Saúde
Medicina à distância deve se tornar
tendência no futuro
A população mundial está envelhecendo e cada vez mais gente vai precisar de assistência médica. A conta não vai fechar se a medicina continuar a ser praticada em consultórios e hospitais. Mas o cenário deve mudar bastante.
A análise é de um grupo de especialistas da Ernst & Young, consultoria internacional que atende empresas interessadas em saber para onde vai caminhar o mercado da medicina.
De acordo com o trabalho, uma parte importante da assistência médica no futuro será feita no que a Ernst & Young chamou de o "terceiro lugar" (os outros dois são o hospital e o consultório).
Esse terceiro lugar seria, por exemplo, a casa do paciente que tem doenças crônicas como diabetes, obesidade e problemas respiratórios --ou onde ele estiver.
Por isso, as principais inovações na área de saúde virão de tecnologias que permitam assistência remota, como aplicativos para tablets e para celulares que lembrem o horário de tomar um medicamento, por exemplo.
"Hoje, 75% dos custos de assistência médica vêm de doenças crônicas e número tende a aumentar. Esses pacientes não precisam estar no hospital, mas necessitam de acompanhamento", explica Glen Giovannetti, um dos coordenadores do estudo.
"É uma espécie de renovação da ideia do 'médico da família'", explica Patrick Flochel, da Ernst & Young.
"Só que o médico ficará acessível por novas maneiras. Isso causará uma mudança de comportamento do médico e do paciente."
VIDA REAL
De acordo com o médico Chao Lung Wen, professor de telemedicina da Faculdade de Medicina da USP, esse monitoramento remoto vai reforçar os vínculos do paciente com os profissionais de saúde, motivando-o a seguir os tratamentos prescritos.
"Mais de 50% dos tratamentos falham porque as pessoas não entendem como usar o medicamento. Muita gente abre cápsulas de remédio em vez de engolir, o que pode impedir a absorção da droga. A tecnologia vai ajudar a reforçar a compreensão do que foi passado pelo médico", afirma Wen.
O médico da USP está trabalhando em uma parceria com uma operadora de celular para lançar um serviço de "nuvem da saúde". A ideia é que essa rede de informações médicas esteja acessível em diferentes níveis: um gratuito, com informações de utilidade pública sobre prevenção, vacinas e epidemias, e outros com acesso pago, com assuntos de interesse específico do usuário e participação em grupos de discussão com profissionais de saúde.
VELHOS REMÉDIOS
Quem também deve mudar de papel no futuro da assistência médica é a indústria farmacêutica. Isso porque as inovações em saúde virão mais de setores tecnológicos e menos de novas drogas.
Segundo a consultoria Thomson Reuter, em 2010, apenas 21 drogas inovadoras foram lançadas. No ano anterior, o número chegou a 26.
Além disso, a maioria das doenças crônicas não será curada com novos remédios --mas precisam de cuidados específicos e recorrentes.
"Não podemos dizer que as farmacêuticas estão em maus lençóis. Mas elas estão começando a se associar com outros setores, como o alimentício, para desenvolver novos produtos", diz Flochel.
O problema, de acordo com o oftalmologista Rubens Belfort, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e presidente da SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina), é que os médicos não estão sendo preparados para lidar com as doenças que mais vão predominar no futuro -e que não precisam de hospital.
"Os médicos hoje são treinados para salvar vidas em hospitais como faz o House [referindo-se ao médico da série homônima americana]", diz. "Mas o paciente cada vez mais irá ao hospital só se o tratamento em casa não estiver dando certo", conclui.
Estudo afirma que ronco forte aumenta chance de câncer
Pessoas que roncam muito e sofrem de graves distúrbios respiratórios durante o sono têm uma probabilidade quase cinco vezes maior de morrer de câncer, segundo uma pesquisa americana.
Cientistas da Universidade de Wisconsin-Madison acreditam que a correlação pode ser explicada pelo suprimento inadequado de oxigênio durante a noite nos pacientes com o problema.
Testes de laboratório já haviam mostrado que a interrupção intermitente da respiração leva a um crescimento mais acelerado de tumores, já que a falta de oxigênio estimula o crescimento de vasos sanguíneos que nutrem os tumores.
Os pesquisadores analisaram dados de mais de 1.500 pacientes que participaram de um estudo sobre DROS (sigla de Distúrbios Respiratórios Obstrutivos do Sono) ao longo de 22 anos.
A forma mais comum de DROS é a apneia obstrutiva do sono, na qual a respiração é bloqueada deixando a pessoa sem ar.
Isso provoca ronco e a interrupção do sono e o problema é geralmente associado a obesidade, diabetes, pressão alta, ataques cardíacos e derrames.
Os participantes do estudo nos Estados Unidos passaram por testes a cada quatro anos que incluíam análises de sono e respiração.
Os resultados mostraram que a probabilidade de morte por câncer aumentava drasticamente de acordo com a gravidade do distúrbio.
Enquanto pacientes com uma forma leve de DROS tinham apenas 0,1 vez mais chance de morrer de câncer que aqueles não sofrem com o problema, nos pacientes com uma forma moderada de DROS a chance de morte por câncer dobrava.
Já naqueles com distúrbios graves de respiração, o risco aumentava 4,8 vezes.
DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO
O estudo --apresentado na conferência internacional da American Thoracic Society, em San Francisco, e que será publicado no American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine-- fez ajustes para levar em conta outros fatores como idade, sexo, índice de massa corporal e fumo, que poderiam influenciar o resultado.
"A consistência dos indícios dos experimentos com animais e deste novo estudo epidemiológico em humanos é muito convincente", disse o coordenador do trabalho, Javier Nieto, da Escola de Medicina e Saúde Pública da Universidade de Wisconsin.
Agora, os cientistas querem ampliar os estudos sobre a questão e examinar a relação entre DROS, obesidade e mortalidade por câncer.
"Se a relação entre DROS e mortalidade por câncer for confirmada em outros estudos, o diagnóstico e tratamento de DROS em pacientes com câncer pode ser indicado para aumentar a sobrevida."
Geriatras atacam uso de antioxidante e hormônio contra envelhecimento
Terapias que prometem combater os efeitos do envelhecimento, usando vitaminas, antioxidantes e hormônios, não têm comprovação científica de sua eficácia e podem aumentar os riscos de diabetes e câncer.
O alerta foi feito por especialistas brasileiros e estrangeiros na abertura do Congresso Brasileiro de Geriatria e Gerontologia, no Rio.
Eles querem elaborar um documento que subsidie o CFM (Conselho Federal de Medicina) e a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) na formulação de novas regras que coíbam a prática da chamada "medicina antiaging" no país.
Oficialmente, ela não é reconhecida como especialidade médica, mas não há punição para quem a pratica.
Um dos vilões dessa terapia é o hormônio do crescimento (GH), que tem indicações muito restritas (pessoas com nanismo, pacientes renais crônicos e portadores de HIV, por exemplo), mas que hoje é prescrito com o objetivo de ganho de músculos e queima de gordura.
Segundo a geriatra Elisa Franco, da Câmara Técnica de Geriatria do CFM, 60% das indicações desses hormônios são "off label", ou seja, por conta e risco do médico que os indicam, sem amparo científico de que sejam eficazes.
ÓRGÃOS CRESCIDOS
Estudos mostram que essas drogas dobram o risco de tumores de fígado e aumentam em quatro vezes as chances de a pessoa ter diabetes. Também há relatos de acromegalia (crescimento de órgãos, inclusive o coração).
Para o geriatra Thomas Perls, professor da Escola de Medicina da Universidade de Boston (EUA), médicos que estão propondo essa terapia com o propósito de retardar o envelhecimento são "antiéticos e antiprofissionais".
"Nos EUA, não conseguimos muita coisa ao tentar coibir essa prática. Espero que vocês tenham mais sorte", disse Perls .
Outra crítica foi em relação à venda dos chamados hormônios bioidênticos, que também retardariam a velocidade do envelhecimento.
"Não há nenhum estudo científico sério que ateste algum benefício desses hormônios", afirma a presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, Silvia Pereira.
"Não entendo por que o alarde. Os bioidênticos são produzidos e registrados no mundo todo", diz Edson Luiz Peracchi, presidente da Academia Brasileira de Medicina Antienvelhecimento.
Outros hormônios (como a testosterona e o tireoidiano) e vitaminas (E, C e betacaroteno) têm sido indicados com o mesmo objetivo, mas, segundo os especialistas, também não têm o apoio das evidências científicas.
SOBRECARGA
Um dos riscos da ingestão desnecessária de vitaminas é a sobrecarga dos rins. Pesquisas recentes também associaram a vitamina E a um risco maior de câncer de próstata.
"Em geral, quem tem acesso a essa tal de medicina 'antiaging' é a elite. São pessoas que têm acesso ao conhecimento, mas preferem se iludir", diz Silvia Pereira.
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