 anos em 2011, tem 18 igrejas, 30 pousadas, um mini shopping e uma agência bancária.
A ideia inicial era filmar o longa em Olinda, Pernambuco - estado de origem de Guel Arraes -, mas o diretor foi seduzido por Marechal Deodoro. Lá, encontrou a luz perfeita, ao Sol escaldante de 45 graus, para as filmagens diárias de 12 horas, com início sempre em torno das 5h da manhã. E reencontrou uma passagem da vida de seu pai, o ex-governador pernambucano Miguel Arraes (1916-2005). Carlito Lima, 70 anos, hoje secretario de turismo de Marechal, em 1964 pertenceu ao Exército Brasileiro e esteve presente, como tenente, quando da prisão do pai de Guel Arraes.
Com o Golpe Militar de 64, foi proposto ao governador Arraes que renunciasse ao cargo para evitar a prisão. Ele recusou. No dia 1º de abril, foi detido e isolado por 11 dias no arquipélago de Fernando de Noronha. "Mesmo assim, eu e o Guel ficamos amigos. Eu acompanhei a filmagem de várias cenas", diz Carlito, com o sotaque arrastado. Dos 48 mil habitantes de Marechal Deodoro, cerca de 10% deles viraram figurantes nas sequências rodadas na praça pública, na estação rodoviária e na lanchonete.
Nas filmagens feitas na bela praia do Gunga, a 33 quilômetros de Maceió, os atores aproveitavam os intervalos para fugir do Sol, correndo para uma tenda montada pela produção entre os coqueiros. Lá, se livravam, por alguns minutos, do figurino barroco social - com paletó, sapato e chapéu - e faziam a refeição do dia: arroz, feijão, frango e carne. "O Calor foi um capítulo à parte. Era infernal", diz Marco Nanini, o Odorico Paraguaçu do filme.
O gasto com a produção foi grande: R$ 8,3 milhões (o longa nacional mais caro até hoje foi Lula, o Filho do Brasil, que custou R$ 12 milhões). Para garantir qualidade e não fazer feio na bilheteria, Guel Arraes e o parceiro Cláudio Paiva fizeram um minucioso trabalho de adaptação. "Perdi as contas dos almoços que fizemos na casa do Guel, olhando, revisando, voltando o texto", lembra Paiva, que acompanhou a novela (1972) e o seriado (1980).
Guel, por sua vez, só agora foi conhecer as brilhantes interpretações de Paulo Gracindo e Lima Duarte - respectivamente como Odorico Paraguaçu e Zeca Diabo. "A novela serviu para pegar detalhes do vocabulário e sugestões de imagens. Faz uns 15 anos que tive contato com a obra do Dias Gomes. Não fiz o filme antes porque a novela ainda estava muito viva na memória das pessoas", conta o diretor.
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